Um estudo com dados reais de 66.465 famílias dos EUA com conta numa corretora (a empresa onde se compram e vendem ações), entre 1991 e 1996, encontrou um padrão claro. Quem mais comprava e vendia ficou com 11,4% ao ano de retorno líquido (o que sobra depois de custos), contra 17,9% do mercado e 18,5% de quem menos negociava. Antes de custos, os grupos rendiam praticamente o mesmo: a diferença vem de comissões e spreads (a distância entre o preço de compra e o de venda), pagos a cada transação. Em Portugal, vender com lucro para voltar a comprar antecipa imposto que só pagarias quando vendesses de vez, e esse dinheiro deixa de render. A causa mais provável, segundo os próprios autores, é excesso de confiança. No exemplo deste guia, com 25.000€ investidos, render 1 a 2 pontos percentuais a menos por ano custa mais de 10.000€ ao fim de 20 anos. O que fazer: define como divides o dinheiro, revê essa divisão poucas vezes e com uma regra fixa (por exemplo, uma vez por ano) e olha menos vezes para a carteira.
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Comprar e vender com frequência dá uma sensação de controlo — de estar "a gerir ativamente" o dinheiro, de reagir a notícias, de aproveitar oportunidades que quem só compra e espera deixa passar. O problema é que a investigação académica sobre este comportamento, feita com dados reais de contas de corretora e não com opiniões, aponta na direção contrária: em média, quanto mais se negoceia, pior fica o retorno líquido que sobra no bolso do investidor.
O estudo: 66.465 famílias, cinco grupos por frequência de negociação
Brad Barber e Terrance Odean publicaram, em 2000, no Journal of Finance, o estudo "Trading Is Hazardous to Your Wealth" ("Negociar É Perigoso Para a Tua Riqueza"), sobre a forma como os investidores individuais negoceiam e o que isso lhes custa. Os autores tiveram acesso a dados reais de 66.465 famílias com contas de ações comuns numa grande corretora de comissões baixas nos Estados Unidos, entre 1991 e 1996, e dividiram-nas em cinco grupos de igual tamanho (quintis, cada um com 20% das famílias) consoante a frequência com que negociavam.
Os resultados, em retorno líquido anual (já depois de custos):
| Grupo | Rotação média anual da carteira (a parte da carteira que é vendida e substituída) | Retorno líquido anual |
|---|---|---|
| Famílias que menos negociavam (quintil mais baixo) | ≈ 0,19% ao mês (≈ 2,3% ao ano) | 18,5% |
| Família média do estudo | ≈ 75% ao ano | 16,4% |
| Famílias que mais negociavam (quintil mais alto) | mais de 250% ao ano (mais do dobro da carteira, todos os anos) | 11,4% |
| Índice de mercado usado como referência (a média do mercado, em que cada empresa pesa o que vale em bolsa) | — | 17,9% |
Este estudo mediu investidores norte-americanos entre 1991 e 1996, numa época de comissões por ordem mais altas do que as de hoje, antes de corretoras com comissão zero se tornarem comuns. O mecanismo — negociar mais gera mais fricção de custos e spreads — mantém-se válido; a magnitude exata dos custos depende do preçário de cada corretora. Refaz a conta com os valores da tua própria plataforma (ver quanto custa mesmo a tua corretora) em vez de assumires que os números de 1991-1996 se aplicam ao cêntimo hoje.
Uma objeção natural: o estudo mede o período de 1991 a 1996, quando cada ordem custava dezenas de dólares, e hoje há corretoras que não cobram comissão por ordem. Mas quando a comissão desaparece, a fricção desloca-se: continuam a existir o spread e o custo de câmbio, se o ativo for negociado noutra moeda (ver como comparar o custo de uma corretora), e o imposto pago mais cedo sobre as mais-valias que realizas — o lucro de vender um ativo por mais do que o compraste, que só conta para o imposto no dia em que vendes. O que o estudo mostra é que o volume de negociação, por si só, não melhora a seleção de ações, e essa parte não depende da comissão.
O ponto central do estudo não é a diferença de retorno líquido, é a origem dela. Antes de custos, o retorno bruto de todos os quintis ficou entre 18,5% e 18,7% ao ano — praticamente igual entre quem negociava pouco e quem negociava muito, e em linha com o índice (o cesto de ações que representa o mercado, como o S&P 500). A diferença enorme entre esse bruto e os 11,4% líquidos do grupo que mais negociava não vem de más escolhas de ações — vem de comissões e spreads de compra e venda que se acumulam a cada transação. Negociar mais não trouxe melhores escolhas; trouxe mais oportunidades de pagar custos.
Não é falta de sorte — o mais provável é excesso de confiança
Se negociar mais não melhora, em média, a seleção de ações, porque é que tanta gente o faz? Barber e Odean relacionam este padrão com excesso de confiança — já explicado com mais detalhe no guia sobre os vieses que te custam dinheiro. Um modelo teórico de Gervais e Odean (2001) descreve como isto pode acontecer, sobretudo nos primeiros anos de quem negoceia: quem atribui demasiado mérito aos próprios sucessos (uma ação que sobe depois de comprada) passa a confiar mais na sua capacidade do que ela justifica, e a negociar mais, o que baixa o ganho que pode esperar. É um ciclo plausível precisamente porque os ganhos ocasionais são reais e memoráveis, enquanto o custo acumulado de centenas de pequenas transações é discreto.
Um segundo estudo dos mesmos autores: "Boys Will Be Boys"
Em 2001, os mesmos autores publicaram, na Quarterly Journal of Economics, um estudo de seguimento que testa a hipótese do excesso de confiança, usando uma variável observável na literatura de psicologia: homens tendem, em média, a mostrar níveis mais altos de excesso de confiança do que mulheres em domínios como o investimento. Se o excesso de confiança explica a negociação excessiva, os homens deviam negociar mais — e sofrer mais com isso.
Foi exatamente o que encontraram: os homens do estudo negociavam com uma rotação anual de 77%, contra 53% das mulheres — cerca de 45% mais. Entre os investidores solteiros, os homens negociavam 67% mais do que as mulheres. O efeito nos retornos líquidos seguiu o mesmo padrão: a negociação reduziu o retorno anual dos homens em 2,65 pontos percentuais (a diferença direta entre duas percentagens: um retorno de 10% ao ano passaria a 7,35%), contra 1,72 pontos percentuais nas mulheres — uma diferença de quase 1 ponto percentual ao ano. Esta redução não vem só dos custos: no mesmo estudo, e com uma medição diferente — o que compraram contra o que venderam, e não o retorno de cada grupo —, as ações que os homens compraram tiveram um desempenho pior, cerca de 0,2 pontos percentuais por mês, do que as que venderam (0,17 nas mulheres; a distância entre estes dois valores, o dos homens e o das mulheres, é pequena de mais para os próprios autores a darem como real, e não como acaso da amostra). A conclusão dos autores é que ambos os sexos prejudicam o retorno ao negociar; os homens fazem-no mais vezes.
Anatomia dos custos de negociar demasiado
Negociar soma vários tipos de custo, entre eles os três seguintes e, se o ativo for negociado noutra moeda, o câmbio. Nem todos se aplicam a todas as ordens (numa compra não há imposto sobre mais-valias, e há corretoras que não cobram comissão) e nem sempre são visíveis ao mesmo tempo:
- Comissões de corretora — muitas cobram um valor fixo ou percentual por cada ordem; outras não cobram comissão dentro de certos limites, e aí o que pagas pode aparecer noutro lado: na taxa por ordem, no câmbio ou no spread. Compara sempre as tuas opções antes de escolheres onde investir: o guia sobre como comparar o custo de uma corretora mostra que a diferença entre corretoras pode já ser relevante antes de sequer contares o efeito de negociar com frequência.
- Spread entre preço de compra e preço de venda — o preço a que compras (ask) é, em regra, ligeiramente mais alto do que o preço a que vendes no mesmo instante (bid). Este custo não te chega como uma linha separada na fatura — está dentro do próprio preço a que a ordem é executada — mas é pago a cada transação, e mais negociação significa pagá-lo mais vezes.
- Perder o diferimento fiscal, ao realizar mais-valias cedo demais — em Portugal, as mais-valias de ações e de ETF (fundos que se compram e vendem em bolsa como uma ação e que, em regra, seguem um índice) são tributadas, em regra, à taxa especial de 28% (art. 72.º, n.º 1, alínea c), do Código do IRS), sobre o saldo do ano entre ganhos e perdas, declarado no ano seguinte. Enquanto não vendes, esse ganho continua todo a render — e, nas mais-valias de valores mobiliários admitidos à negociação e de partes de organismos de investimento coletivo abertos (como as ações admitidas à negociação e os ETF que sejam fundos UCITS, os fundos regulados pelas regras europeias de proteção do investidor), a lei exclui de tributação 10% do rendimento quando os ativos vendidos foram detidos por um período superior a 2 anos e inferior a 5 anos, 20% quando esse período for igual ou superior a 5 anos e inferior a 8, e 30% quando for igual ou superior a 8 anos (art. 43.º, n.º 5, do Código do IRS; o guia sobre declarar investimentos no IRS explica como). Excluir 10% quer dizer, na prática, que o imposto passa a incidir sobre 90% desse rendimento em vez de 100%; e, como a regra vale também para um saldo negativo, uma perda nesses ativos só conta nessa mesma proporção (90%, 80% ou 70%). Cada venda com lucro seguida de recompra — mesmo num ativo parecido — antecipa imposto que só pagarias no dia em que vendesses mesmo, e tira da carteira dinheiro que continuaria a render. E, nas unidades que voltas a comprar, a contagem do período que dá direito a essa exclusão recomeça do zero.
E há um agravamento específico de quem negoceia muito: se vendes valores mobiliários — ações, obrigações (empréstimos a um Estado ou a uma empresa, que pagam juro) ou unidades de fundos — detidos há menos de 365 dias e o teu rendimento coletável (o que resta do teu rendimento depois das deduções e abatimentos previstos na lei), contando com o saldo dessas vendas, for igual ou superior ao valor do último escalão do IRS, o da taxa mais alta (86.634€ nos rendimentos de 2026, declarados em 2027), o englobamento deixa de ser uma escolha tua: esse saldo é obrigatoriamente somado aos teus outros rendimentos e tributado às taxas progressivas do IRS, as mesmas que se aplicam ao teu salário (art. 72.º, n.º 14, do Código do IRS). A essas taxas pode ainda acrescer a taxa adicional de solidariedade: 2,5% sobre a parte do rendimento coletável entre 80.000€ e 250.000€, e 5% acima de 250.000€ (art. 68.º-A).
Vender uma posição numa queda para recomprar dias depois paga dois spreads (e duas comissões, se a corretora as cobrar) e antecipa o imposto sobre qualquer mais-valia realizada. Com ordens de 1.000€, 3€ de custos fixos por ordem e um custo de spread de 0,1% do valor de cada ordem, cada ida e volta custa cerca de 8€ (0,8%) antes de imposto — e, se o preço recuperar entre a venda e a recompra, recompras mais caro do que vendeste.
Exemplo numérico — quanto custa negociar muito, em euros
Primeiro, o que é "negociar muito" em euros. Numa carteira de 25.000€, a rotação anual do estudo (a parte da carteira que é vendida e substituída) corresponde a:
| Rotação anual | Vendido por ano | Ordens de 1.000€ (compras + vendas) |
|---|---|---|
| ≈ 2,3% (quintil que menos negociava) | ≈ 575€ | ≈ 1 |
| 75% (família média) | 18.750€ | ≈ 38 |
| 250% (quintil que mais negociava) | 62.500€ | 125 |
Agora duas pessoas, cada uma com 25.000€ num ETF diversificado de ações (com o dinheiro repartido por muitas empresas, para que nenhuma decida sozinha o resultado), no mesmo mercado e com o mesmo retorno bruto de 6% ao ano:
- Investidora A, buy-and-hold (comprar e manter). Investe e não mexe. Com um TER de 0,2% — o custo anual do ETF, em percentagem do que lá tens —, o retorno líquido é de cerca de 5,8% ao ano.
- Investidor B, negoceia muito. Tem a rotação média do quintil mais ativo: 125 ordens de 1.000€ por ano. Custos: 3€ por ordem (2€ de comissão mais 1€ de taxa de manuseamento — um valor fixo cobrado em cada ordem, além da comissão —, a tarifa de um ETF de "Mercados Mundiais" na corretora DEGIRO, no preçário em vigor desde 1 de janeiro de 2026; ver como comparar o custo de uma corretora) são 375€; um custo de spread de 0,1% do valor de cada ordem, sobre os 125.000€ negociados, são mais 125€. Total no primeiro ano: 500€, ou 2% da carteira. A DEGIRO cobra ainda 2,50€ por ano por cada bolsa onde tenhas posições fora do teu mercado doméstico (para quem reside em Portugal, a Euronext Lisbon), com um máximo de 0,25% do valor da conta, segundo o preçário em vigor desde 1 de janeiro de 2026. Como A também a pagaria, se usasse a mesma corretora e a mesma bolsa, este custo não entra na diferença entre os dois. Para a projeção, admitimos que esses 2% se mantêm em todos os anos — a rotação de 250% incide sobre o valor que a carteira tiver, por isso o número de ordens cresce com ela — e que B paga o mesmo TER de 0,2% que A. Retorno líquido: 6% brutos menos 0,2% de TER menos 2% de custos de negociação, ou seja, cerca de 3,8% ao ano.
| Horizonte | Investidora A | Investidor B | Diferença |
|---|---|---|---|
| 5 anos | ≈ 33.140€ | ≈ 30.120€ | ≈ 3.020€ |
| 10 anos | ≈ 43.930€ | ≈ 36.300€ | ≈ 7.630€ |
| 20 anos | ≈ 77.210€ | ≈ 52.710€ | ≈ 24.500€ |
A tarifa escolhida para B é a mais cara das duas que a mesma corretora pratica em ETF. Se o ETF estiver na lista "Seleção de ETFs" (os ETF cotados na Tradegate, uma bolsa de Berlim), a ordem fica em 1€ (0€ de comissão mais 1€ de manuseamento): os custos de B descem para 250€ no primeiro ano, ou 1% da carteira, o retorno líquido sobe para 4,8% e a diferença ao fim de 20 anos passa de ≈24.500€ para ≈13.360€. Metade do custo, com a mesma frequência de negociação — e ainda assim mais de metade do capital inicial, deixado pelo caminho.
Se preferires o pressuposto contrário — o número de ordens não cresce com a carteira, e B paga sempre os mesmos 500€ por ano, descontados no fim de cada ano —, a conta dá uma diferença menor, mas da mesma ordem de grandeza: ≈59.200€ para B ao fim de 20 anos, contra os ≈77.210€ de A, ou seja, cerca de 18.000€.
A diferença de 2 pontos percentuais por ano é bastante menor do que a diferença real de 6,5 pontos que Barber e Odean documentaram entre o mercado (17,9%) e o quintil mais ativo (11,4%), e não inclui o imposto pago mais cedo sobre as mais-valias realizadas (28%). Podes refazer a conta no simulador de juros compostos (a conta em que o que o dinheiro rende num ano passa também a render nos anos seguintes): 25.000€ no campo "Valor que já tens hoje", 0€ de reforço mensal, 20 anos e 5,8% de rentabilidade anual esperada — depois repete com 3,8%. Sem reforços mensais, o simulador chega aos mesmos valores da tabela, e a diferença entre os dois resultados é o custo de negociar muito.
Não é só ações individuais
O mesmo mecanismo aplica-se a ETF, a criptomoedas (com regras fiscais próprias — ver criptomoedas e IRS), e a qualquer instrumento com custo de transação e tributação sobre mais-valias realizadas. Trocar de ETF com frequência "para apanhar o setor que está a subir", ou vender uma posição em pânico numa queda para recomprar dias depois, tem exatamente a mesma anatomia de custos descrita acima — comissão, spread, e imposto antecipado — mesmo quando aquilo em que investiste é, em si, uma boa escolha de longo prazo.
O que fazer em vez de negociar mais
- Define a tua alocação (como divides o dinheiro entre tipos de investimento) e mantém-na — a estratégia de comprar um cabaz diversificado e manter, descrita no guia ETF do zero, em português, é a que menos exposta fica ao mecanismo descrito neste guia, precisamente porque minimiza o número de decisões (e de custos) ao longo do tempo.
- Não tentes adivinhar o melhor momento para entrar ou sair do mercado — decidir entrar ou sair com base em previsões de curto prazo é a mesma armadilha, em versão "adivinhar o momento", da negociação excessiva em versão "seleção de ações". Se tens uma quantia grande para investir de uma vez, o guia lump sum ou investimento faseado mostra que, nos períodos históricos analisados, investir tudo de uma vez correu melhor do que investir aos poucos em cerca de dois terços dos casos — ou seja, esperar tem menos probabilidade de compensar, embora nem sempre seja a escolha errada.
- Automatiza os reforços e o reequilíbrio da carteira (o rebalanceamento: vender um pouco do que subiu e comprar um pouco do que ficou para trás, para voltares à divisão-alvo), em vez de decidires manualmente a cada semana ou mês — uma regra fixa e pouco frequente (por exemplo, rever a carteira uma vez por ano) reduz drasticamente o número de oportunidades para negociar por impulso.
- Reduz a frequência com que olhas para a carteira — verificar o saldo todos os dias mostra-te mais oscilações de curto prazo, que não são relevantes para um objetivo de longo prazo, e cada vez que olhas é mais uma ocasião para decidires mexer.
- Usa o simulador de juros compostos para testares, com os teus próprios números, quanto custa — ou quanto vale — manter um determinado retorno líquido ao longo do teu horizonte de investimento real, em vez de confiares só na intuição sobre se "vale a pena" negociar mais.
Próximos passos
- Consulta o histórico de transações da tua conta de investimento do último ano e soma o número total de compras e vendas — o número, por si só, costuma ser mais revelador do que parece antes de o veres.
- Soma as comissões pagas nesse período e estima o spread: na plataforma, vê a diferença entre o preço de compra e o de venda na altura em que costumas dar ordens. Varia com o ativo e com a liquidez — a facilidade de o comprar e vender rapidamente sem mexer no preço.
- Usa o simulador de juros compostos para comparares, com o teu capital real, o efeito de manter o teu retorno líquido atual versus um retorno 2 a 3 pontos percentuais mais alto, ao longo do teu horizonte de investimento.
- Define uma regra explícita — por exemplo, rever a carteira só trimestralmente, ou só quando a alocação se desviar mais de 5 pontos percentuais do objetivo — para substituíres decisões avulsas por um processo fixo.
Lista de verificação final
- Sabes quantas vezes negociaste no último ano, e consegues justificar cada decisão com algo além de "pareceu-me boa altura"?
- Já somaste as comissões, o spread estimado e o efeito fiscal de vender cedo demais no total de custos do último ano?
- Tens uma alocação definida por escrito, e um calendário fixo para a rever, em vez de a ajustares sempre que olhas para o mercado?
- Sabes distinguir entre uma decisão de investimento fundamentada e o impulso de "fazer alguma coisa" só porque o mercado se mexeu?
- Se tens uma quantia grande para investir, já decidiste a estratégia de entrada antes de a teres na conta, em vez de decidires no calor do momento?
Perguntas frequentes
Quantas transações por ano é demasiado? Não há um número único, mas o estudo de Barber e Odean dá uma referência: as famílias que mais negociavam (em média, mais de 250% da carteira por ano) ficaram com 11,4% ao ano, contra 18,5% das que menos negociavam (cerca de 2,3% ao ano, em média).
Isto ainda se aplica se a minha corretora não cobra comissões? Sim, em parte. Sem comissão continuam a existir o spread entre compra e venda, o custo de câmbio (se o ativo for negociado noutra moeda) e o imposto pago mais cedo sobre mais-valias realizadas. O guia mostra que a diferença de retorno pode ser pequena por ano e enorme ao fim de 20 anos.
Rebalancear a carteira conta como negociar demais? Não, se seguires uma regra fixa e pouco frequente, como rever uma vez por ano: são poucas ordens, e o que o estudo mostra é que, quanto mais se negoceia, mais se paga em custos e pior fica o retorno líquido. Cada rebalanceamento também paga spreads, e comissões quando a corretora as cobra, e pode antecipar imposto, por isso convém fazê-lo raramente.
Vender com prejuízo e recomprar: a menos-valia conta para o IRS? Este guia não trata esse caso em detalhe. Para as regras de mais-valias e menos-valias, vê o guia sobre declarar investimentos no IRS e confirma com a Autoridade Tributária ou um contabilista.
Se estou a perder dinheiro, não devia vender? Depende de a tese que tinhas ao comprar se manter ou não. Vender por pânico numa queda e recomprar dias depois é uma forma de negociar muito: pagas dois spreads (e duas comissões, se a corretora as cobrar) e antecipas o imposto sobre qualquer mais-valia realizada. O estudo mostra que quem negoceia mais fica, em média, com menos retorno líquido; não mediu esse gesto em particular.
Negociar ETF sai mais barato do que negociar ações? Depende do preçário da tua corretora e da bolsa. No preçário da DEGIRO em vigor desde 1 de janeiro de 2026, por exemplo, e sem contar o câmbio, um ETF da lista "Seleção de ETFs" (os ETF cotados na Tradegate, uma bolsa de Berlim) custa 1€ por ordem (0€ de comissão mais 1€ de manuseamento) e um ETF de "Mercados Mundiais" custa 3€ — menos do que os 4,90€ de uma ação na Xetra (a principal bolsa alemã) ou na Euronext Paris, mas mais do que os 2€ de uma ação na Euronext Lisbon (a bolsa de Lisboa). O mecanismo de custos, esse, é o mesmo: comissão, spread, câmbio quando há troca de moeda e imposto antecipado sobre mais-valias. O ETF já diversifica dentro do fundo, mas negociá-lo com frequência continua a acumular custos.
Fontes e referências
Consultadas em setembro e outubro de 2026. As ligações apontam para a versão em vigor à data; confirma sempre a versão mais recente antes de decidires.
- Brad M. Barber e Terrance Odean — "Trading Is Hazardous to Your Wealth: The Common Stock Investment Performance of Individual Investors", Journal of Finance, vol. 55, n.º 2, 2000 (DOI)
- Brad M. Barber e Terrance Odean — "Boys Will Be Boys: Gender, Overconfidence, and Common Stock Investment", Quarterly Journal of Economics, vol. 116, n.º 1, 2001 (DOI)
- Simon Gervais e Terrance Odean — "Learning to Be Overconfident", The Review of Financial Studies, vol. 14, n.º 1, 2001, pp. 1-27 — o modelo teórico do ciclo entre sucessos e excesso de confiança (DOI)
- Carlos Cueva, Iñigo Iturbe-Ormaetxe, Giovanni Ponti e Josefa Tomás — "Boys will still be boys: Gender differences in trading activity are not due to differences in (over)confidence", Journal of Economic Behavior & Organization, vol. 160, 2019, pp. 100-120 (DOI)
- Autoridade Tributária e Aduaneira — Código do IRS, art. 72.º (taxas especiais), n.º 1, alínea c) — taxa de 28% sobre o saldo das mais-valias — e n.º 14 — englobamento obrigatório de ativos detidos há menos de 365 dias, na redação da Lei n.º 12/2022 (Portal das Finanças)
- Autoridade Tributária e Aduaneira — Código do IRS, art. 43.º (mais-valias), n.º 5 — exclusão de 10%, 20% e 30% do rendimento consoante o período de detenção, na redação da Lei n.º 31/2024 (Portal das Finanças)
- Autoridade Tributária e Aduaneira — Código do IRS, art. 68.º (taxas gerais; último escalão em 86.634€) e art. 68.º-A (taxa adicional de solidariedade) (art. 68.º · art. 68.º-A)
- DEGIRO — Preçário Basic/Active/Trader, atualizado a 1 de janeiro de 2026: 0€ de comissão nos ETF da "Seleção de ETFs" (os cotados na Tradegate), 2€ nos ETF de "Mercados Mundiais", 1€ nas ações da Euronext Lisbon, da NYSE e da Nasdaq e 3,90€ nas ações da Xetra e da Euronext Paris, mais 1€ de taxa de manuseamento por ordem, e 2,50€ por ano e por bolsa de custo de conectividade (no máximo 0,25% do valor da conta), que não se aplica ao mercado doméstico, à "Seleção de ETFs" nem aos produtos Tradias OTC (degiro.pt; quando se cobra, na página de ajuda "O que é o custo de conectividade?": degiro.pt)
- XTB — Tabela de Taxas e Comissões da XTB S.A. – Sucursal em Portugal, em vigor desde 30 de setembro de 2026 (os valores usados são iguais aos da tabela de 29 de junho de 2026, que substituiu), secção 2 (instrumentos do mercado organizado, como ações e ETF): 0%, com um mínimo de 0€, até 100.000€ de volume de negócios acumulado num mês (xtb.com)
- Vanguard (Megan Finlay e Josef Zorn) — "Cost averaging: Invest now or temporarily hold your cash?", fevereiro de 2023 — investir tudo de uma vez correu melhor do que o faseamento em cerca de dois terços dos períodos históricos analisados (vanguard.com)
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