Em 2004, uma experiência encontrou algo contraintuitivo: em média, pessoas tristes davam mais valor a um objeto que ainda não tinham do que pessoas num estado emocional neutro. Com um objeto que já era seu, fizeram o contrário: aceitaram vendê-lo mais barato. É uma média de grupo, não uma regra que se aplique a toda a gente. O efeito no valor do que ainda não tinham voltou a aparecer em 2008, em 2018 e em 2023, num estudo repetido com 403 participantes. A explicação proposta em 2008 é o autofoco (a atenção virada para nós próprios): a tristeza aumenta-o e, no modelo dos autores, isso faz dar mais valor ao que se pode comprar. Essa explicação assenta no estudo de 2008, com 31 pessoas analisadas; o estudo de 2023 pôs à prova outra, a vontade de mudar de circunstâncias, e os autores dizem ter encontrado apoio para ela. Na prática: repara quando estás nesse estado, pergunta-te se farias esta compra num dia neutro e deixa passar tempo entre a vontade e o clique.
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Há um padrão que provavelmente já reconheces, em ti próprio ou em alguém perto de ti: um dia mau, uma discussão, uma notícia triste — e, horas depois, uma encomenda inesperada a caminho de casa. A explicação popular é "compra emocional" ou "compras para compensar", mas a investigação em psicologia comportamental foi à procura de algo mais preciso, e mais útil de conhecer: a explicação proposta num estudo de 2008 não é a tristeza, por si só, a abrir a carteira. É o que a tristeza faz à forma como pensamos em nós próprios — e pode ser esse efeito secundário, mais do que a emoção em bruto, a levar as pessoas a aceitar pagar mais. Não é a única explicação proposta: mais abaixo vês outras.
O estudo que deu nome ao efeito
Em 2008, as investigadoras Cynthia Cryder e Jennifer Lerner, com James Gross e Ronald Dahl, publicaram na revista Psychological Science um estudo com um título deliberadamente irónico: "Misery Is Not Miserly" — quem está triste não é forreta. O efeito em si tinha sido encontrado quatro anos antes, por Jennifer Lerner, Deborah Small e George Loewenstein; o que este estudo foi procurar foi quando e porquê é que ele acontece. A experiência era simples. Um grupo de participantes via um excerto de menos de quatro minutos do filme The Champ, mostrando a morte do mentor de um rapaz — um estímulo de tristeza já validado noutros estudos. Um segundo grupo, de controlo, via um excerto neutro de um documentário da National Geographic sobre a Grande Barreira de Coral. A seguir, todos os participantes tinham a oportunidade de comprar um objeto banal — uma garrafa de água desportiva, térmica — e, pelo procedimento habitual em economia experimental, iam dizendo, para cada preço entre 0 e 10 dólares e de 50 em 50 cêntimos, se compravam ou não. Era dinheiro a sério, e o teto era o dos 10 dólares que tinham recebido para participar.
O resultado, numa amostra de 33 participantes (31 entraram na análise): quem tinha visto o excerto triste indicou, em média, um preço de compra de 2,11 dólares; quem tinha visto o excerto neutro indicou, em média, 0,56 dólares — uma diferença grande demais para ser obra do acaso, embora numa amostra pequena. Para medir a força de um efeito, os investigadores usam uma escala chamada d de Cohen, que compara a distância entre as médias dos dois grupos com a dispersão das respostas: quanto maior, mais nítida a separação. Este deu 1,41; para dar uma ideia da régua, os autores da réplica de 2018 chamam "pequeno a moderado" a um d de 0,43. As pessoas tristes não estavam a comprar menos, com mais cautela, como seria a intuição de "quem está em baixo não tem cabeça para gastar" — estavam dispostas a pagar quase quatro vezes mais pelo mesmo objeto banal.
O mecanismo proposto em 2008 — a tristeza pesou mais quando vinha com autofoco
É aqui que convém não simplificar: o efeito não apareceu igual em todos os participantes tristes. Entre o filme e a compra, os participantes escreveram um texto — quem tinha visto o excerto triste escrevia sobre como uma situação daquelas o afetaria pessoalmente, e o grupo neutro escrevia sobre as suas atividades do dia a dia. Dois avaliadores, sem saberem qual era a hipótese em teste, contaram depois quantas vezes cada pessoa tinha usado pronomes autorreferenciais — "eu", "mim", "meu". Esta contagem funcionou como medida de autofoco: o grau em que a atenção da pessoa, naquele momento, estava virada para dentro, para si própria. As instruções do texto eram diferentes nos dois grupos, o que levanta a dúvida óbvia — a contagem de pronomes não estará a medir apenas o tema que foi pedido a cada um? Os autores repetiram a análise usando a tristeza que cada participante declarou sentir, em vez do grupo a que tinha sido atribuído, e o padrão manteve-se; mas esse teste servia para confirmar que era a tristeza sentida a pesar, e a contagem continuou a vir de textos com instruções diferentes. A dúvida fica em aberto.
A diferença de preço só apareceu com força entre as pessoas tristes que também tinham um autofoco elevado. Estatisticamente, o autofoco funcionou simultaneamente como moderador (o efeito da tristeza só surgia com autofoco alto) e como mediador (parte da relação entre ver o vídeo triste e pagar mais era explicada precisamente pelo aumento do autofoco — e os próprios autores avisam que esta segunda leitura só se aguenta nas pessoas com autofoco do nível médio para cima). Por outras palavras: não é "estou triste, logo compro" — é "estou triste, logo penso muito mais em mim próprio, e é esse pensar-em-mim que aumenta o que estou disposto a pagar".
Com 31 pessoas analisadas, é uma prova curta, e esta não é a única explicação proposta. Trabalho posterior de Jennifer Lerner com Nitika Garg aponta outra — o sentimento de impotência que acompanha a tristeza. Numa experiência com 104 estudantes, metade recebeu um presente sem escolha e a outra metade pôde escolher entre dois (uma caixa de bombons ou uma esferográfica), uma forma de lhe dar alguma sensação de controlo. A seguir, os participantes tristes sem escolha comeram 20,6 gramas dos M&M que todos tinham à disposição, e os tristes com escolha 7,3 gramas — os participantes em estado neutro comeram cerca de 10 gramas nos dois casos. Repara no que foi medido: comida, não dinheiro. As próprias autoras escrevem que estender o resultado para lá do consumo de comida fica para investigação futura, e que a impotência não é, para elas, a única explicação possível.
Se o mecanismo fosse simplesmente "tristeza = mais gasto", a contramedida óbvia seria "não decidas nada quando estiveres triste" — o que é impraticável, porque todos passamos por dias tristes com regularidade. Se o motor for mesmo o autofoco, a contramedida fica mais específica e mais aplicável: repara em quando estás a pensar excessivamente em ti próprio, no teu estado, no que te falta — é nesse momento, mais do que na tristeza em si, que uma decisão de compra corre mais risco de te sair mais cara do que sairia num dia normal.
Porque é que isto acontece
No modelo dos autores, a tristeza e o autofoco em conjunto levam a pessoa a desvalorizar-se a si própria — e essa desvalorização gera um desejo implícito de se valorizar outra vez. Comprar um objeto novo torna-se uma forma disponível, rápida e concreta de responder a esse desejo, mesmo que o objeto em causa não tenha nenhuma relação lógica com a causa da tristeza. Não é preciso que a compra "faça sentido" para a tristeza — só é preciso que sirva para a pessoa voltar a sentir que vale alguma coisa. A etapa do meio — a autodesvalorização — é a hipótese dos autores: o que a experiência mediu foi o autofoco, não ela. Os próprios autores admitem que este não é o único modelo compatível com os dados: um outro modelo possível sugere que sentir-se menos valioso faz valorizar mais as outras coisas por contraste — a experiência não permite distinguir com certeza entre os dois mecanismos.
A réplica de 2018 — o efeito aguenta-se com outra amostra
Um resultado isolado, por mais interessante que seja, vale sempre menos do que um resultado replicado. Em 2018, Nitika Garg, Lisa A. Williams e Jennifer Lerner publicaram na revista PLOS ONE aquilo a que chamam uma réplica conceptual próxima — uma repetição próxima, mas não igual, e não do estudo de 2008 em si, mas da experiência original de 2004 que lhe deu origem (Lerner, Small & Loewenstein, "Heart Strings and Purse Strings", também sobre o efeito da tristeza nos preços). Mudaram o filme (Steel Magnolias e um excerto de Blue Planet, ambos com cerca de 12 minutos, em vez dos menos de 4 minutos dos excertos usados em 2008) e trocaram o produto: em 2004 era um conjunto de marcadores fluorescentes, aqui passou a ser uma garrafa de água. Com 111 estudantes universitários, os participantes tristes indicaram um preço médio de 6,42 dólares, contra 5,35 dólares no grupo neutro — uma diferença mais modesta do que a da experiência original de 2004 (d=0,40 em 2018, contra d=0,49 em 2004), mas na mesma direção, e estatisticamente significativa por pouco (p=0,04: se o efeito não existisse, uma diferença assim ou maior apareceria por acaso em cerca de 4% das vezes). Os próprios autores escrevem que a dimensão da amostra foi ditada pelo tempo disponível para recolher dados, e pedem que a experiência seja repetida com mais gente e em vários laboratórios.
Os valores em dólares não são comparáveis com os de 2008: os métodos foram diferentes. Em 2018, como em 2004, ninguém pagava nada: para cada quantia, até 14 dólares, em intervalos de 50 cêntimos, cada participante escolhia entre ficar com o objeto ou com o dinheiro; em 2008, dizia, para cada preço, se comprava a garrafa com os 10 dólares que tinha recebido. O que se compara é o tamanho do efeito. Juntando os estudos de 2004 e de 2018, a dimensão do efeito ficou em d=0,43 — pequena a moderada. É uma meta-análise — uma conta que junta os resultados de vários estudos — de apenas dois: pelo método usado pelos autores, o intervalo de confiança (a margem de erro da estimativa) fica todo acima de zero — por esse método, o efeito é diferente de zero; com um teste mais exigente, o resultado fica à beira de poder ser acaso (p=0,07). O pedido de mais réplicas teve resposta: em 2023, Srinwanti H. Chaudhury e Nitika Garg publicaram no Journal of Experimental Psychology: General uma réplica pré-registada — com o plano de análise fixado antes de haver dados, para ninguém poder escolher a conta que dá mais jeito — com 403 participantes, e voltaram a encontrar que os participantes tristes davam mais valor ao objeto do que os participantes em estado neutro ou com nojo. Essa réplica pôs também à prova uma explicação — a vontade de mudar de circunstâncias, já proposta em 2004 — e os autores dizem ter encontrado apoio para ela.
Uma ressalva importante: o que foi replicado foi o efeito da tristeza no valor dado ao objeto. O mecanismo do autofoco em si — a parte mais específica da explicação que viste acima — não voltou a ser testado em 2018: os autores escrevem que medir e manipular os mecanismos propostos fica para investigação futura.
Um detalhe interessante desta réplica: os investigadores testaram também se dar aos participantes tristes acesso a comida agradável (pipocas com manteiga, bebidas) reduzia o efeito — a ideia era que talvez a tristeza procurasse qualquer forma de conforto, e que comida servisse tão bem como comprar. Não reduziu: ter pipocas e bebida à disposição não diminuiu o valor que os participantes tristes davam à garrafa. Os autores avisam que é um único estudo em que não se encontrou diferença nenhuma, e que precisa de ser repetido. A leitura que fazem dele é esta: a ideia em teste era a de que a tristeza funciona como uma sensação de perda, que um conforto qualquer compensaria; como ter comida à mão não mudou nada, levantam a hipótese de o que mexe com a decisão ser antes o sentimento de impotência — o de não se ter controlo sobre o que aconteceu. O que isto não quer dizer é que a tristeza não leve também a comer mais — noutros estudos leva.
A tristeza também te faz aceitar menos para receber já
O mesmo grupo de investigação mostrou que a tristeza não aumenta só o que aceitas pagar: aumenta a impaciência. Em três experiências (a primeira com 202 participantes), o participante triste mediano — o que ficou exatamente a meio da tabela — aceitou, em comparação com o participante mediano em estado neutro, 13% a 34% menos dinheiro hoje em vez de esperar três meses por um valor maior, pelas contas dos autores. Na primeira, os tristes aceitaram 37 $ hoje em vez de 85 $ a três meses, quando os neutros exigiram 56 $. O nojo — a única outra emoção negativa usada como termo de comparação, e só nas duas primeiras experiências — comportou-se como o grupo neutro, o que indica que não é a negatividade em si que faz isto.
A terceira experiência (203 participantes) diz onde está o risco, e é a parte mais útil para quem decide com dinheiro: a tristeza aumentou a preferência por receber já, mas não mudou a impaciência nas escolhas entre receber mais tarde e ainda mais tarde. Não é pressa em geral — é pressa pelo imediato. Um estudo independente publicado em 2024, com 170 estudantes universitários na China, encontrou um padrão semelhante ao desta terceira experiência: mais preferência pela recompensa imediata. A evidência independente não vai toda no mesmo sentido — um estudo de 2021, com 20 participantes, que comparou raiva e tristeza, não encontrou efeito nenhum da tristeza neste tipo de escolha, e os próprios autores de 2024 escrevem que os resultados nesta área são inconsistentes. Em finanças pessoais, isto pode traduzir-se em pedir um adiantamento, aceitar crédito caro ou vender um investimento antes do tempo (ver sair das dívidas caras) — repara que o que estas três coisas têm em comum é haver dinheiro a entrar hoje.
O que está medido e o que é hipótese
| Afirmação | Estado da prova |
|---|---|
| A tristeza aumenta o valor que se dá a um objeto que ainda não é nosso | Medida em 2004, em 2008 e na réplica de 2018, e outra vez na réplica pré-registada de 2023, com 403 participantes. Em 2004, com um objeto que já era seu, os tristes aceitaram vendê-lo mais barato |
| A tristeza aumenta a preferência por receber já | Medida em três experiências de 2013; um trabalho independente de 2024, com 170 estudantes, aponta no mesmo sentido; outro de 2021, com 20 participantes, não encontra efeito |
| O autofoco é o mecanismo por trás disso | Posto à prova em 2008, com 31 pessoas analisadas; a réplica de 2018 não o testou |
| A vontade de mudar de circunstâncias é o mecanismo | Posta à prova na réplica pré-registada de 2023, com resultado a favor, segundo os autores |
| Dar à pessoa uma escolha real atenua o efeito | Medido com comida — 104 estudantes, gramas de M&M —, não com dinheiro |
| As cinco contramedidas propostas mais abaixo | Nenhuma foi testada nas experiências acima: são precauções razoáveis |
Onde isto aparece na tua vida financeira real
O efeito medido em laboratório usa uma tristeza induzida, controlada, relativamente moderada — estes estudos não permitem saber se uma tristeza real, mais intensa e mais duradoura do que um excerto de filme, produz um efeito maior, igual ou menor. Onde isto se pode traduzir na prática:
- Compras online depois de um dia mau — a app de compras aberta às 23h depois de uma discussão ou de más notícias, sem lista prévia nem necessidade real, só a sensação de que "preciso de qualquer coisa diferente".
- Aceitar um preço mais alto sem negociar — num carro, num serviço, numa renda: se estás com um autofoco elevado num dia em baixo, a tua disposição para insistir num preço mais baixo pode estar reduzida precisamente quando precisavas dela mais forte.
- Vender barato o que é teu — no estudo de 2004, quem estava triste aceitou vender por menos um objeto que já tinha. Num dia em baixo, desconfia da pressa em vender um carro, um móvel ou um investimento.
- Reservar uma viagem ou uma experiência por impulso — não porque planeaste, mas porque prometes a ti próprio uma mudança de estado imediata, e o cartão de crédito torna essa promessa tecnicamente possível em segundos.
- Gastar mais do que o habitual num período de luto, rutura ou perda de emprego — precisamente as alturas em que o orçamento tem menos margem para absorver compras que saem mais caras do que deviam.
Porque é que isto não é um viés como os outros
Comparado com os vieses que te custam dinheiro, este mecanismo é diferente de aversão à perda (doer mais perder 100€ do que sabe bem ganhar 100€), ancoragem (deixar que o primeiro número que vês condicione o resto) ou FOMO (o medo de ficar de fora do que os outros estão a fazer) — três fenómenos explicados no guia dos vieses. Esses vieses — desvios sistemáticos na forma como julgamos — distorcem a forma como avalias informação: um preço, uma probabilidade, o comportamento de outras pessoas. Este é diferente: não distorce o que sabes; segundo o modelo dos autores, mexe com o valor que te atribuis naquele momento específico, e por tabela, com quanto estás disposto a pagar para mudar essa sensação. É um viés de estado emocional, não de julgamento sobre factos — e por isso a contramedida certa também é diferente: não é "procura mais informação" ou "espera pela âncora certa", é "repara no teu estado antes de decidires".
Imagina que, num mês particularmente difícil — uma rutura, ou um problema de saúde num familiar — fazes três compras não planeadas que normalmente não farias: um casaco por 90 €, um jantar pedido ao domicílio por 45 € "para animar", e uma subscrição anual de um serviço por 60 €, decidida numa noite ao fim do dia. São 195 € que, isoladamente, parecem pequenos — mas se este padrão se repetir em três ou quatro meses difíceis por ano, o total anda entre 585 € e 780 € anuais, sem que nenhuma dessas compras tenha sido avaliada com o mesmo critério que aplicarias a uma compra num dia normal. Destes valores, o que o efeito explica não é o total: é a parte que pagaste a mais, ou a compra que não terias feito de todo. Essa parte — a que não terias gasto — podia estar a render noutro lado: no simulador de juros compostos vês o que valeria daqui a 10 anos. A isso chama-se custo de oportunidade: além do preço, a compra custou-te o que esse dinheiro deixaria de render. O objetivo das contramedidas seguintes não é impedir-te de nunca comprares nada num dia mau — é garantir que a decisão passa pelo mesmo filtro que passaria num dia neutro.
Contramedidas práticas — como travar o efeito a tempo
| Regra | Como aplicar |
|---|---|
| Regra de arrefecimento | Para qualquer compra não essencial acima de um valor que definas (por exemplo, 50 €), impõe um intervalo mínimo de 24 a 72 horas entre decidires e confirmares — o mesmo princípio da quarentena de 72 horas usada nos vieses de investimento, aplicado aqui a compras do dia a dia. |
| Verificação de humor | Antes de confirmares uma compra de algum valor, pergunta-te literalmente: "como estou emocionalmente agora, e estaria a fazer esta compra num dia neutro?" Escrever a resposta, mesmo que numa nota rápida no telemóvel, obriga a uma pausa consciente que a app de compras não te dá. |
| Aumentar a fricção, não reduzi-la | Remove os cartões guardados e a compra num clique das apps que mais usas quando estás em baixo. Uma fricção pequena (uma pequena dificuldade que te faz parar) — ter de introduzir o número do cartão outra vez — pode bastar para travar uma parte destas decisões, sem impedir compras que continuas a querer fazer no dia seguinte. |
| Segunda opinião | Para compras acima de um limiar mais alto (por exemplo, 200 €), evita decidir sozinho quando estás em baixo — pede a opinião de alguém de confiança antes de confirmares. Não é sobre pedir permissão; é sobre introduzir uma perspetiva externa, sem o teu autofoco elevado, no momento da decisão. |
| Uma pequena almofada consciente, não uma proibição | Reservar previamente, no orçamento, um valor pequeno e limitado para "dias difíceis" — o mesmo truque de separar o dinheiro em "bolsos" mentais, aqui a teu favor, como no guia do orçamento que sobrevive a dezembro — tende a ser mais fácil de manter do que proibir por completo qualquer gasto emocional. |
Nenhuma destas cinco regras foi testada nas experiências acima: são precauções baratas e razoáveis, não resultados medidos. O mais perto que a investigação chegou foi dar às pessoas uma escolha, e isso foi medido com comida, não com dinheiro.
Não confundir com "nunca comprar nada quando estás em baixo"
O objetivo destas contramedidas não é policiar cada compra feita num dia difícil, nem sentires-te culpado por comprares algo pequeno para te animares — isso, em doses moderadas, não é o problema que este guia descreve. O problema específico é pagar mais do que pagarias num dia neutro pela mesma coisa, sem sequer perceberes que isso está a acontecer — a emoção que está a mexer com a decisão é incidental, ou seja, não tem nada a ver com a compra que estás a fazer, e por isso não te ocorre ligá-la ao preço. No estudo de 2004, quando os investigadores perguntaram aos participantes que ligação podia haver entre as duas partes da experiência, nenhum adivinhou que o objetivo era ver se a emoção mexia com os preços. É precisamente por o efeito passar despercebido a quem o vive que vale a pena teres uma regra externa, escrita antes de precisares dela, em vez de confiares em perceberes o efeito no momento.
Próximos passos
- Define, hoje, um valor a partir do qual qualquer compra não essencial passa automaticamente por uma regra de arrefecimento de pelo menos 24 horas.
- Remove os cartões guardados e a compra num clique das duas ou três apps onde mais gastas por impulso.
- Escolhe uma pessoa de confiança a quem perguntar antes de compras acima de um valor mais alto, e combina isso com ela antecipadamente, não no momento.
- Da próxima vez que reparares que estás a pensar muito em ti próprio — no que te falta, no que mereces, em como te sentes — trata isso como um sinal para adiar qualquer decisão de compra em curso, não como motivo para a acelerar.
Lista de verificação final
- Sabes distinguir o mecanismo proposto (autofoco) da simplificação popular ("tristeza = mais gasto")?
- Tens uma regra de arrefecimento definida, com um valor e um número de horas concretos, escrita antes de precisares dela?
- Removeste os cartões guardados e a compra num clique das apps onde mais compras por impulso?
- Sabes a quem pedir uma segunda opinião antes de uma compra grande, e já combinaste isso com essa pessoa?
- Reservaste uma pequena almofada consciente para dias difíceis, em vez de tentares uma proibição total pouco realista?
- Sabes reconhecer o sinal de autofoco elevado (pensar muito em ti próprio, no que sentes, no que "mereces") como aviso, não como justificação?
Perguntas frequentes
Comprar quando estou triste faz-me mal? Em doses moderadas, não necessariamente. O problema é o valor: no estudo de 2008, quem estava triste aceitou pagar mais pelo mesmo produto, e a diferença entre 2,11 $ e 0,56 $ foi grande. Nenhum dos estudos citados aqui testou o efeito de esperar antes de comprar — a regra de arrefecimento que este guia propõe é uma precaução, não um resultado medido.
Quanto mais é que se paga, na prática, quando se está em baixo? No estudo de Cryder, Lerner, Gross e Dahl (2008), quem estava triste aceitou pagar, em média, 2,11 $ por uma garrafa de água, contra 0,56 $ no grupo neutro — eram preços declarados, com dinheiro real em jogo. Este resultado vem de uma experiência pequena (33 participantes, 31 na análise). Na réplica de 2018, com 111 estudantes e outro método (ninguém pagava: escolhia-se entre a garrafa e uma quantia), o efeito foi bem mais pequeno: d=0,40, contra 1,41 em 2008. Estes números servem para ilustrar o efeito, não para prever o teu gasto.
Isto aplica-se a todas as emoções negativas? Não da mesma maneira. No estudo de Lerner, Li e Weber (2013), a tristeza deixou as pessoas mais impacientes com dinheiro, mas quem estava com nojo comportou-se como o grupo neutro — o que, escrevem os autores, indica que o efeito não vem de todas as emoções negativas. Nessas experiências, o nojo foi a única outra emoção negativa usada como termo de comparação. Noutros estudos, a ansiedade já foi comparada com a tristeza em decisões com risco, e a raiva em escolhas entre receber já ou mais tarde, com resultados diferentes dos da tristeza nos dois casos.
A regra das 24 horas funciona? Nenhum dos estudos citados aqui a testou. A ideia é criar uma fricção entre o impulso e o pagamento, e é plausível que ajude em compras não planeadas. Tem limites: não trava subscrições que renovam sozinhas, e numa loja só resulta se estiveres disposto a sair sem comprar e voltar mais tarde.
Isto é o mesmo que compulsão por compras? Não. Este guia trata de uma tendência normal, que qualquer pessoa pode ter em momentos difíceis, e não de uma perturbação. Se sentires que perdes o controlo do dinheiro de forma repetida, procura apoio profissional.
Em quanto tempo o efeito passa? Os estudos medem o efeito no momento da compra e não dão um prazo fixo de duração. A nossa sugestão é dar tempo entre a vontade e o pagamento, de 24 a 72 horas para valores relevantes.
Fontes e referências
Consultadas em setembro de 2026. As ligações apontam para os artigos originais, através do DOI, o endereço permanente de cada artigo científico.
- Cryder, Lerner, Gross e Dahl — "Misery Is Not Miserly: Sad and Self-Focused Individuals Spend More", Psychological Science, 19(6), 2008 (DOI)
- Lerner, Small e Loewenstein — "Heart Strings and Purse Strings: Carryover Effects of Emotions on Economic Decisions", Psychological Science, 15(5), 2004 (DOI)
- Garg, Williams e Lerner — "The Misery-Is-Not-Miserly Effect Revisited: Replication Despite Opportunities for Compensatory Consumption", PLOS ONE, 13(6), 2018 (DOI)
- Chaudhury e Garg — "«Heart strings and purse strings» revisited: A preregistered replication and extension", Journal of Experimental Psychology: General, 152(7), 2023, pp. 1873-1886 (DOI) — a réplica pré-registada com 403 participantes
- Lerner, Li e Weber — "The Financial Costs of Sadness", Psychological Science, 24(1), 2013, pp. 72-79 (DOI)
- Garg e Lerner — "Sadness and consumption", Journal of Consumer Psychology, 23(1), 2013, pp. 106-113 (DOI) — o sentimento de impotência como explicação alternativa, e a escolha como forma de atenuar o efeito da tristeza no consumo de comida
- Garg, Wansink e Inman — "The Influence of Incidental Affect on Consumers' Food Intake", Journal of Marketing, 71(1), 2007, pp. 194-206 (DOI) — a tristeza e o consumo de comida
- Gross e Levenson — "Emotion elicitation using films", Cognition and Emotion, 9(1), 1995, pp. 87-108 (DOI) — a validação do excerto de The Champ como indutor de tristeza
- Lei, Zhang, Zheng e Zhang — "Does sadness bring myopia: an intertemporal choice experiment with college students", Frontiers in Psychology, 15:1345951, 2024 (DOI)
- Suo, Jia, Song e Liu — "The Differential Effects of Anger and Sadness on Intertemporal Choice: An ERP Study", Frontiers in Neuroscience, 15:638989, 2021 (DOI) — a raiva e a tristeza em escolhas entre receber já ou mais tarde
- Raghunathan e Pham — "All Negative Moods Are Not Equal: Motivational Influences of Anxiety and Sadness on Decision Making", Organizational Behavior and Human Decision Processes, 79(1), 1999, pp. 56-77 (DOI) — a ansiedade e a tristeza em decisões com risco
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