Escolher entre taxa fixa, variável ou mista é decidir quem suporta o risco de subida de juros — tu ou o banco. Compara sempre TAEG e MTIC, nunca só o spread ou a TAN. Antes de assinar, calcula a tua prestação em 4-5 cenários de taxa diferentes, não só na taxa de hoje — se um cenário plausível já destrói o teu orçamento, o crédito pode ser demasiado grande para o teu rendimento. O Banco de Portugal limita o LTV a 90% para habitação própria e permanente (80% para segunda habitação) e o DSTI a 45% desde agosto de 2026 — mas ambos os limites têm margens de exceção que os bancos usam com regularidade, por isso não assumas que estás automaticamente dentro ou fora deles. Confirma o LTV com base na avaliação do banco, não no preço de compra, e nunca esqueças os custos de escritura (impostos, registo, avaliação) que ficam de fora do financiamento.
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Comprar uma casa envolve duas decisões diferentes: quanto custa a casa, e quanto custa financiá-la. A segunda pode alterar brutalmente o custo total ao longo dos anos — e é normalmente tomada sob pressão de tempo, sem comparação séria entre propostas. Num crédito habitação não estás só a escolher uma taxa; estás a escolher quem vai suportar o risco de variação das taxas de juro ao longo de décadas, e essa escolha pode valer dezenas de milhares de euros.
Os três tipos de taxa
Na taxa variável, a taxa é composta por Euribor mais spread, e pode ser revista segundo a periodicidade contratada (3, 6 ou 12 meses). Se a Euribor sobe, a prestação tende a subir; se desce, tende a descer. Normalmente começa mais baixa do que uma taxa fixa equivalente, mas a prestação não é totalmente previsível ao longo do tempo.
Na taxa fixa, a taxa contratada mantém-se durante o período definido — se for fixa para todo o prazo, a prestação de capital e juros é previsível dentro da estrutura contratual. A vantagem é proteção contra subidas de taxa; a desvantagem é que normalmente pagas um prémio por essa previsibilidade, porque estás a transferir o risco de subida das taxas para o banco, e o banco cobra por assumir esse risco. Se as taxas descerem, continuas preso à taxa que contrataste.
A taxa mista combina as duas: começas com um período fixo (2, 5 ou 10 anos, por exemplo) e depois passas a variável — uma espécie de compromisso entre previsibilidade agora e exposição às taxas mais tarde. É uma estrutura muito comum em Portugal. Mas atenção: a taxa mista não elimina o risco de taxa, apenas o adia para depois do período fixo terminar — e pode criar uma falsa sensação de segurança se esqueceres que, ao fim de 5 anos, por exemplo, voltas a estar exposto à Euribor tal como quem escolheu variável desde o início.
A Euribor e o spread — o que realmente compõe a tua taxa
A Euribor é uma taxa de referência do mercado monetário do euro; para crédito habitação, as referências mais comuns em Portugal são 3, 6 e 12 meses. Uma Euribor mais baixa não significa automaticamente crédito mais barato — é preciso somar sempre Euribor mais spread mais custos associados. Por exemplo, com Euribor a 2,50% e spread de 0,80%, a TAN aproximada seria 3,30%. Se a Euribor subir para 4,00%, mantendo o mesmo spread, a TAN passa a aproximadamente 4,80% — é esta componente que introduz o risco de taxa que discutimos ao longo deste guia.
Em meados de setembro de 2026, a Euribor cotava aproximadamente: 3 meses 2,65%, 6 meses 2,82%, 12 meses 3,16%. Repara que as três maturidades não estão coladas — a de 12 meses, mais usada em muitos contratos portugueses, está quase 0,5 pontos percentuais acima da de 3 meses neste momento, o que reflete expectativas do mercado sobre a evolução futura das taxas. Isto significa que a periodicidade de revisão que escolheres (3, 6 ou 12 meses) não é neutra: com uma curva assim, uma revisão a 3 meses tende a refletir mais depressa uma eventual descida futura da Euribor, enquanto uma revisão a 12 meses "tranca" a taxa atual, para o bem e para o mal, durante um ano inteiro de cada vez. Confirma sempre o valor mais atual antes de decidires — a Euribor move-se diariamente, e este valor fica desatualizado com o tempo.
Pode ter mesmo — mas se exige seguro de vida, multirriscos, cartão de crédito e domiciliação de ordenado para conceder esse spread, o custo total pode acabar superior ao de um banco com spread mais alto e menos exigências. É por isto que tens de comparar sempre a TAEG e o MTIC, nunca só o spread anunciado em destaque.
A matemática da prestação — a fórmula, explicada sem mistério
Num empréstimo amortizável pelo sistema francês (o mais comum em crédito habitação, com prestação constante), a prestação mensal calcula-se por:
P = C × [i × (1+i)ⁿ] ÷ [(1+i)ⁿ − 1]
onde P é a prestação, C é o capital em dívida, i é a taxa de juro mensal (taxa anual ÷ 12), e n é o número total de prestações (prazo em anos × 12).
Não precisas de fazer esta conta à mão — é para isso que serve o nosso simulador de crédito habitação — mas perceber a fórmula ajuda a entender por que razão taxa, prazo e capital interagem da forma como interagem: a mesma variação de taxa pesa mais quanto maior for o capital e mais longo for o prazo restante.
O stress test — calcula a tua prestação em 5 cenários, não só no de hoje
Antes de assinares qualquer contrato de taxa variável ou mista, faz esta simulação com os teus próprios números. Usando como exemplo um crédito de 250.000€ a 30 anos, eis como a prestação evolui consoante a taxa:
| Taxa anual | Prestação mensal |
|---|---|
| 2% | 924€ |
| 3% | 1.054€ |
| 4% | 1.194€ |
| 5% | 1.342€ |
| 6% | 1.499€ |
Repara na diferença entre os extremos: subir de 2% para 6% quase duplica a prestação mensal, sobre o mesmo capital e prazo. Com a Euribor a 12 meses atual de 3,16% mais um spread típico de 0,8% a 1%, muita gente está hoje já a pagar uma TAN próxima dos 4%, ou seja, algures a meio desta tabela — não no extremo baixo. Se conseguires suportar confortavelmente o cenário de 5-6%, tens uma margem de segurança real. Se o cenário de 4% já aperta seriamente o teu orçamento, o crédito pode estar dimensionado para o limite máximo da tua capacidade, não para uma margem confortável — e é exactamente isto que o choque de stress do Banco de Portugal (que vais ver a seguir, no cálculo do DSTI) tenta capturar.
Quanto custa mesmo comprar casa, além do preço no anúncio
Além do preço da casa, há sempre IMT, Imposto do Selo sobre a aquisição, Imposto do Selo sobre o próprio financiamento, custos de escritura e registo, avaliação bancária, comissões, e os seguros exigidos pelo banco. O IMT é calculado segundo regras próprias, e nalgumas situações a base tributável pode ser influenciada pelo Valor Patrimonial Tributário (VPT) — a Autoridade Tributária aplica, em regra, o mais elevado entre o valor de compra e o VPT quando essa regra se aplica.
| Custo | Valor aproximado |
|---|---|
| IMT | Progressivo, calculado sobre o mais elevado entre preço e VPT |
| Imposto do Selo sobre a aquisição | 0,8% da base tributável, em regra |
| Imposto do Selo sobre o financiamento | Varia com o prazo, segundo a tabela aplicável |
| Escritura, registo e avaliação | Algumas centenas de euros, variável |
| Seguros (multirriscos obrigatório, vida normalmente exigido) | Varia com idade, capital e seguradora |
Isenções para jovens até 35 anos — o IMT Jovem
O regime do IMT Jovem aplica-se, em determinadas condições, a quem tem idade igual ou inferior a 35 anos, não é dependente para efeitos de IRS, e está a adquirir a primeira habitação própria e permanente. A Autoridade Tributária exige ainda que a pessoa não seja titular de direito de propriedade (ou figura parcelar desse direito) sobre um prédio urbano habitacional no momento da compra, nem nos três anos anteriores — uma condição que muita gente desconhece e que pode invalidar a isenção mesmo achando que cumpre os outros requisitos.
Em 2026, no Continente, o limite para a isenção integral de IMT e Imposto do Selo na aquisição é 330.539€. Acima desse valor, dentro das condições legais, a isenção pode ser apenas parcial. Nos Açores e na Madeira os valores de referência podem diferir dos do Continente — as regiões autónomas têm historicamente acompanhado a lógica do regime nacional, mas com escalões e limites próprios, por isso não assumas automaticamente o valor do Continente se comprares fora dele: confirma o valor em vigor junto do Portal das Finanças ou da administração fiscal regional. Vale a pena repetir uma distinção importante: pagar menos imposto não significa precisar de menos dinheiro para os restantes custos da compra — o Imposto do Selo sobre o próprio financiamento, por exemplo, continua a aplicar-se independentemente da idade.
Garantia pública para jovens — o que é, e o que não é
É uma medida diferente da isenção fiscal, e frequentemente confundida com ela. A garantia pública pode permitir financiamento entre 85% e 100% do valor da transação, desde que cumpridos os requisitos legais. Para os contratos abrangidos, o valor da transação não pode exceder 450.000€, e os contratos têm de ser celebrados dentro do prazo previsto no regime atual (até 31 de dezembro de 2026, segundo as regras em vigor à data deste guia).
A garantia pública não é dinheiro oferecido pelo Estado — é uma garantia que pode cobrir até 15% do valor da transação, incidindo sobre o capital do crédito. O banco continua a avaliar normalmente a tua capacidade financeira; a garantia facilita o acesso a financiamento mais alto, não substitui a avaliação de risco do banco. Vale ainda a pena saber que o Banco de Portugal tem vindo a acompanhar de perto o uso desta garantia dentro do quadro macroprudencial mais apertado desde agosto de 2026 — não assumas que a garantia pública te isenta automaticamente dos limites de DSTI explicados a seguir.
Com financiamento de 180.000€ e entrada de 20.000€, ainda vais precisar de dinheiro extra para impostos, registos, escritura e avaliação — normalmente mais alguns milhares de euros. Se fores elegível para o IMT Jovem, a conta fiscal pode mudar substancialmente. Por isso, evita regras genéricas do tipo "preciso de 10% de entrada mais 8.000€" — calcula sempre a operação concreta, com os teus números e a tua elegibilidade real.
Taxa de esforço — o rácio DSTI, com o limite atualizado em 2026
O Banco de Portugal indica atualmente que o rácio DSTI — a relação entre o total das prestações mensais de crédito e o rendimento mensal líquido — não deve, em regra, exceder 45% (o limite desceu de 50%, em vigor desde 1 de agosto de 2026, na Recomendação Macroprudencial n.º 1/2026). Isto não significa que, abaixo de 45%, o banco seja obrigado a aprovar, nem que, acima, seja impossível obter crédito — é um limite prudencial dentro do quadro de avaliação de solvabilidade, não uma garantia de aprovação. O banco olha ainda para estabilidade do rendimento, outros créditos em curso, idade, prazo, LTV, histórico, e a natureza do teu emprego.
Antes de agosto de 2026, os bancos podiam conceder crédito acima do limite de DSTI dentro de uma margem de exceção de até 15% do volume de crédito habitação emitido por semestre, dividida em dois escalões (10% até 60% de DSTI, mais 5% acima disso). A revisão de 2026 simplificou e apertou esta regra: passa a existir uma margem única de 10% do volume de crédito à habitação concedido em cada semestre, sem a distinção anterior em dois escalões. Na prática, isto significa que os bancos têm hoje menos espaço para aprovar créditos acima do limite de 45% do que tinham há um ano — se o teu DSTI calculado estiver acima do limite, a tua aprovação passa a depender de uma margem mais estreita e disputada por todos os clientes do banco nesse semestre, não é uma formalidade automática.
O banco não calcula o DSTI com a tua prestação atual — aplica um choque à taxa de juro para créditos de taxa variável ou mista (a fase variável), testando se aguentarias uma subida. Simulares a tua taxa de esforço só com a taxa contratada, sem margem para este choque, pode dar-te uma falsa sensação de folga no orçamento. Pede sempre ao banco para te mostrar o cálculo do DSTI com o choque já aplicado, não só com a taxa de hoje.
LTV — Loan to Value, a palavra que decide quanto te emprestam
O LTV compara o valor do crédito com o valor relevante do imóvel, sendo o valor do imóvel considerado o menor entre o preço de compra e a avaliação bancária para este efeito. O Banco de Portugal define limites diferentes consoante a finalidade do imóvel:
| Finalidade | LTV máximo |
|---|---|
| Habitação própria e permanente | 90% |
| Habitação secundária ou para arrendamento | 80% |
| Imóveis do próprio banco (ex-dação em pagamento) | Até 100%, condições caso a caso |
Tal como no DSTI, também aqui existe uma margem de exceção: cada banco pode conceder uma pequena fatia do seu volume trimestral de novo crédito fora destes limites — por isso, ver um caso de financiamento a mais de 90% para HPP não significa que a regra tenha desaparecido, significa que esse caso específico coube dentro da margem de exceção do banco.
Casa comprada por 200.000€, mas avaliada pelo banco em 185.000€: se o limite de LTV for 90%, o banco calcula 90% sobre os 185.000€ (o valor mais baixo), não sobre os 200.000€ — ou seja, 166.500€, não 180.000€. Não assumas nunca que o banco financia uma percentagem sobre o preço de compra sem confirmares primeiro a avaliação.
A FINE — o documento mais importante que a maioria nunca lê até ao fim
Antes de contratares, tens direito a receber a Ficha de Informação Normalizada Europeia (FINE), que reúne num único documento a TAN, a TAEG, comissões, seguros exigidos, montante do empréstimo e o MTIC. Não te fiques pela primeira página — compara sistematicamente cada um destes elementos entre propostas de bancos diferentes, incluindo os produtos associados exigidos para obteres o spread anunciado.
TAEG, TAN e MTIC — os três números que decidem tudo
A TAN reflete essencialmente o custo dos juros segundo a estrutura contratual. A TAEG inclui uma visão mais completa dos custos legalmente abrangidos — é o número que devias sempre comparar entre propostas. O MTIC mostra, em euros absolutos, tudo o que vais pagar até ao fim do contrato — capital, juros, seguros e comissões somados. Ao comparares propostas, olha para a TAEG, mas não pares aí: analisa também seguros, custos de conta, produtos associados, comissões, e a duração real de qualquer condição promocional.
Amortizar antecipadamente ou investir a diferença?
Imagina que tens 20.000€ disponíveis e o teu crédito está a 3,5%. Uma amortização produz uma poupança de juros equivalente, em termos simplificados, ao custo do financiamento que deixas de pagar — um benefício relativamente previsível e garantido. Investir os mesmos 20.000€ em ações pode produzir +20%, −20%, ou qualquer valor entre os dois. Por isso, nunca compares "3,5% garantidos" com "7% históricos" como se fossem taxas equivalentes — uma tem risco completamente diferente da outra, e essa diferença de risco é o que está mesmo em jogo na decisão, não só o número percentual. Se tiveres, além do crédito habitação, outras dívidas com taxa mais alta (cartão, crédito pessoal), essas costumam ter prioridade absoluta sobre amortizar a casa — consulta sair primeiro das dívidas caras para perceberes a ordem certa.
Ao amortizares, tens ainda de escolher entre reduzir o prazo (mantendo a prestação parecida, poupa mais juros no total porque sais mais cedo do crédito) ou reduzir a prestação (mantendo o prazo, alivia o orçamento mensal desde já e reduz a taxa de esforço). Por defeito, muitos bancos aplicam a amortização como redução de prestação — se quiseres reduzir o prazo em vez disso, tens normalmente de o solicitar explicitamente ao banco. Financeiramente, reduzir o prazo costuma poupar mais juros totais; reduzir a prestação dá-te mais margem de manobra mensal imediata. Não existe opção universalmente melhor — depende do teu objetivo concreto nesse momento. Usa o simulador de amortização antecipada para comparares as duas opções com os teus números reais antes de decidires.
Confirma sempre o contrato e a legislação em vigor para a comissão de amortização antecipada — o Banco de Portugal indica, como limites gerais, uma comissão máxima de 0,5% do capital reembolsado em taxa variável e 2% em taxa fixa. Nota importante: entre 2022 e o final de 2025 vigorou uma isenção temporária desta comissão para créditos de taxa variável sobre habitação própria e permanente, sucessivamente prorrogada; essa isenção terminou em 31 de dezembro de 2025, pelo que, desde janeiro de 2026, a comissão de 0,5% em taxa variável volta a aplicar-se com normalidade, salvo exceção prevista no teu contrato concreto. Pode existir ainda Imposto do Selo sobre a própria comissão — não faças a conta só com a percentagem da comissão sem confirmares o resto.
O truque dos seguros associados
Um spread mais baixo pode estar associado à contratação de produtos específicos. Imagina o Banco A com spread de 0,70% mas seguro de vida a 400€/ano, contra o Banco B com spread de 0,90% mas seguro de vida a 150€/ano — não compares os spreads isoladamente, compara o custo total anual de cada proposta completa. Presta atenção especial ao seguro de vida: o prémio pode alterar-se ao longo do tempo, nomeadamente com a idade e as características da apólice — uma proposta que parece barata aos 35 anos pode não ser igualmente barata aos 50.
Por lei, não és obrigado a contratar os seguros associados ao crédito através do próprio banco — podes apresentar uma apólice de seguro de vida e multirriscos de outra seguradora, desde que cumpra as coberturas mínimas exigidas pelo banco, e o banco tem de a aceitar sem cobrar mais por isso, nem penalizar o spread negociado por essa razão. Antes de aceitares automaticamente o seguro "recomendado" pelo banco, compara o mesmo capital seguro noutras seguradoras — a diferença de prémio ao longo de 30 anos pode ser significativa, sobretudo à medida que envelheces e o prémio de risco de vida sobe.
Não existe modalidade universalmente melhor — só mais adequada ao teu caso
O próprio Banco de Portugal sublinha que nenhuma das três modalidades (fixa, variável, mista) é universalmente melhor — depende das tuas expectativas sobre a evolução das taxas, da tua capacidade financeira, da tua tolerância ao risco, do horizonte do crédito, e da estabilidade do teu rendimento. Uma forma simples de estruturar a decisão: se valorizas previsibilidade acima de tudo, a fixa protege-te; se aceitas variações e queres poder beneficiar de eventuais descidas, a variável dá-te essa flexibilidade; se queres estabilidade inicial mas aceitas risco mais tarde, a mista distribui o problema em duas fases. Mas a pergunta mais importante de todas é ainda mais simples: quanto crédito consigo mesmo suportar se as taxas forem muito mais altas do que hoje? Se a resposta for "nenhum", talvez o problema não seja a escolha da taxa — seja pedires menos dinheiro emprestado à partida.
Crédito de 200.000€ a 3,5%, com 25 anos restantes: a prestação mensal é de 1.001,25€, e os juros totais a pagar até ao fim seriam cerca de 100.374€. Se amortizares 20.000€ e optares por manter a prestação (reduzindo o prazo em vez do valor mensal), o crédito passa a terminar cerca de 3 anos e 9 meses mais cedo, e os juros totais caem para aproximadamente 75.455€ — uma poupança de quase 25.000€ em juros, só por teres escolhido manter a prestação em vez de a reduzires. A comissão de amortização, a 0,5% sobre os 20.000€ amortizados (crédito de taxa variável), seria de apenas 100€ — irrelevante face à poupança total. Se, em vez disso, tivesses optado por reduzir a prestação mantendo o prazo original, o alívio mensal seria imediato, mas a poupança total em juros seria bastante menor — é exactamente o trade-off entre "alívio agora" e "poupança total" que mencionámos atrás.
Portabilidade e transferência de crédito — quando faz sentido mudar de banco
Se conseguires uma proposta claramente melhor noutro banco depois de já teres um crédito em curso, podes transferir o crédito — o novo banco liquida o saldo em dívida ao banco antigo, e passas a pagar ao novo, nas condições renegociadas. Isto tem custos próprios (nova avaliação, novo registo, eventualmente novo Imposto do Selo sobre o novo financiamento) que precisam de ser comparados com a poupança esperada ao longo do tempo restante do crédito — uma transferência só compensa se a poupança de juros ao longo dos anos que faltam superar claramente estes custos de transição.
Por exemplo: se transferires um crédito de 180.000€ com 20 anos restantes e conseguires baixar o spread em 0,3 pontos percentuais, a poupança de juros ao longo do tempo restante pode facilmente ultrapassar 5.000€ — mas se os custos de transferência (avaliação, registo, Imposto do Selo sobre o novo financiamento) somarem 800€ a 1.200€, ainda assim compensa amplamente; se, pelo contrário, só faltarem 3 anos de crédito, a mesma redução de spread pode não gerar poupança suficiente para cobrir esses custos. O tempo restante do crédito é, por isso, tão importante para esta decisão como a diferença de taxa em si. Antes de decidires, pede sempre ao teu banco atual uma contraproposta: muitas vezes, o simples facto de teres uma alternativa concreta na mão é suficiente para o banco atual melhorar as condições sem precisares de mudar de instituição.
Checklist antes de assinares
- Comparei pelo menos três propostas de bancos diferentes?
- Olhei para a TAEG e o MTIC, não só para o spread ou a TAN?
- Li a FINE completa, não só a primeira página?
- Somei todos os seguros e comissões ao custo total, e comparei o seguro de vida com outras seguradoras?
- Sei quando termina cada condição promocional, e o que acontece depois?
- Sei o que acontece à taxa se eu retirar algum produto associado mais tarde?
- Calculei a minha prestação em pelo menos 4-5 cenários de taxa diferentes, não só na taxa de hoje?
- Pedi ao banco o cálculo do DSTI com o choque de taxa de juro já incluído?
- Sei quanto dinheiro preciso, no total, além da entrada — impostos, escritura, avaliação?
- Confirmei a avaliação bancária, não só o preço de compra, para saber o LTV real?
- Sei quanto custaria amortizar antecipadamente, se precisasse — incluindo se a isenção temporária de comissão (terminada em 2025) ainda se aplica ao meu contrato específico?
Próximos passos
- Reúne a FINE de pelo menos 3 propostas de bancos diferentes, e compara linha a linha — TAEG, MTIC, seguros, comissões.
- Calcula a tua prestação nos 5 cenários de taxa deste guia com o simulador de crédito habitação, usando o teu capital e prazo reais.
- Confirma a tua elegibilidade real para IMT Jovem e garantia pública com o simulador de IMT, se te aplicar.
- Se já tens crédito em curso e taxas desceram ou encontraste proposta melhor, simula a portabilidade e usa-a como argumento de negociação com o teu banco atual.
- Se tiveres capital disponível para amortizar, compara as duas opções (reduzir prazo vs. reduzir prestação) no simulador de amortização antecipada antes de instruíres o banco.
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