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Onde render melhor o dinheiro parado, agora que o BCE está em 2,50%

11 min de leitura · atualizado a 14 de setembro de 2026

resumo em 60 segundos

O BCE subiu a taxa de depósito para 2,50% a 10/09/2026 (em vigor desde 16/09) — a segunda subida do ano. No mesmo mês, os Certificados de Aforro Série F atingiram o seu próprio teto, também 2,50%. Coincidência de números, não de mecanismo: são produtos diferentes, com tributação igual (28%) mas prazos e liquidez muito diferentes. Não existe hoje nenhuma Obrigação ou Bilhete do Tesouro de curto prazo que um particular consiga subscrever diretamente em Portugal — por isso a comparação de rendimento é apenas entre Certificados de Aforro e Depósitos a Prazo. Em líquido, num exemplo de 10.000€, a Série F rende cerca de 181€/ano, mas sem qualquer prazo mínimo; os três melhores Depósitos a Prazo confirmados rendem mais no seu prazo confirmado, mas exigem novos clientes, montantes mínimos e, nalguns casos, meses sem qualquer acesso ao dinheiro. E quem tem crédito habitação variável já sente o efeito da subida do BCE: para 250.000€ a 30 anos, a prestação sobe cerca de 36€/mês.

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Duas notícias desta semana, lidas em separado, parecem só números de banco central. Lidas em conjunto, mudam a resposta a uma pergunta muito prática: hoje, em 14 de setembro de 2026, onde deves colocar o dinheiro que tens parado — e quanto te vai custar, todos os meses, se tiveres crédito habitação variável. Vamos às duas coisas, com contas feitas, não com taxas anunciadas em letra grande.

1. As duas subidas do BCE em 2026

O Banco Central Europeu subiu as suas três taxas diretoras duas vezes este ano. A mais citada — a taxa de depósito, que remunera o dinheiro que os bancos deixam no BCE de um dia para o outro — passou de um patamar anterior para 2,25% a partir de 17/06/2026 (decisão de 11/06/2026), e depois para 2,50% a partir de 16/09/2026 (decisão de 10/09/2026). Nas duas reuniões intermédias do ano (30/04 e 23/07), o BCE manteve as taxas inalteradas — não houve uma terceira subida até à data.

As duas subidas do BCE em 2026
DecisãoData da reuniãoEm vigor desdeTaxa de depósitoTaxa de refinanciamentoCedência marginal
1.ª subida de 202611/06/202617/06/20262,25%2,40%2,65%
2.ª subida de 202610/09/202616/09/20262,50%2,65%2,90%

É esta segunda subida, de 10 de setembro, que dá o mote a este artigo — porque coincide, quase ao décimo, com outro número que saiu esta semana: o teto dos Certificados de Aforro Série F.

2. Onde render melhor o dinheiro parado

Antes de comparar produtos, uma clarificação necessária: hoje não existe nenhum título de dívida pública de curto prazo — Bilhetes do Tesouro ou uma nova Obrigação do Tesouro de Rendimento Variável — que um pequeno aforrador consiga subscrever diretamente em Portugal. Os Bilhetes do Tesouro só são leiloados a Operadores Especializados (bancos), não a particulares; a única série de OTRV (maturidade julho de 2031) teve a subscrição encerrada a 15/07/2025 e, mesmo que estivesse aberta, não seria um produto de curto prazo. Quem quiser mesmo dívida pública portuguesa só o consegue via mercado secundário (Euronext, através de uma corretora), com taxas e comissões que não fazem parte deste artigo por não termos conseguido confirmá-las. Por isso, a comparação a seguir é apenas entre Certificados de Aforro e Depósitos a Prazo — as duas opções que, hoje, um particular consegue mesmo subscrever.

Os quatro produtos em cima da mesa

Certificados de Aforro Série F vs. os 3 melhores Depósitos a Prazo confirmados
ProdutoTaxa (TANB)PrazoCondições principais
Certificados de Aforro Série F2,50% (teto atingido)Sem prazo fixo — resgate quando quiseresIndexado à Euribor a 3 meses (floor 0%, cap 2,50%) + prémio de permanência a partir do 2.º ano
Banco BIG — Super Depósito3,25%3 meses5.000€–50.000€ · só novos clientes
BAI Europa — Depósito Novos Clientes3,05%6 meses2.500€–10.000.000€ · só para quem é cliente há menos de 90 dias · não renovável · sem mobilização antecipada
ActivoBank — Depósito Novos Clientes AB3,00%90 dias500€–10.000€

Reparaste no que falta na tabela? Prazo. Nenhum destes três Depósitos a Prazo dura 12 meses — duram 3, 6 e 3 meses, respetivamente. Isso importa muito para a conta que se segue, porque uma taxa de 3,25% "ao ano" só se aplica de facto durante um trimestre; depois disso, tens de renovar, e o banco não te garante hoje a que taxa.

A conta líquida, a sério: 10.000€ colocados hoje

Todos estes rendimentos — Certificados de Aforro, Depósitos a Prazo e, se existisse, dívida pública — pagam a mesma taxa liberatória de IRS: 28% (artigo 71.º do Código do IRS, categoria E). Não há vantagem fiscal de um produto sobre o outro. A diferença está toda na taxa, no prazo e nas condições. Eis o que sobra de 10.000€, líquido de imposto, para o prazo que cada produto efetivamente confirma hoje:

10.000€ líquidos de IRS, no prazo confirmado de cada produto
ProdutoPrazo confirmadoJuro brutoJuro líquido (após 28%)Capital final
Certificados de Aforro Série F12 meses (juros capitalizados por trimestre)≈ 251,69€≈ 181,22€≈ 10.181,22€
Banco BIG3 meses81,25€58,50€10.058,50€
BAI Europa6 meses152,50€109,80€10.109,80€
ActivoBank90 dias≈ 73,97€≈ 53,26€≈ 10.053,26€

Os valores da Série F já refletem que os juros vencem e capitalizam trimestralmente, líquidos de imposto em cada capitalização (a retenção é feita pelo IGCP, não precisas de fazer nada). Os valores dos Depósitos a Prazo usam juro simples sobre o prazo confirmado, com a convenção de dias habitual para cada duração.

e se projetares os depósitos para 12 meses?

Se renovasses o BIG mais 3 vezes, o BAI Europa mais 1 vez, e o ActivoBank mais 3 vezes, sempre à mesma taxa de hoje, terminarias o ano com cerca de 236€ líquidos (BIG), 221€ (BAI Europa) e ≈215€ (ActivoBank, recalculado com o prazo de 90 dias que o próprio produto confirma — ver nota de cálculo abaixo) — todos acima dos 181€ da Série F. Mas repara no "sempre à mesma taxa": isto é uma projeção, não uma garantia. O BIG, o BAI Europa e o ActivoBank são campanhas exclusivas para novos clientes — o BAI Europa, aliás, é o mais explícito dos três: o depósito não é renovável e exige seres cliente há menos de 90 dias. Nada garante que, ao "renovares", ainda te enquadres nessa condição ou que a taxa promocional continue a existir em qualquer um dos três. A Série F, por comparação, não tem esse risco de renovação: o dinheiro nunca sai do produto, só o valor do teto (2,50%) pode ser revisto para baixo se a Euribor a 3 meses descer — nunca para cima do teto.

Nota de cálculo (ActivoBank a 12 meses): o produto confirma um prazo de 90 dias (não 91,25, que é a convenção de "trimestre-padrão" usada para o BIG). Com juro líquido reinvestido a cada período de 90 dias — 10.000 × 3,00% × 90/365 = 73,97€ brutos, 53,26€ líquidos no 1.º período — e capitalizando 4 vezes (360 dias, a aproximação mais próxima de 12 meses com períodos de 90 dias), o capital final é ≈10.214,75€, ou seja, ≈214,75€ de juro líquido acumulado — não os ≈218€ que resultariam (por engano) de aplicar períodos de 91,25 dias.

Há ainda um detalhe que só conta a favor de quem pensa em prazos mais longos: o prémio de permanência da Série F. No primeiro ano não há prémio, mas a partir do 2.º ano soma-se +0,25 p.p. à taxa base então em vigor (que pode já não ser 2,50% — está indexada e é revista mensalmente), subindo para +0,50 p.p. entre os anos 6 e 9, +1,00 p.p. nos anos 10-11, +1,50 p.p. nos anos 12-13, e até +1,75 p.p. entre os anos 14 e 15. Ou seja: quanto mais tempo deixares o dinheiro parado na Série F, maior a vantagem relativa face a um Depósito a Prazo que, a cada renovação, está sujeito à taxa que o banco quiser oferecer nesse dia.

o que não está confirmado

Se és residente fiscal nos Açores, tens direito a uma taxa liberatória reduzida em vez dos 28% do regime geral — mas as fontes que consultámos sobre o valor exato divergem entre si de forma significativa, por isso preferimos não publicar um número que poderíamos estar a confirmar errado. Confirma o valor exato aplicável junto da tua instituição financeira ou do Portal das Finanças/Serviço Regional de Finanças antes de fazeres qualquer conta com base nele. E a Euribor a 3 meses que o IGCP usa para calcular a taxa base da Série F (uma média de 10 dias úteis) não é publicada isoladamente pelo IGCP — só o resultado final da taxa mensal.

Na prática: se este dinheiro é o teu fundo de emergência ou algo que podes precisar a qualquer momento, a liquidez total da Série F (ou de uma conta remunerada) continua a valer mais do que 0,5 ou 0,7 pontos percentuais extra presos num Depósito a Prazo de novos clientes. Se é dinheiro que sabes, com razoável certeza, que não vais tocar durante o prazo exato do depósito, os três Depósitos a Prazo confirmados rendem mais no seu prazo — mas fazes a conta sabendo que a comparação a 12 meses é uma projeção, não uma promessa do banco.

3. Quanto sobe a prestação do crédito habitação com o BCE em 2,50%

Quem tem crédito habitação a taxa variável (ou a componente variável de uma taxa mista) não sente o BCE diretamente — sente-o através da Euribor, que reage às decisões e expectativas do BCE. Usamos a fórmula da prestação constante (o método "francês", o mais comum em Portugal):

Prestação = C × [i×(1+i)ⁿ] / [(1+i)ⁿ−1], com i = (Euribor + spread) / 12

As Euribor que usamos abaixo, confirmadas em duas fontes independentes (euribor-rates.eu e a cobertura diária do OCaçaPromoções), são as da fixação de 11/09/2026 — a mais recente disponível à data de publicação: 14/09/2026 é domingo, e a Euribor não tem fixação ao fim de semana. Os valores: a 3 meses, 2,647%; a 6 meses, 2,820%; a 12 meses, 3,160%. Quanto ao spread, o valor de 0,89 p.p. do Banco de Portugal é de 2024 e está ultrapassado: o valor mais recente que encontrámos é 0,75 p.p., referente a março de 2026, dado do Banco de Portugal citado pela ECO (artigo de 07/07/2026 sobre a compressão de spreads no crédito habitação). É esse valor mais recente que usamos abaixo. Com este spread, e consoante o indexante do teu contrato, a prestação atual para dois montantes fica assim:

Prestação atual (Euribor de 11/09/2026), consoante o indexante — spread médio BdP 0,75 p.p. (mar/2026, via ECO)
IndexanteEuriborTaxa total150.000€ / 30 anos250.000€ / 30 anos
Euribor 3 meses2,647%3,397%664,97€/mês1.108,29€/mês
Euribor 6 meses2,820%3,570%679,44€/mês1.132,40€/mês
Euribor 12 meses3,160%3,910%708,36€/mês1.180,60€/mês

Repara que quanto mais curto o indexante, mais baixa está hoje a Euribor — a curva está invertida, sinal de que o mercado ainda espera mais subidas à frente. Isto também significa que quem tem o contrato indexado à Euribor a 3 ou 6 meses sente as subidas do BCE mais depressa (revisão mais frequente), enquanto quem está indexado à Euribor a 12 meses só vê o efeito completo na próxima revisão anual.

Antes e depois da subida de 10 de setembro

Nota de método: o valor exato da Euribor imediatamente antes da decisão do BCE de 10/09/2026 não foi possível confirmar com segurança para este artigo — os valores que tínhamos para essa comparação estavam desatualizados e foram descartados em vez de publicados. Para ilustrar o efeito, comparamos o cenário atual com um cenário em que a Euribor a 12 meses seria 0,25 p.p. mais baixa — exatamente a dimensão da subida decidida pelo BCE a 10/09. Não é um valor histórico certificado; é uma simulação do efeito de uma subida desta grandeza, usando o indexante mais comum em contratos mais antigos.

Efeito de uma subida de 0,25 p.p. na Euribor 12 meses (spread 0,75 p.p., mar/2026)
CenárioEuribor 12MTaxa total150.000€ / 30 anos250.000€ / 30 anos
Antes (ilustrativo, −0,25 p.p.)2,910%3,660%687,04€/mês1.145,06€/mês
Depois (atual, fixação de 11/09/2026)3,160%3,910%708,36€/mês1.180,60€/mês
Diferença+0,25 p.p.+0,25 p.p.+21,33€/mês (+255,92€/ano)+35,54€/mês (+426,53€/ano)

Em termos relativos, o aumento ronda os 3,1% da prestação em ambos os casos — a proporção não muda muito com o valor do empréstimo, só o valor absoluto em euros.

isto não acontece de um dia para o outro

A tua prestação não sobe amanhã só porque a Euribor subiu hoje. O contrato só revê a taxa na data de revisão prevista — normalmente de 3 em 3 meses, de 6 em 6 meses ou anualmente, consoante o indexante escolhido. E se tens taxa fixa (ou estás na parte fixa de uma taxa mista), nada disto te afeta durante o período de fixação. O spread, esse, mantém-se fixo durante toda a vida do crédito, salvo renegociação — só a componente Euribor flutua.

Vale também notar que o spread médio do Banco de Portugal (0,75 p.p., março de 2026) é uma média de todo o mercado — o teu pode ser bem diferente. Um comparador de mercado (não o Banco de Portugal, dados de julho de 2026) apontava spreads indicativos entre 0,60% (BPI) e 1,19% (UCI). Só essa diferença, com Euribor a 12 meses atual, muda a prestação de 250.000€/30 anos entre cerca de 1.159€/mês e 1.245€/mês — quase 85€ de diferença todos os meses, sem a Euribor se mexer nada.

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Nota: conteúdo informativo e educacional, não constitui aconselhamento financeiro personalizado, e reflete a informação disponível a 14/09/2026. Taxas do BCE, Certificados de Aforro Série F e Depósitos a Prazo podem ser revistas a qualquer momento pelas respetivas entidades — confirma sempre as condições em vigor antes de subscrever. Os valores de prestação de crédito habitação são cálculos próprios aplicando a fórmula da prestação constante aos dados de Euribor e ao spread médio indicados; o teu contrato real pode ter um spread, indexante e data de revisão diferentes. O valor exato da taxa liberatória reduzida aplicável a residentes fiscais nos Açores não foi possível confirmar com segurança — as fontes disponíveis divergem entre si — por isso confirma-o junto da tua instituição financeira ou do Portal das Finanças antes de fazeres contas com base nele.