Muitos elementos de um supermercado grande — o preço, a música, o cheiro, a posição na prateleira, o cartaz de "limite por cliente" — são escolhas da loja. Algumas têm evidência sólida, outras bem menos do que a fama sugere. Os preços em .99 pesam muito nas compras reais em loja; em experiências recentes, com decisões declaradas ou de pouco valor, o efeito quase desaparece. Arredonda mentalmente para cima (3,99 € é 4 €). O cartaz de limite pode aumentar a quantidade comprada, porque o número passa a servir de referência: segue a quantidade da tua lista. Num estudo com fotografias de prateleiras, a do meio (ao nível dos olhos) foi mais vista, mas não mais escolhida. Olha também para cima e para baixo e compara o preço por quilo ou por litro. A fome aumenta a vontade de comprar, mesmo o que não é comida: come antes de ir. A música lenta e o cheiro têm prova mais fraca. Um ensaio de 2024 em 140 lojas de cosmética não encontrou efeito do andamento da música (lenta ou rápida) nas vendas totais. O cheiro mudou avaliações e comportamentos numa loja simulada, não numa loja a funcionar.
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Entras no supermercado para comprar cinco coisas e sais com quinze. Não é só falta de força de vontade: o ambiente de uma loja é desenhado por equipas de marketing, e vários destes mecanismos foram estudados em pormenor. Saber onde cada um foi medido muda a confiança que merece: a música foi testada em lojas a funcionar; o cartaz de limite, num conjunto de experiências de campo e de laboratório; os preços a terminar em 9, em experiências de laboratório, em catálogos de venda por correspondência, em ensaios online e nos registos das caixas registadoras de cadeias de retalho; o cheiro e a posição na prateleira, em laboratório — com uma loja simulada e com fotografias de prateleiras em tamanho real; e a fome, em experiências de laboratório mais um estudo feito com os talões de clientes à saída de um grande armazém. São mecanismos documentados na literatura de marketing — não é folclore de internet. Conhecê-los não te torna imune, mas torna as decisões visíveis — e uma decisão visível é muito mais fácil de contrariar do que uma invisível.
Os preços que terminam em .99 — o que o truque faz, e o que não faz
Já sabes, racionalmente, que 3,99€ é praticamente 4€. Mesmo assim, o teu cérebro processa o preço lendo o primeiro dígito com mais peso do que os restantes — o efeito do dígito da esquerda. Manoj Thomas e Vicki Morwitz, num estudo de 2005 publicado no Journal of Consumer Research, mostraram em cinco experiências que a perceção de "mais barato" com um preço a terminar em 9 acontece quando essa mudança altera o primeiro dígito: de 3,00€ para 2,99€ parece uma queda maior do que de 3,50€ para 3,49€, mesmo sendo a mesma diferença de um cêntimo em ambos os casos.
Isto também foi testado fora do laboratório: Eric Anderson e Duncan Simester correram três experiências de campo com catálogos de venda por correspondência, publicadas na revista Quantitative Marketing and Economics. O final em 9 aumentou a procura nas três — e repara no que foi mesmo testado: preços terminados em 9 dólares inteiros, e não em 99 cêntimos. Mas os próprios autores encontraram uma condição que interessa a quem faz compras de rotina: o efeito foi mais forte nos artigos novos do que nos que o retalhista — a empresa que vende ao consumidor final, como um supermercado ou uma loja de roupa — já vendia em anos anteriores; e no supermercado repetes muitas compras de artigos que já conheces.
E há uma segunda razão para não pores a culpa toda no .99: em ensaios grandes e pré-registados — aqueles em que os investigadores publicam o que vão medir e como antes de recolherem os dados, o que lhes tira a margem para escolher depois os resultados que dão jeito —, o efeito quase desaparece. Num ensaio online em que 266 participantes tomaram 4.788 decisões de compra — de bilhetes de lotaria, não de compras de mercearia —, comprou-se em 47,1% das vezes com preços a terminar em 9, 45,9% com preços redondos e 45,3% com preços de controlo, que não eram nem uma coisa nem outra (por exemplo, 2,01). São diferenças tão pequenas que podem ser obra do acaso: para os autores, o ensaio não mostra que os preços terminados em 9 ou os redondos levem a comprar mais do que os de controlo. E dois estudos pré-registados, com 729 participantes ao todo, não encontraram efeito do final do preço na intenção de compra; na ideia que as pessoas fizeram do preço, os preços "precisos", como 9,87 €, deixaram uma impressão mais favorável do que os redondos e do que os terminados em 9, e entre estes dois a diferença foi tão pequena que pode ser obra do acaso.
Só que estes ensaios medem decisões declaradas, ou compras de baixo valor. Quando se olha para compras feitas em lojas, o efeito reaparece — e grande: uma análise dos registos das caixas registadoras (o que foi mesmo vendido, e a que preço) de 3.500 produtos em 25 cadeias norte-americanas, publicada em 2023 na Review of Economic Studies, estima que os consumidores reagem a uma subida de um cêntimo acima de um preço terminado em 99 como se fosse uma subida de mais de vinte cêntimos. Arredondar mentalmente para cima continua, portanto, a ser um bom hábito de leitura de etiquetas; o que fica por provar é o tamanho do efeito quando decides sem pressa e com a lista na mão.
"Limite de 12 por cliente" — o cartaz que pode fazer-te comprar mais, e não menos
Um cartaz que diz "máximo 12 unidades por cliente" parece uma restrição — soa a "há pouco stock, o supermercado está a controlar o consumo". O efeito medido é o oposto do que a intuição sugere: este tipo de cartaz pode aumentar a quantidade comprada. O mecanismo é a mesma ancoragem que já vimos noutros contextos financeiros no nosso guia sobre vieses — o número no cartaz funciona como uma referência mental de "quantidade normal a comprar", e a pessoa ajusta a sua compra a partir dessa âncora, em vez de partir da quantidade de que precisava antes de ver o cartaz.
Brian Wansink, Robert Kent e Stephen Hoch testaram isto em duas experiências de campo e dois ensaios de laboratório, publicados no Journal of Marketing Research em 1998. O que mostraram: as promoções construídas sobre uma âncora — preços por várias unidades ("3 por 5€"), limites de quantidade por cliente e sugestões de quantidade a levar — podem aumentar a quantidade comprada. O modelo que propõem é simples e é o que explica um cartaz de "limite de 12 por cliente": partes do número que te é dado e ajustas pouco a partir dele. O mesmo estudo traz a defesa, no ensaio final: quem chega à prateleira com a sua própria referência — quanto costuma comprar ou consumir — contraria bem este tipo de promoção. O cartaz dá-te um número; a tua lista também te dá um. Usa o teu.
Brian Wansink, um dos autores deste estudo, teve mais tarde artigos sobre comportamento alimentar retirados pelas revistas científicas a partir de 2017, incluindo em duas revistas médicas, a JAMA e a JAMA Pediatrics. Em setembro de 2018, a Universidade Cornell anunciou que uma comissão de professores concluíra que ele cometera má conduta académica na sua investigação, incluindo dados reportados de forma incorreta, técnicas estatísticas problemáticas, não ter documentado nem guardado devidamente os resultados, e autoria indevida. Este estudo é de 1998; a universidade não delimitou os artigos afetados, pelo que convém não o tomar, sozinho, como prova. O mecanismo geral de ancoragem tem sustentação mais ampla, a começar no trabalho de Tversky e Kahneman de 1974, que está no nosso guia sobre vieses.
Música lenta, passos lentos — e o que aconteceu quando testaram em 140 lojas
Ronald Milliman publicou em 1982, no Journal of Marketing, uma experiência de campo clássica do marketing sensorial (o uso deliberado de som, luz, cheiro e disposição do espaço para influenciar o comportamento de compra): fez variar o andamento da música ambiente de um supermercado e concluiu que as variações de andamento podem mexer no ritmo a que os clientes circulam na loja e no valor vendido. A leitura prática ficou famosa: música mais lenta, passos mais lentos, carrinho mais cheio.
Quatro décadas depois, a evidência é bastante mais fria, e convém sabê-lo antes de culpar a playlist pelo talão. Um estudo publicado em 2012 na Marketing Letters encontrou o efeito do andamento apenas com música em modo menor — o tom que soa mais melancólico; com música em modo maior, o mais alegre, o andamento não fez diferença: o efeito descrito por Milliman desapareceu. E o maior ensaio de campo sobre andamento musical até 2025, segundo os próprios autores — 140 lojas de uma cadeia de cosmética nos Países Baixos, durante seis semanas, em 2024, apresentado na conferência da European Marketing Academy —, não encontrou nas vendas totais um efeito do andamento que se distinguisse do acaso. Das duas medidas de vendas que apresentam, só as vendas a clientes do programa de fidelização subiram com música lenta, com uma diferença grande demais para ser atribuída ao acaso. Trocado por miúdos: o mecanismo é plausível, mas a ideia de que a música lenta, sozinha, muda muito o que gastas não se repetiu quando o teste passou de uma loja para 140 — ainda que num setor diferente do supermercado.
A "zona de ouro" ao nível dos olhos — mais vista, nem sempre mais comprada
É lugar-comum ouvir que as marcas pagam para ficar "ao nível dos olhos" nas prateleiras. O caso documentado por um estudo oficial norte-americano é mais estreito: nos Estados Unidos, os fornecedores pagam aos retalhistas para entrarem na loja — as chamadas slotting fees, pagamentos únicos feitos como condição para a colocação inicial de um produto novo na prateleira ou para o acesso inicial ao armazém. Nesse estudo de 2003, dos serviços da Federal Trade Commission (FTC, o organismo federal norte-americano de concorrência e defesa do consumidor), com sete retalhistas e cinco categorias de produto, vários retalhistas e fornecedores disseram que pagar uma slotting fee não garante qualquer posição concreta na prateleira; e a própria FTC avisa que a amostra é pequena e que, no máximo, os resultados dão pistas, não provas. É um retrato do retalho alimentar americano de há duas décadas, não do supermercado português de hoje. E a investigação académica sobre posição na prateleira, feita com seguimento ocular (eye-tracking) — uma câmara que regista para onde a pessoa está mesmo a olhar, e durante quanto tempo — a fotografias de prateleiras em tamanho real, complica ainda mais a história simples do "nível dos olhos vende mais".
Pierre Chandon e colegas, num estudo publicado no Journal of Marketing em 2009, mostraram fotografias de prateleiras em tamanho real — de sabonetes e de analgésicos — a várias centenas de compradores adultos, recrutados em centros comerciais de oito cidades americanas. Mediram a atenção dada a cada marca com seguimento ocular (se a pessoa reparou nela e se o olhar lá voltou) e, com perguntas feitas de viva voz, a avaliação que faziam dela — se a lembravam, se a marca chegava a entrar no conjunto das candidatas (a consideração) e se acabava escolhida —, consoante a posição. As prateleiras do meio — a tal "zona de ouro" — ganham mesmo mais atenção do que as de cima e de baixo: 80% de probabilidade de serem notadas contra 64% (cerca de 25% mais) e 62% de o olhar lá voltar contra 40% (cerca de 55% mais). Só que essa atenção extra não passou para a escolha: a avaliação das marcas colocadas no meio foi até ligeiramente mais baixa do que a das prateleiras de cima e de baixo, ainda que sem significado estatístico — ou seja, com uma diferença pequena ao ponto de poder resultar do acaso da amostra. A posição que fez subir a escolha foi outra: perto do centro da prateleira, longe das pontas, a escolha foi de 9,0%, contra 7,7% nas pontas (cerca de 17% mais) — das medidas de avaliação, a única em que a vantagem do centro teve significado estatístico; o centro também foi mais notado do que as pontas, e o olhar voltou lá mais vezes. Já a prateleira de topo bateu a de baixo na atenção (74% contra 70% a ser notada) e na consideração (24,4% contra 22,6%), mas na escolha final a diferença não teve significado estatístico. Entre o lado esquerdo e o lado direito da prateleira não houve diferença, nem na atenção nem na avaliação.
É um estudo de laboratório, com duas categorias que não são comida e com escolhas declaradas em vez de compras: serve para perceber o mecanismo, não para prever o que acontece no corredor das bolachas. E o facto de a "zona de ouro" não se traduzir automaticamente em mais escolhas não significa que a posição seja irrelevante — significa que "está ao nível dos olhos" não é sinónimo de "foi a melhor escolha para ti". Continua a ser um bom hábito olhar deliberadamente para as prateleiras mais altas e mais baixas antes de decidires, e comparar aí o preço por unidade de medida (por quilo, por litro, por metro): o teu olho não vai lá sozinho, e é precisamente por isso que vale a pena mandá-lo.
O cheiro na loja — o sinal que não aparece na etiqueta
Eric Spangenberg, Ayn Crowley e Pamela Henderson publicaram, em 1996, no Journal of Marketing, um dos primeiros estudos académicos sobre aromas ambiente numa loja. O ponto de partida deles diz muito sobre o assunto: a imprensa noticiava que os retalhistas andavam a difundir cheiros nas lojas para criar um ambiente mais positivo, e isso acontecia apesar de não existir investigação académica a sustentar a prática. O estudo que fizeram, num ambiente de loja simulado, mostrou que as pessoas avaliaram a loja e se comportaram nela de forma diferente com aroma e sem aroma — mas num ambiente construído para o medir, e não numa loja a funcionar. O mecanismo geral — um sinal ambiente que mexe na forma como percebes a loja — pode ajudar a explicar porque é que há supermercados com a padaria perto da entrada, mas o cheiro do pão acabado de cozer numa loja real não foi o que este estudo testou.
Fazer compras com fome — não é só a secção de comida que sofre
O conselho "não vás às compras com fome" já é conhecido, mas a investigação mostra que o efeito é mais amplo do que se pensava. Alison Jing Xu, Norbert Schwarz e Robert Wyer publicaram, em 2015, na Proceedings of the National Academy of Sciences, cinco estudos de laboratório e de campo que mostraram que a fome aumenta a intenção de adquirir não só comida, mas também objetos que não são comida. Numa das experiências, os participantes com fome levaram em média 3,93 molas de dossiê gratuitas, contra 2,31 dos participantes saciados — cerca de 70% mais, e nenhuma delas se come. Noutro estudo, feito com clientes à saída de um grande armazém e com os talões reais da compra na mão, quem tinha fome comprou mais produtos que não eram comida — e gastou mais neles, mesmo tendo em conta o humor de cada pessoa e o tempo que passou na loja.
A explicação proposta pelos autores é que a fome ativa um estado mental geral de "querer adquirir", que não se limita à comida — transborda para outros objetos que não se comem: o armazém do estudo vendia sobretudo roupa, calçado e eletrónica, e quase nada de comida. Isto tem uma implicação prática simples: a hora a que fazes as compras pode influenciar o que levas para além da comida.
A disposição da loja — o que muitas vezes fica longe da entrada
Leite, ovos e outros produtos que levas em quase todas as idas ao supermercado ficam muitas vezes longe da entrada, o que te leva a passar por corredores de produtos que não vieste comprar. Ao contrário dos mecanismos anteriores, este não tem aqui um estudo por trás: é uma prática que podes observar em muitas lojas grandes, e a lógica é simples — quanto mais corredores percorres, mais produtos que não procuravas passas a ver. A zona das caixas segue lógica parecida, com pastilhas, chocolates e revistas à altura da mão.
O teto do talão: um método com número
Antes de entrares, define um valor máximo para a compra e vai somando no telemóvel à medida que pões coisas no carrinho. Como definir o valor: calcula-o a partir do que gastaste nas últimas compras grandes — por exemplo, 8% abaixo da média dos últimos talões da compra da semana ou do mês —, e não a olho: um teto definido a olho pode tornar-se ele próprio uma âncora, como o número do cartaz de "limite de 12". Quando compensa: na compra grande da semana ou do mês; numa ida para cinco artigos não muda nada. Ordem de grandeza do ganho: se as compras grandes de uma família somam 3.000 € por ano (exemplo ilustrativo) e ela cumprir um teto 8% abaixo do habitual (valor escolhido para o exemplo, não medido), poupa 240 € por ano. Não muda uma vida financeira, mas é dinheiro que não vale a pena deixar na loja: no simulador de juros compostos vês o que esse valor rende se o guardares (240 € por ano são 20 € por mês de reforço); no simulador de objetivo de poupança vês quanto terias de poupar por mês para chegar a um valor-alvo.
Desconto em cartão não é desconto no talão
Alguns programas de fidelização creditam parte do "desconto" num cartão, para gastares mais tarde na mesma cadeia, em vez de o subtraírem ao que pagas hoje. São coisas diferentes: um euro poupado no talão é teu; um euro em cartão só vale se voltares a comprar naquela cadeia e, por vezes, dentro do prazo de validade do saldo. Lê nas condições do teu programa o que é desconto imediato, o que é crédito e o que caduca — cada cadeia tem as suas regras, e mudam com o tempo. Para comparar o preço de um cabaz entre cadeias, a DECO PROteste mantém uma comparação de preços de supermercados online; este guia trata do mecanismo e da decisão, e não de qual o supermercado mais barato.
Quando o "desconto" é mesmo um desconto
Desde 28 de maio de 2022, quando uma loja anuncia uma redução de preço tem de indicar também o preço mais baixo a que vendeu aquele produto nos 30 dias consecutivos anteriores à redução. A regra está no Decreto-Lei n.º 70/2007, alterado pelo Decreto-Lei n.º 109-G/2021 — o decreto-lei, em vigor desde essa data, que passou para a lei portuguesa parte de uma diretiva europeia de defesa dos consumidores (uma lei da União Europeia que cada país tem de passar para a sua legislação). Na loja, os letreiros, etiquetas ou listas têm de exibir de forma bem visível o novo preço e o preço mais baixo anteriormente praticado; a percentagem de desconto é uma indicação adicional e facultativa.
Há quatro notas no mesmo regime que convém conhecer. Em produtos agrícolas e alimentares perecíveis — na definição da lei, os que podem ficar impróprios para venda nos 30 dias seguintes à colheita, produção ou transformação —, e em produtos que estejam a quatro semanas do fim do prazo de validade, a referência são os últimos 15 dias consecutivos em que o produto esteve à venda, ou o período total em que esteve disponível ao público, se for mais curto (artigo 5.º, n.º 6). Numa campanha em que o desconto vai aumentando de forma gradual e ininterrupta, o preço de referência é o praticado antes da primeira redução, e não o da véspera (artigo 4.º, n.º 5). Num produto que a loja não vendia antes, a redução mede-se face ao preço que vai praticar depois da promoção (artigo 5.º, n.º 1). E a lei permite declarações gerais de redução em publicidade — um cartaz de "saldos até -50%" não tem de trazer preços de referência (artigo 4.º, n.º 6); mas um anúncio à redução de um produto concreto, em qualquer meio, tem de indicar o preço mais baixo anteriormente praticado.
Na próxima etiqueta de "-40%", procura esse preço de referência: se não estiver lá, ou se o "preço antes" for mais alto do que a referência que a lei manda usar (em regra, o mais baixo dos últimos 30 dias; as exceções estão acima), a redução não é o que parece.
Defesas para a próxima ida às compras
| Mecanismo | O que a investigação mostrou | Contramedida |
|---|---|---|
| Preço a terminar em .99 | Preços terminados em 9 dólares inteiros (e não em 99 cêntimos) aumentaram a procura em três experiências de campo, mais nos artigos novos do que nos que já se vendiam em anos anteriores; ensaios recentes, maiores e pré-registados, encontram um efeito fraco ou nenhum em compras de valor muito baixo e na intenção de compra, mas nas vendas registadas nas caixas de 25 cadeias o efeito é grande | Arredonda mentalmente para cima antes de decidir: 3,99 € é 4 € |
| Cartaz de "limite por cliente" | Promoções ancoradas num número — limites por cliente, preços por várias unidades — podem aumentar a quantidade comprada | Ignora o número do cartaz e compra a quantidade que a tua lista prevê, com base no que costumas consumir: quem chega com a sua própria referência resiste |
| Prateleira ao nível dos olhos | A prateleira do meio ganha atenção (80% contra 64% a ser notada) mas não ganha escolha; o que faz subir a escolha é estar perto do centro da prateleira, longe das pontas (9,0%, contra 7,7% nas pontas) | Olha também para as prateleiras de cima e de baixo antes de decidires, e compara aí o preço por unidade de medida |
| Música lenta | O estudo de 1982, num supermercado, encontrou efeito no ritmo dos clientes e nas vendas; numa cadeia de cosmética com 140 lojas, em 2024, não houve efeito nas vendas totais | Se te apanhares a andar devagar, volta à lista |
| Cheiro na loja | Num ambiente de loja simulado, a presença de um aroma mudou avaliações e comportamentos face a uma loja sem aroma | Cheirar não é decidir: o que entra no carrinho sai da lista, não do apetite |
| Fome | Participantes com fome levaram 3,93 molas de dossiê, contra 2,31 dos saciados — cerca de 70% mais | Come antes de ir; faz as compras depois de uma refeição |
| Disposição da loja e zona das caixas | Sem estudo citado neste guia; prática que se observa em muitas lojas | Se não está na lista, não entra no carrinho; compara o preço por unidade de medida (por quilo, por litro, por metro) na etiqueta da prateleira, que a lei manda indicar na generalidade dos casos, com as exceções previstas no Decreto-Lei n.º 138/90, na sua redação atual |
Antes de saíres de casa, faz uma lista e compromete-te a segui-la: decidir dentro da loja é decidir no ambiente desenhado precisamente para te fazer decidir mal.
Em euros: uma família que gasta 500 € por mês em compras e evita cair em apenas duas ou três destas armadilhas — por exemplo, arredondar os preços em .99 para cima e não comprar por causa de um cartaz de "limite por cliente" — pode facilmente poupar 5% do talão sem sentir qualquer perda de conforto, o que são 25 €/mês, ou 300 €/ano (exemplo ilustrativo, não uma medição). No simulador de juros compostos, 25 €/mês investidos a uma rentabilidade anual de 5% durante 10 anos rendem mais de 3.800 € — dinheiro que, de outra forma, ficava na loja sem que dês por isso.
Próximos passos
- Na tua próxima ida ao supermercado, repara conscientemente em pelo menos três dos mecanismos deste guia em ação — o preço a terminar em 9, a música, o cartaz de limite, o cheiro perto da entrada.
- Experimenta uma vez fazer a lista de compras completa antes de saíres de casa, e compara o total gasto com uma ida sem lista, na mesma semana ou na semana seguinte.
- Identifica os dois ou três produtos que compras quase sempre por rotina, e verifica se a marca do próprio supermercado (a chamada marca branca) ou uma prateleira mais alta ou mais baixa oferece o mesmo produto a um preço por unidade mais baixo.
Perguntas frequentes
Os preços a acabar em 99 cêntimos funcionam mesmo? Depende de onde se mede. O efeito do dígito da esquerda existe e aparece quando a mudança altera o primeiro dígito, de 3,00 € para 2,99 €. Em três experiências de campo com catálogos, preços terminados em 9 dólares inteiros (e não em 99 cêntimos) aumentaram a procura, com efeito mais forte nos artigos novos. Ensaios grandes publicados desde 2022 não encontram efeito fiável em compras de valor muito baixo nem na intenção de compra declarada; já uma análise das vendas registadas nas caixas de 3.500 produtos em 25 cadeias norte-americanas estima que subir um cêntimo acima de um preço terminado em 99 pesa como se fosse uma subida de mais de vinte cêntimos.
O cartaz de "limite de 12 por cliente" é para eu comprar menos ou mais? Pode levar-te a comprar mais. Os limites de quantidade por cliente podem funcionar como âncora: partes do número que está no cartaz e ajustas pouco a partir dele. O mesmo estudo mostra a defesa: quem chega à prateleira com a sua própria referência — quanto costuma comprar ou consumir — contraria bem este tipo de promoção.
O que está ao nível dos olhos é sempre o que vende mais? Não. Num estudo de seguimento ocular, as prateleiras do meio foram mais notadas do que as de cima e de baixo (80% contra 64%) e o olhar voltou lá mais vezes, mas a escolha não subiu. O que fez subir a escolha foi estar perto do centro da prateleira, longe das pontas: 9,0%, contra 7,7% nas pontas.
Vale a pena ir ao supermercado depois de comer? Sim. Num estudo de 2015, a fome aumentou a intenção de adquirir também objetos que não são comida: os participantes com fome levaram 3,93 molas de dossiê gratuitas, contra 2,31 dos participantes saciados. À saída de um grande armazém, com os talões na mão, quem tinha fome tinha comprado mais produtos que não eram comida.
A música do supermercado muda o que compro? Talvez menos do que se diz. O estudo clássico de 1982 encontrou efeito do andamento no ritmo dos clientes e nas vendas de um supermercado. Um estudo de 2012 só encontrou o efeito com música em modo menor, o mais melancólico. E o maior ensaio de campo sobre o tema até 2025, segundo os próprios autores — 140 lojas de uma cadeia de cosmética, seis semanas, em 2024 —, não encontrou efeito nas vendas totais: das duas medidas de vendas que apresenta, só as vendas a clientes do programa de fidelização subiram com música lenta.
O preço por unidade é obrigatório em Portugal? Em regra sim: os retalhistas têm de indicar o preço por unidade de medida (por quilo, por litro, por metro), ao abrigo do Decreto-Lei n.º 138/90, na sua redação atual, normalmente na etiqueta da prateleira. A própria lei prevê, no artigo 4.º, n.º 2, situações em que essa indicação não é exigida.
Fontes e referências
Consultadas em setembro de 2026. As ligações a legislação abrem o diploma tal como foi publicado no Diário da República; a versão consolidada em vigor está em diariodarepublica.pt, na secção de legislação consolidada. Confirma sempre a versão mais recente antes de decidires.
Legislação
- Presidência do Conselho de Ministros — Decreto-Lei n.º 109-G/2021, de 10 de dezembro, que transpõe parcialmente a Diretiva (UE) 2019/2161 e dá a redação atual às regras de indicação do preço mais baixo anteriormente praticado (Decreto-Lei n.º 70/2007: artigo 3.º, n.º 2; artigo 4.º, n.os 1, 5 e 6; artigo 5.º, n.º 6; artigo 6.º, alínea a); Decreto-Lei n.º 138/90: artigo 1.º, n.º 2); entrada em vigor a 28 de maio de 2022, pelo artigo 15.º (Diário da República)
- Governo de Portugal — Decreto-Lei n.º 70/2007, de 26 de março, que regula as práticas comerciais com redução de preço nas vendas a retalho, incluindo o preço de referência de um produto não comercializado antes (artigo 5.º, n.º 1), na sua redação atual (alterado, entre outros, pelo Decreto-Lei n.º 109-G/2021 e pela Lei n.º 10/2023)
- Governo de Portugal — Decreto-Lei n.º 138/90, de 26 de abril, indicação de preços dos bens destinados à venda a retalho, incluindo o preço por unidade de medida (artigo 1.º, n.º 3), a indicação do preço mais baixo anteriormente praticado em qualquer informação sobre uma redução (artigo 1.º, n.º 2) e as situações em que o preço por unidade não é exigido (artigo 4.º, n.º 2), na sua redação atual (alterado pelos Decretos-Leis n.os 162/99, 9/2021 e 109-G/2021 e pela Lei n.º 10/2023)
- Assembleia da República — Lei n.º 10/2023, de 3 de março, que conclui a transposição da Diretiva (UE) 2019/2161 e altera o regime sancionatório do Decreto-Lei n.º 70/2007 (artigo 16.º) e do Decreto-Lei n.º 138/90 (artigo 11.º) (Diário da República)
Estudos e relatórios
- Manoj Thomas e Vicki Morwitz — "Penny Wise and Pound Foolish: The Left-Digit Effect in Price Cognition", Journal of Consumer Research, 32(1), 2005, pp. 54-64 (DOI)
- Eric Anderson e Duncan Simester — "Effects of $9 Price Endings on Retail Sales: Evidence from Field Experiments", Quantitative Marketing and Economics, 1(1), 2003, pp. 93-110 (DOI)
- Avner Strulov-Shlain — "More Than a Penny's Worth: Left-Digit Bias and Firm Pricing", Review of Economic Studies, 90(5), 2023, pp. 2612-2645 (DOI)
- Achiel Fenneman, Jörn Sickmann, Sascha Füllbrunn, Carina Goldbach e Thomas Pitz — "Psychological price perception may exert a weaker effect on purchasing decisions than previously suggested: Results from a large online experiment fail to reproduce either a left-digit or perceptual-fluency effect", PLOS ONE, 17(8), 2022, e0270850 (DOI)
- Yannik Escher, Eve Troll, Marie-Lena Henjes e David Loschelder — "How consumers evaluated precise, just-below, and round prices: evidence from two high-powered, preregistered experiments", Frontiers in Behavioral Economics, 5, 2026 (DOI)
- Brian Wansink, Robert Kent e Stephen Hoch — "An Anchoring and Adjustment Model of Purchase Quantity Decisions", Journal of Marketing Research, 35(1), 1998, pp. 71-81 (DOI)
- Universidade Cornell — declaração do provost sobre a investigação de má conduta académica relativa a Brian Wansink, 20 de setembro de 2018 (Cornell Chronicle)
- JAMA Pediatrics e JAMA — avisos de retratação de artigos de Brian Wansink: "Notice of Retraction. Wansink B, Just DR, Payne CR. Can Branding Improve School Lunches?", JAMA Pediatrics, dezembro de 2017 (DOI), e "Notice of Retraction: Wansink B, Cheney MM. Super Bowls: Serving Bowl Size and Food Consumption", JAMA, outubro de 2018 (DOI)
- Amos Tversky e Daniel Kahneman — "Judgment under Uncertainty: Heuristics and Biases", Science, 185(4157), 1974, pp. 1124-1131 (DOI)
- Ronald Milliman — "Using Background Music to Affect the Behavior of Supermarket Shoppers", Journal of Marketing, 46(3), 1982, pp. 86-91 (DOI)
- Klemens Knöferle, Eric Spangenberg, Andreas Herrmann e Jan Landwehr — "It is all in the mix: The interactive effect of music tempo and mode on in-store sales", Marketing Letters, 23, 2012, pp. 325-337 (DOI)
- Fabienne Krywuczky, Peeter Verlegh e Baris Kocaman — "Background Music in Retail: When taking it slow may benefit you", Proceedings of the European Marketing Academy, 54.ª conferência, 2025 (texto integral)
- Pierre Chandon, Wesley Hutchinson, Eric Bradlow e Scott Young — "Does In-Store Marketing Work? Effects of the Number and Position of Shelf Facings on Brand Attention and Evaluation at the Point of Purchase", Journal of Marketing, 73(6), 2009, pp. 1-17 (DOI); os números citados vêm da versão de pré-publicação do mesmo artigo, o documento de trabalho do INSEAD 2009/24/MKT
- Eric Spangenberg, Ayn Crowley e Pamela Henderson — "Improving the Store Environment: Do Olfactory Cues Affect Evaluations and Behaviors?", Journal of Marketing, 60(2), 1996, pp. 67-80 (DOI)
- Alison Jing Xu, Norbert Schwarz e Robert Wyer — "Hunger Promotes Acquisition of Nonfood Objects", Proceedings of the National Academy of Sciences, 112(9), 2015, pp. 2688-2692 (DOI)
- Federal Trade Commission (EUA) — Slotting Allowances in the Retail Grocery Industry: Selected Case Studies in Five Product Categories, An FTC Staff Study, novembro de 2003 (página do relatório)
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