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Quanto custa mesmo a tua corretora

27 min de leitura · atualizado outubro de 2026

resumo em 60 segundos

"Comissão zero" não quer dizer custo zero: o custo muda de sítio. A corretora é a plataforma onde compras e vendes ações e ETF (fundos que seguem um índice e se compram em bolsa). O custo real soma várias parcelas: a comissão por cada compra ou venda, o câmbio, a custódia (a taxa por guardarem os teus ativos), a taxa de inatividade e outras menos visíveis. Uma comissão de 0€ pode esconder um spread de câmbio (o custo de converter euros noutra moeda) de 0,5%: numa compra de 400€ em dólares são 2€, e repetem-se em cada compra. O pagamento por fluxo de ordens (a corretora receber de terceiros para lhes encaminhar as tuas ordens) está proibido na União Europeia desde 28 de março de 2024. Mesmo assim, a corretora continua a ganhar dinheiro contigo noutros lados: câmbio, juro sobre o saldo, taxas de liquidação. Se investes pouco todos os meses, usa um plano automático sem comissão (a corretora compra sozinha o valor que defines). A Trading 212, a XTB e a Trade Republic têm-no, e assim evitas a tarifa de cada compra avulsa em corretoras como a DEGIRO. Com mais património ou mais operações, o juro sobre o saldo parado, o câmbio e o custo de levares a carteira para outra corretora pesam mais do que a comissão. Antes de escolheres, lê o preçário até ao fim.

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"Comissão zero" é uma frase frequente na publicidade de corretoras — e enganadora, quando fica sozinha. Uma comissão de 0€ por ordem pode esconder um spread de câmbio de 0,5% (o custo de converter euros noutra moeda): numa compra de 400€ em dólares são 2€ — tanto como uma comissão fixa de 2€ e o dobro de uma de 1€ — e repete-se em cada compra que fizeres. O custo real de uma corretora raramente é um único número — é a soma de vários, e alguns deles só aparecem depois de já teres conta aberta, ou nem aparecem, escondidos na forma como a corretora ganha dinheiro contigo.

As peças do custo total

Comparação das corretoras mais usadas em Portugal

Comparação das corretoras mais usadas em Portugal
CorretoraComissão ações/ETFCâmbioInatividade
Trading 2120% de comissão de negociação e 0% de custódia na conta Invest0,15%Não cobra (tabela de comissões da conta Invest, setembro de 2026)
XTB0% enquanto o volume negociado no mês civil, somado em todas as tuas contas, não passar de 100.000€; acima disso, 0,2% (mín. 10€) sobre a parcela que excede esse limiar0,5% acrescentados à taxa de câmbio (um mark-up), nas conversões ligadas à negociação e a eventos societários — dividendos, desdobramentos e afins10€/mês, só se acumulares 365 dias sem abrir nem fechar posições (sem comprar nem vender nada) e 90 dias sem depósitos; com uma posição aberta em qualquer conta, não há cobrança. Custódia: 0,02% ao ano sobre a parte do valor médio diário da carteira de ações e ETF acima de 250.000€
DEGIROAções: 2€ (1€ + 1€ de manuseamento) em Euronext Lisboa, EUA e Canadá; 4,90€ (3,90€ + 1€) em Amesterdão, Paris, Xetra e várias outras bolsas europeias. ETF: 1€ na "Seleção de ETFs" (os cotados na Tradegate, uma bolsa alemã) e 3€ (2€ + 1€) nos "Mercados Mundiais"0,25% (na conversão automática de moeda, a que a DEGIRO chama Auto FX)Não cobra (preçário com taxas desde 1 de janeiro de 2026). Há, em vez disso, um custo de conectividade de 2,50€ por ano e por bolsa (no máximo 0,25% do valor máximo da conta nesse ano), que não se aplica ao teu mercado doméstico nem à Seleção de ETFs
Interactive BrokersEuronext Lisboa, plano Tiered (comissão proporcional ao valor, com mínimo baixo, a que se somam as taxas de bolsa): 0,05% do valor (mín. 1,25€, máx. 29€); plano Fixed (percentagem do valor que já inclui as taxas de bolsa, com mínimo alto): 0,15% (mín. 6€, sem máximo). Os valores mudam de bolsa para bolsa. EUA, Tiered: 0,0035$/ação até 300.000 ações por mês (menos acima disso; mín. 0,35$), a que se somam taxas de bolsa e regulatóriasSem margem acrescentada à cotação: a comissão é cobrada à parte, 0,20 pontos base do valor (0,002%), com mínimo de 2 USD por ordemNão cobra: a tabela de mínimos da corretora indica 0,00 USD nas contas individuais e conjuntas. A própria corretora anunciou o fim destas taxas para a maioria dos tipos de conta a 1 de julho de 2021
Trade RepublicSem comissão por ordem, mais 1€ de taxa de liquidação por ordem avulsa (o custo de processar a compra ou a venda); a tabela de preços indica 2€ de comissão nas ordens com Preço Direto (a ordem em que escolhes tu a bolsa, entre 30, como a Xetra, a Euronext ou a Nasdaq; sem essa opção, a Trade Republic executa a ordem ao melhor preço que encontra entre as bolsas e é ela a outra parte do negócio) — confirma na aplicação se substituem a taxa de liquidação ou se somam a ela. Planos de poupança sem comissãoA tabela de preços remete para "o spread e custos de terceiros", sem publicar uma percentagemNão cobra (tabela de preços de setembro de 2026), tal como não cobra custódia

Valores de referência de setembro de 2026, indicativos e sujeitos a alteração pelas corretoras — confirma sempre as condições atualizadas no site oficial antes de abrires conta.

Exemplo — 200€/mês durante um ano, em ETF europeu

Imagina que investes 200€ todos os meses, durante um ano, num ETF cotado em euros, sem necessidade de câmbio:

Exemplo — 200€/mês durante um ano, em ETF cotado em euros, setembro de 2026
CorretoraComissões no ano (12 operações), sem Imposto do Selo
Trading 212 / XTB0€
Interactive BrokersDepende do plano e da bolsa onde o ETF está cotado. No plano Tiered são 1,25€ de comissão por ordem (0,05% de 200€ fica muito abaixo do mínimo), ou seja 15€ no ano, a que se somam as taxas de bolsa, que neste plano se cobram à parte. No plano Fixed, que em regra já as inclui, o mínimo por ordem é 6€ em Euronext Lisboa (72€ no ano) mas 3€ nas bolsas alemãs e nas Euronext de Amesterdão, Paris e Bruxelas com o encaminhamento automático de ordens da corretora, o IB SmartRouting (36€ no ano). Nos ETF dessas três Euronext, a tabela do plano Fixed acrescenta 0,75€ de taxa de bolsa por execução (mais 9€ no ano). Confirma em que plano abriste a conta — a corretora mostra-o nas definições da conta, e é possível mudar
DEGIRO12€ a 38,50€, consoante o ETF e a bolsa: 1€ por ordem (0€ + 1€ de manuseamento) num ETF da "Seleção de ETFs", que são os cotados na Tradegate; 3€ por ordem (2€ + 1€) nos "Mercados Mundiais", mais 2,50€ por ano de conectividade (no máximo 0,25% do valor máximo da conta nesse ano) se a bolsa não for o teu mercado doméstico

Valores de comissão, sem Imposto do Selo: se a tua corretora o cobra, e sobre o quê, está no preçário dela (ver mais abaixo).

Sobre 2.400€ investidos ao longo do ano, os 12€ a 38,50€ da DEGIRO representam entre 0,5% e 1,6% do valor investido só em comissões — antes de qualquer TER (os custos correntes anuais do próprio ETF, de que a comissão de gestão é só uma parte) ou outro custo. Repara na condição que faz a diferença: a tarifa mais barata está presa à lista da "Seleção de ETFs" e à Tradegate, a bolsa alemã onde esses ETF estão cotados. Se comprares o mesmo tipo de produto noutra bolsa europeia, cais na tabela dos "Mercados Mundiais" e, se essa bolsa não for o teu mercado doméstico, passas a pagar também a conectividade anual dessa bolsa. Para este perfil concreto (contribuições mensais pequenas e regulares), a diferença entre corretoras de comissão zero e corretoras de tarifa fixa por operação é real e mensurável, não uma abstração teórica. Se este ETF for de distribuição, cada reinvestimento manual dos dividendos recebidos é também uma operação sujeita a estas mesmas comissões — mais uma razão para leres acumulação ou distribuição? antes de escolheres o produto concreto.

Exemplo — o custo escondido do câmbio, numa compra pontual de 5.000€

O exemplo anterior evitou câmbio de propósito, para isolar o efeito da comissão. Mas grande parte do que os portugueses compram — ações americanas, ETF cotados em USD, ou mesmo alguns ETF UCITS (fundos que seguem as regras europeias de proteção do investidor) com classe de ações em dólares — implica converter euros. Aqui o spread de câmbio pesa muito mais do que a comissão de bolsa:

Custo de converter 5.000€ para USD, por corretora
CorretoraSpread de câmbioCusto da conversão
Interactive Brokers0,20 pontos base do valor (0,002%), com mínimo de 2 USD por ordem≈ 1,75€ (o mínimo de 2 USD ao câmbio de referência do BCE de 18/09/2026, 1,1460 dólares por euro; é o mínimo que manda nesta ordem de grandeza, não a percentagem)
Trading 2120,15%7,50€
DEGIRO0,25%12,50€
XTB0,5%25€
o efeito acumulado do câmbio em dividendos recorrentes

Se compras uma ação ou ETF que paga dividendos em dólares, convém perceber o que a tua corretora faz a esse dinheiro, porque aqui as regras divergem mesmo. Na XTB, as conversões de moeda ligadas a eventos societários — dividendos incluídos — pagam o mesmo mark-up de 0,5% da negociação, trimestre após trimestre, durante todos os anos em que mantiveres a posição. Na Trading 212 não: a comissão de câmbio não se aplica a pagamentos que resultem de eventos societários, como os dividendos. Para teres a ordem de grandeza: com dividendos de 2% ao ano, um mark-up de 0,5% custa 1€ por ano por cada 10.000€ de carteira. Numa simulação ilustrativa — 200€ por mês durante 30 anos, 7% de retorno anual já com os dividendos (capitalizado mês a mês), dividendos de 2% ao ano do saldo pagos por trimestre e reinvestidos, e o mark-up de 0,5% aplicado a cada pagamento — o câmbio dos dividendos soma cerca de 250€, contra cerca de 360€ de câmbio nas compras (0,5% de cada 200€). São pressupostos declarados, não uma previsão: com outro retorno ou outro dividendo, os valores mudam. Antes de escolheres, confirma qual dos dois comportamentos é o da tua corretora.

Outras cinco plataformas usadas em Portugal

Além das cinco corretoras acima, há cinco plataformas que aparecem no comparador de corretoras e que têm custos diferentes. Os valores abaixo são os do preçário de cada uma em setembro e outubro de 2026:

Cinco plataformas complementares: custos principais — setembro e outubro de 2026
PlataformaComissão por ordemCâmbio e outros custos
eToroZero comissão em ETF; nas ações, 1$ ou 2$ por posição consoante o país de residência e a bolsa, cobrados na abertura e no fecho0,75% entre a conta em EUR e a conta de investimento em USD (sem desconto de nível Club). Sem taxa de inatividade
Freedom24Mínimo de 2€ por ordem, mais 0,02€ por ação, nas bolsas europeias, e 2 USD mais 0,02 USD por ação nas americanas, no plano Smart (sem subscrição mensal; tabela de comissões em vigor desde 19 de agosto de 2026)A tabela de preços não indica percentagem de câmbio — confirma no tarifário em vigor antes de negociares. A tabela dos quatro planos (promocional, Smart, All-inclusive e Exclusive) não tem taxa de custódia nem de inatividade; o tarifário de 19/08/2026 tem, porém, uma taxa de 0,000822% por dia (cerca de 0,30% ao ano) nas tabelas de contas "E-Account" e "ER-Account" e não diz se se aplica à conta normal de negociação: confirma com a corretora antes de abrires conta
Revolut (Investir)Segundo a página de comissões de negociação da Revolut, em outubro de 2026, os planos Standard e Plus não incluem ordens sem comissão; o Premium inclui 5 por mês e o Metal e o Ultra 10, em ações, ETF, ETP (produtos cotados em bolsa, semelhantes a um ETF) e obrigações. Fora desse plafond, cada ordem paga 1€, exceto as compras, recorrentes ou únicas, de ETP selecionados feitas através da funcionalidade de planos de investimento, que não pagam comissão. Vê quantas te restam na app, no teu perfil, em "O seu plano" → "Planeie o seu património"Para investir noutra moeda, podes ter de a converter primeiro na conta principal da Revolut, onde valem estas regras. Nos dias úteis, sem comissão até 1.000€ por mês no plano Standard e até 3.000€ no Plus; acima disso, 1% no Standard e 0,5% no Plus. Ao fim de semana há uma comissão extra (1% no Standard, 0,5% no Plus). Premium, Metal e Ultra não têm limite mensal (tabelas de comissões em vigor desde 25 de agosto de 2026). Confirma na app o custo total antes de converteres
Banco BiG6,95€ por ordem até 200.000€ em Euronext Lisboa (acima, 0,06%); 6,95€ nas ações da Alemanha, Itália, Finlândia e Japão até 10.000€ (acima, 0,10%), 11,95€ em Paris, Amesterdão e Bruxelas até 12.000€ (acima, 0,10%), 14,95€ em Espanha e nos ETP alemães (incluindo os ETF cotados na Alemanha) até 10.000€ e 14,95£ no Reino Unido até 15.000£ (acima, 0,15% nos dois), 14,95$ nos EUA até 12.500$ (acima, 0,12%). Quem abre conta tem 50% de desconto nas ordens em Euronext Lisboa durante os primeiros 30 dias de conta ativa. Atenção ao 1,95€ que aparece em destaque no preçário: é o preço promocional dos Warrants e Certificados da Société Générale até 31/12/2026, não das ações em Euronext Lisboa, que ficam nos 6,95€ por ordemSpread cambial indicativo de 0,50%; guarda de títulos de 6€/trimestre + IVA no MyBolsa, site e app (isenta na BiGlobal Trade)
ActivoBank5€ por ordem nos mercados Euronext (Lisboa, Amesterdão, Bruxelas e Paris) e 5$ nos EUA (outras praças têm tabela própria); a 1.ª ordem de cada mês, pelo site ou pela app, é grátis3€/mês + IVA (3,69€) de comissão de serviço de bolsa para títulos integrados na Central de Valores Mobiliários, o sistema nacional onde ficam registados os títulos — o preçário indica esta linha como abrangendo títulos nacionais e internacionais. Os títulos não integrados na CVM e os títulos estrangeiros pagam guarda de títulos à parte, de 4€ a 33€ por mês (+ IVA) consoante a quantidade de títulos. Antes de abrires conta para comprar ETF ou ações estrangeiras, pergunta ao banco em qual das duas linhas caem os títulos que queres: a diferença de custo é grande. Preçário PC9072, de 20 de agosto de 2026

Nas comissões por serviços financeiros em operações realizadas por bancos e outras instituições financeiras, ou com a sua intermediação, incide Imposto do Selo de 4% sobre o valor cobrado (verba 17.3.4 da Tabela Geral do Imposto do Selo). O Código do Imposto do Selo abrange também, em certas condições, comissões cobradas por instituições de crédito ou sociedades financeiras sediadas no estrangeiro (artigo 4.º, n.º 2, alínea c)). Quem apura e entrega o imposto ao Estado é, em regra, a entidade credora da comissão (artigos 2.º, n.º 1, alínea b), e 23.º, n.º 1, do mesmo Código), e a lei prevê outros responsáveis quando o credor está sediado no estrangeiro (artigo 2.º, n.º 1, alíneas c), d) e j)). Se uma corretora estrangeira o cobra, e sobre o quê, está no preçário dela; o preçário de bolsa do Banco BiG, por exemplo, diz por escrito que a todas as comissões acresce 4% de Imposto do Selo. As operações sujeitas a IVA e dele não isentas não estão sujeitas a Imposto do Selo (artigo 1.º, n.º 2), ou seja, os dois impostos não se somam sobre a mesma comissão: no ActivoBank e no BiG, a comissão de serviço de bolsa e a guarda de títulos aparecem no preçário com IVA. O Banco BiG e o ActivoBank são bancos com sede em Portugal e participam, por isso, no Sistema de Indemnização aos Investidores português (25.000€ por investidor e por intermediário), além da garantia de depósitos de 100.000€ por depositante e por instituição. Valores de setembro de 2026.

Como a corretora ganha dinheiro quando não cobra comissão

Se uma corretora não cobra comissão nem custódia, é legítimo perguntar: como é que ela sobrevive? Historicamente, uma das formas possíveis era o pagamento por fluxo de ordens (PFOF, na sigla inglesa) — um modelo em que a corretora recebe pagamento de empresas de "market making" (que compram e vendem de forma contínua, garantindo que há sempre quem esteja do outro lado da tua ordem) para direcionar as ordens dos clientes para essas mesmas empresas, em vez de as levar diretamente à bolsa, onde o preço costuma ser mais competitivo. Os market makers lucravam ao executar as ordens com uma pequena margem, partilhando parte desse lucro com a corretora — o que não significava necessariamente um preço muito pior em cada operação individual, mas significava que a "comissão zero" nunca foi, de facto, gratuita: o custo estava embutido na qualidade de execução, de forma menos visível do que uma comissão explícita.

o que a lei diz sobre o pagamento por fluxo de ordens

Desde 28 de março de 2024, o artigo 39.º-A do MiFIR (o Regulamento dos Mercados de Instrumentos Financeiros) proíbe as empresas de investimento da União Europeia de receberem pagamento por fluxo de ordens. Havia uma única exceção temporária: um Estado-membro onde a prática já existisse antes dessa data podia isentar as suas empresas até 30 de junho de 2026 — mas só quanto aos serviços prestados a clientes domiciliados ou estabelecidos nesse mesmo Estado-membro —, desde que o notificasse à ESMA (a Autoridade Europeia dos Valores Mobiliários e dos Mercados) até 29 de setembro de 2024. Na lista pública que a ESMA mantém dessas notificações consta um único país: a Alemanha, que notificou a 21 de março de 2024. Para quem vive em Portugal, isto quer dizer que a proibição já se aplicava desde março de 2024; o que mudou a 1 de julho de 2026 foi o fim da única exceção que consta dessa lista. Nada disto elimina a pergunta que interessa — onde ganha a corretora? A resposta está no preçário e nos termos da conta: spread de câmbio, juro sobre o saldo, taxas de liquidação, subscrições. A Trade Republic, por exemplo, anuncia que não cobra comissão por ordem, mas cobra 1€ de taxa de liquidação em cada ordem avulsa (os planos de poupança não pagam esta taxa). Se uma corretora anuncia "comissão zero", lê o preçário até ao fim.

A DEGIRO, por sua vez, publica no preçário a comissão de cada bolsa e não cobra as taxas de terceiros diretamente, mas, em regra, através de uma taxa de manuseamento de 1€ por ordem, que cobre a compensação, a liquidação, a corretagem e as taxas regulatórias — e que se paga mesmo na "Seleção de ETFs", onde a comissão é 0€. Há ainda uma fonte de receita menos falada: o rendimento sobre o saldo dos clientes ("float") — o dinheiro parado nas contas, mesmo em trânsito entre operações, pode ser aplicado pela corretora em fundos do mercado monetário (fundos que investem em dívida de muito curto prazo, com risco muito baixo) ou em depósitos de um dia para o outro, gerando-lhe receita própria mesmo quando parte desse rendimento é devolvida a ti sob a forma do juro que vais ver a seguir.

Juro sobre saldo não investido — uma diferença real entre corretoras

Enquanto o teu dinheiro está na corretora mas ainda não investido, algumas pagam juro sobre esse saldo, outras não — e as que pagam têm condições bem diferentes:

Juro sobre saldo não investido — uma diferença real entre corretoras
CorretoraPaga juro sobre saldo não investido?Condições
Trade RepublicSim, depois de o ativares na appUma taxa própria para quem é novo cliente, sobre saldos até 50.000€, e, acima de 50.000€, a taxa de depósito do Banco Central Europeu. As duas podem mudar: vê na app a taxa em vigor e até quando se aplica a de novo cliente antes de contares com ela um ano inteiro. Juros acumulados diariamente e pagos mensalmente. Com IBAN português, a Trade Republic indica aplicar automaticamente a retenção de 28% (o imposto descontado logo no pagamento), ou de 19,6% a quem tem residência fiscal na Madeira ou nos Açores. Como a redução regional é aplicada por cada instituição, confirma no extrato a taxa que te foi retida. Sem IBAN português, indica não pagar juros sobre o dinheiro não investido
XTBSim, automáticoTaxa preferencial nos primeiros 90 dias a contar da assinatura do contrato, aplicável ao equivalente a 100.000€ de fundos disponíveis em todas as contas; acima desse montante, e passados os 90 dias, vale a taxa padrão. As taxas são variáveis e atualizadas semanalmente — vê o valor do dia na página de juros da corretora
Trading 212Sim, depois de o ativares na appTaxa variável, sem mínimo nem máximo de saldo, baseada nas taxas que a plataforma recebe dos bancos e dos fundos do mercado monetário onde mantém o dinheiro — que por sua vez acompanham as taxas dos bancos centrais. Para novos clientes da Trading 212 EU GmbH há uma taxa promocional em euros, composta pela taxa de depósito do BCE mais uma margem fixa durante um período limitado, ao fim do qual reverte para a taxa padrão. As taxas publicadas no site aplicam-se a clientes novos; quem já tem conta vê a sua no separador "Juros" da aplicação
Interactive BrokersSim, com duas condiçõesNão há juro sobre a primeira parte do saldo de cada moeda: os primeiros 10.000€ em euros, os primeiros 10.000 USD em dólares (cada moeda tem o seu escalão). E a taxa cheia só se aplica a contas com património líquido acima de 100.000 USD — abaixo disso é reduzida proporcionalmente: pelos exemplos publicados pela própria corretora a 18 de setembro de 2026, uma conta de 20.000€ com 5.000€ em caixa rendia 0%
DEGIRONãoNão paga juro nenhum sobre o dinheiro não investido na conta caixa, seja qual for o montante
exemplo calculado — o custo de deixar 10.000€ parados um ano à espera de investir

Imagina que juntaste 10.000€ para investir, mas ficas o ano inteiro à espera do momento certo para investir. Numa corretora sem juro (DEGIRO), esse dinheiro gera 0€. Numa que te pague, por exemplo, 3% TANB (taxa anual nominal bruta, antes de imposto) durante o ano inteiro, gera 300€ brutos — descontando os 28% de IRS sobre os juros, ≈216€ líquidos. Se em vez disso o investisses de forma faseada, em parcelas iguais ao longo dos 12 meses (ver investir tudo de uma vez ou aos poucos), o saldo médio parado seria cerca de metade, ≈5.000€, e o juro líquido rondaria os 108€. Mesmo assim, esta diferença pode cobrir, em muitas corretoras, as comissões de compra que venhas a pagar depois. A conclusão prática: se vais manter dinheiro parado por semanas ou meses antes de investir, o juro sobre saldo pode pesar mais na tua decisão de corretora do que a comissão por operação.

um detalhe fiscal que muita gente ignora

A regra é esta: quando os juros são pagos por, ou através de, uma entidade com sede, direção efetiva ou estabelecimento estável em Portugal a que deva imputar-se o pagamento, há retenção na fonte de 28% (a retenção é o desconto feito na origem e entregue à Autoridade Tributária) — é a taxa liberatória do artigo 71.º, n.º 1, alínea a), do Código do IRS, e a retenção é, em regra, definitiva. A Trade Republic, por exemplo, indica aplicá-la automaticamente a quem tem IBAN português. Quando não há retenção cá, os mesmos juros são tributados à mesma taxa de 28%, mas és tu que os declaras, no Anexo J do IRS (o anexo para rendimentos obtidos no estrangeiro) — não assumas que "se não vi retenção, não há imposto a pagar". Consulta o guia de declarar investimentos no IRS para perceberes melhor esta obrigação, e o de englobar ou ficar pela taxa liberatória para veres se compensa englobar este rendimento (juntá-lo aos outros rendimentos do IRS, em vez de ficar pelos 28%) no teu caso.

antes de te guiares por um simulador de custos

No Portal do Investidor, a CMVM disponibiliza simuladores de custos para os intermediários financeiros registados junto dela — vale a pena usá-los para as instituições que lá constam. O de ações calcula o custo de um ano de guarda de títulos, de corretagem e de pagamento de dividendos, já com os impostos de um residente no continente incluídos (sem os separar), e parte do princípio de que o valor da carteira não muda durante esse ano. Mas várias das plataformas deste guia abrem a conta a partir de outro país da União Europeia: a DEGIRO através de um banco alemão com sucursal holandesa, a Trading 212 EU GmbH e a Trade Republic Bank GmbH a partir da Alemanha, a Interactive Brokers a partir da Irlanda. Em outubro de 2026, para ordens dadas pela internet em bolsas europeias, a lista do simulador de ações tinha 22 intermediários, entre eles o Banco BiG, o ActivoBank e a sucursal portuguesa da XTB (13 nas bolsas dos EUA); nenhuma das outras plataformas deste guia lá constava, em nenhum mercado. Confirma se a tua consta da lista do simulador antes de te guiares por ele; se não constar, a tua fonte é o preçário publicado pela própria plataforma.

Sistemas de indemnização — a proteção varia bastante

Já vimos isto em detalhe no guia do ETF do zero, mas o resumo também cabe aqui: a proteção em caso de falência (não de perdas de mercado — isso nenhum sistema cobre) depende do país onde a corretora está legalmente sedeada, não de onde tu vives nem de onde a marca "parece" operar:

Sistemas de indemnização a investidores, por país de sede legal — setembro de 2026
País / sistemaCoberturaExemplo de corretora abrangida
Portugal — SII (Sistema de Indemnização aos Investidores)Até 25.000€ por investidor e por intermediário financeiro participante, independentemente do número de contasIntermediários financeiros autorizados em Portugal, como o Banco BiG e o ActivoBank
Irlanda — ICS (Investor Compensation Scheme)90% do que perdeste, com um máximo de 20.000€ por investidorInteractive Brokers Ireland Limited
Alemanha — EdW (empresas de investimento)90% do que a corretora te deve de operações com títulos, no máximo 20.000€ por investidorTrading 212 EU GmbH (Alemanha, supervisionada pela BaFin, o supervisor financeiro alemão), a entidade em que fica uma conta nova aberta por quem vive em Portugal — confirma na aplicação (toca em ☰ e desce até ao fundo do ecrã) sob que entidade está a tua conta, porque pode estar antes na Trading 212 Markets Ltd., cipriota, com os mesmos 90% até 20.000€
Alemanha — EdB (garantia de depósitos dos bancos privados)O dinheiro em conta está coberto até 100.000€ por pessoa e por banco, somando todas as contas que lá tenhas. Os títulos não entram neste teto: continuam a ser teus e podem passar para outra conta de títulos; se o banco não cumprir o que te deve de operações com títulos, entra a indemnização a investidores do mesmo sistema, que cobre 90% desse valor, no máximo 20.000€ por investidorDEGIRO (conta caixa no flatexDEGIRO Bank); Trade Republic Bank GmbH, quanto aos títulos (o dinheiro fica em bancos parceiros: ver a seguir à tabela)
Chipre — fundo de compensação a investidores (ICF)O menor de dois valores: 90% do total que a corretora te deve e está coberto, ou 20.000€eToro (Europe) Ltd, autorizada pela CySEC, o supervisor financeiro cipriota, sob a licença 109/10; Freedom Finance Europe Ltd, a entidade da Freedom24, autorizada pela CySEC sob a licença 275/15. Noutras plataformas que operam a partir do Chipre, confirma na página de regulação de cada uma qual é a entidade legal que te abre a conta
Reino Unido — FSCS (Financial Services Compensation Scheme)Até 85.000 libras por pessoa e por entidade, nos investimentos (o teto dos depósitos bancários subiu para 120.000 libras a 1 de dezembro de 2025, mas o de investimentos manteve-se)Entidades autorizadas pela FCA, o supervisor financeiro britânico
Polónia — KDPW100% dos primeiros 3.000€ e 90% do que estiver acima, contando só até 22.000€ — no máximo, 20.100€ por investidorXTB S.A.

Repara em três detalhes que se perdem facilmente numa leitura rápida. Primeiro: nenhuma das proteções de títulos desta tabela — a irlandesa, a cipriota, a polaca e as duas alemãs — cobre 100% do valor até ao teto; todas cobrem só uma percentagem da perda (a polaca paga 100% apenas nos primeiros 3.000€), o que na prática pode significar receberes menos do que o teto nominal. Segundo: só o teto de depósitos bancários britânicos subiu (para 120.000 libras); o teto de proteção de investimentos, que é o que aqui interessa, manteve-se em 85.000 libras — se leste sobre a subida dos depósitos, não presumas que o número dos investimentos também mudou. Terceiro, e é o que mais engana: quando a entidade que te abre a conta é um banco e guarda ela própria o teu dinheiro (é o caso da DEGIRO), o dinheiro em conta entra na garantia de depósitos, até 100.000€ — mas só o dinheiro. Os títulos seguem sempre o sistema de indemnização a investidores, com tetos muito mais baixos, sejas cliente de um banco ou de uma empresa de investimento. Não assumas que todas as corretoras europeias têm exatamente a mesma proteção só por operarem "na Europa" — confirma o país de sede legal da entidade concreta que abre a tua conta (não da marca comercial), normalmente identificável nos termos e condições ou na página de regulação do site.

Há ainda uma armadilha frequente: uma sucursal em Portugal de uma corretora autorizada noutro país da União Europeia fica, em regra, coberta pelo sistema do país da sede, e não pelo SII português. Os sistemas reconhecidos num Estado-membro cobrem também os investidores das sucursais que as suas empresas de investimento abram noutros Estados-membros (Diretiva 97/9/CE, art. 7.º, n.º 1); a lei portuguesa permite a essas sucursais aderir ao SII como complemento, quando a cobertura do país de origem é inferior (Decreto-Lei n.º 222/99, art. 5.º, n.º 1). É por isso que a XTB, com sucursal cá, tem proteção polaca, e a Trade Republic, com sucursal registada no Banco de Portugal, tem proteção alemã. E, nas plataformas que espalham o dinheiro por vários bancos, o teto conta banco a banco: a Trade Republic indica distribuir os depósitos dos clientes por bancos parceiros — Citibank Europe, Crédit Agricole CIB, Deutsche Bank, HSBC Continental Europe, J.P. Morgan, Natixis CIB e SEB AB —, cada um protegido até 100.000€, e aplicar os saldos maiores em fundos do mercado monetário (a que chama fundos de liquidez), a que não se aplica nenhuma garantia de depósitos (aí o que te protege é ficarem guardados à parte, separados do património da corretora, não uma garantia). A Trading 212 indica que o dinheiro não investido fica em bancos parceiros alemães, com garantia até 100.000€ por pessoa e por banco parceiro, além dos 90% até 20.000€ do EdW; no artigo sobre o juro, diz que o pode manter em bancos ou em fundos do mercado monetário, e que o dinheiro aplicado nesses fundos é tratado como investimento, e não como dinheiro depositado num banco. Já na Revolut, o serviço de investimento é prestado pela Revolut Securities Europe UAB, uma empresa de investimento lituana autorizada pelo Banco da Lituânia, e não pelo banco onde tens a conta à ordem; segundo a Revolut, o dinheiro e os títulos das contas de investimento estão protegidos até 22.000€ (outubro de 2026) pelo sistema lituano de indemnização a investidores, que paga o que a empresa não conseguir devolver até esse teto, se essa empresa for liquidada e falhar a proteção dos teus ativos.

Transferência de saída — o custo de mudares de ideias mais tarde

Se um dia quiseres mudar de corretora, o custo (ou ausência de custo) de transferir a tua carteira existente é relevante. A Trading 212 não cobra taxa por transferências de carteira, à entrada nem à saída, e indica concluir a maioria das transferências em cerca de 21 dias corridos nas contas Invest da entidade alemã e da britânica (30 dias nas contas da Trading 212 Markets Ltd., a cipriota); tem, porém, um limite que convém conheceres antes de contares com isto: só se transferem ações inteiras. Se tiveres frações — e as frações são justamente um dos argumentos de venda da plataforma — tens de as vender e levar o dinheiro, o que pode realizar uma mais-valia tributável (um lucro sujeito a imposto) num momento que não escolheste. Do outro lado, sair paga-se — e está tudo escrito no preçário: a DEGIRO cobra 20€ por posição mais custos externos para transferir a carteira para fora (a entrada é grátis), o que numa carteira de cinco ETF são 100€; a XTB cobra 25€ por ISIN — o código internacional que identifica cada título, e um ETF é um ISIN — na generalidade dos mercados, e 0,10% do valor dos títulos com mínimo de 100€ nos títulos cotados em Espanha; o ActivoBank cobra 0,60% com mínimo de 48,50€ por ISIN, a que acresce IVA (o preçário não indica sobre que valor incide a percentagem); a Revolut cobra 35 dólares por cada posição transferida para outra plataforma (outubro de 2026). Antes de investires um valor significativo numa corretora, percebe também quanto custaria sair dela, não só entrar.

Banco tradicional ou corretora especializada — o conflito de interesse que raramente se explica

Se já tens conta num banco tradicional português, é natural pensares em investir através dele, por comodidade — tudo no mesmo sítio, sem abrir conta nova nem transferir dinheiro para fora. Mas há um mecanismo pouco falado que deves perceber antes de decidires: quando um banco te vende um fundo de investimento, um PPR, ou um seguro de capitalização, o banco recebe tipicamente uma parte da comissão de gestão desse produto, de forma contínua, enquanto o mantiveres — a chamada retrocessão de comissões. Nos fundos, esta prática é permitida na venda e na consultoria não independente, desde que o pagamento se destine a melhorar a qualidade do serviço prestado ao cliente e não prejudique o dever de agir no seu melhor interesse, e a lei obriga a divulgá-la ao cliente — a existência, a natureza e o montante do pagamento, antes de o serviço ser prestado (Diretiva 2014/65/UE, a DMIF II, art. 24.º, n.º 9). Mas há dois casos em que é proibida: na gestão de carteiras (quando entregas ao banco a decisão de investir por ti) e na consultoria para investimento prestada em base independente, em que o intermediário não pode aceitar nem reter pagamentos de terceiros (art. 24.º, n.os 7, alínea b), e 8).

onde ler a retrocessão, num documento a sério

Os documentos de custos e encargos que os bancos publicam ao abrigo da DMIF II (a Diretiva dos Mercados de Instrumentos Financeiros, a lei europeia que regula corretoras e bancos) têm de divulgar os incentivos recebidos de terceiros, mas nem todos lhes chamam o mesmo: nuns aparece uma linha própria, "compensações recebidas de terceiros", com percentagem e valor em euros; noutros aparece só em texto corrido, num capítulo de benefícios e incentivos. Num documento publicado pelo Banco BPI para um fundo da casa, o BPI America Class I EUR Hedged (ISIN LU0678329730), essa linha vale 0,70% ao ano num total de custos e encargos de 1,20% ao ano: cerca de 58% do que o cliente paga fica no distribuidor, o banco que o vende (documento elaborado a 20 de janeiro de 2021, com dados calculados a 1 de janeiro de 2020). No BiG, a informação está no capítulo "Benefícios e incentivos recebidos pelo banco" do documento de custos e encargos ex-ante (o que o banco te entrega antes de investires), que indica uma percentagem média de 45,52% da comissão de gestão dos fundos comercializados através do banco (valor referido a final de setembro de 2024). A proporção varia muito por banco, por produto e por ano: usa o número do documento do produto concreto que te estão a propor, em vez de assumires uma percentagem. E repara que a retrocessão incide sobre a comissão de gestão, que é só uma parte do TER — por isso não faças a conta sobre o TER inteiro. Se não encontrares a percentagem no documento, pede-a por escrito. Esta fatia é um incentivo estrutural para te venderem os produtos que mais lhes pagam a eles, não necessariamente os mais baratos ou mais adequados a ti.

Isto não significa que produtos vendidos por bancos sejam sempre maus, nem que devas evitá-los sempre — mas significa que o vendedor (o gestor de conta do banco) tem um incentivo financeiro direto que não está necessariamente alinhado com o teu interesse de pagares o menos possível em comissões. Os incentivos de terceiros também não são exclusivos dos bancos, e o que distingue os melhores intermediários é dizerem-no: o BiG, por exemplo, divulga no documento de custos e encargos que pode receber compensações do emitente na disponibilização de ETP da VanEck (produtos cotados em bolsa, semelhantes a um ETF), e que o montante dessa compensação é mostrado em cada ordem que transmites. É esse o padrão a exigir: a divulgação do incentivo, operação a operação.

Fracionamento de ações — uma funcionalidade que muda o que "consegues comprar"

Algumas corretoras (a Trading 212 é um exemplo comum) permitem comprares frações de uma ação, não a ação inteira. Isto é particularmente relevante para ações caras — se uma ação vale 800€ e só queres investir 100€, uma corretora sem fracionamento obriga-te a esperar juntar 800€ ou a não investires nessa empresa de todo; com fracionamento, investes os 100€ diretamente, ficando com 0,125 de uma ação. Nem todas as corretoras oferecem isto, e nem todos os ativos são elegíveis para fracionamento mesmo nas que oferecem — confirma se os ETF ou ações específicas que queres comprar são fracionáveis na corretora que escolheres. E se estiveres a considerar comprar ações individuais em vez de (ou além de) ETF, analisa bem o negócio da empresa antes de escolheres qual comprar.

Planos de investimento automático — poupas tempo, mas confirma os custos

Muitas corretoras oferecem hoje planos de investimento automático (auto-invest): defines um valor e uma periodicidade, e a corretora executa a compra sozinha, sem precisares de entrar na aplicação todos os meses. Isto reduz a fricção de investires com regularidade. No guia dos vieses que te custam dinheiro vimos o desconto hiperbólico — a tendência para dar demasiado peso ao presente e adiar o que compensa a longo prazo; automatizar a compra tira-te a decisão mensal do caminho. Mas confirma sempre se estes planos automáticos têm exatamente as mesmas condições de comissão das compras manuais: em várias plataformas são tabelas separadas no preçário, e o que vale numa ordem avulsa não vale necessariamente no plano automático. Procura o plano no preçário, não na página de apresentação.

Apoio ao cliente em português — um custo de tempo, não de dinheiro

A Trade Republic tem sucursal registada no Banco de Portugal e a XTB tem site em português: confirma no site de cada uma quais são os canais de apoio e em que língua atendem, porque isso pode fazer diferença real se tiveres um problema urgente com a conta. Corretoras sem presença local costumam ter apoio só em inglês (ou noutras línguas), por email ou chat, com tempos de resposta que podem ser mais longos. Isto não é um custo em euros, mas é um custo real em tempo e frustração se algo correr mal numa altura sensível — pesa este fator, sobretudo se não te sentires confortável a resolver problemas técnicos numa língua estrangeira.

Para que perfil serve cada uma

Se investes valores pequenos com regularidade, a comissão por ordem pesa muito: 12 ordens de 3€ ao longo de um ano sobre 2.400€ investidos custam 36€ só de comissão — 1,5% —, ou 38,50€ (1,6%) se lhes somares a conectividade anual da bolsa, como no exemplo acima; numa corretora sem comissão por ordem, o custo é 0€. Se investes montantes maiores ou negoceias com alguma frequência, a Interactive Brokers tende a compensar sobretudo quando compras ativos cotados fora da zona euro, graças a um custo de câmbio muito baixo (0,002%, com mínimo de 2 USD por ordem) e ao efeito acumulado do câmbio visto acima; nas ordens grandes em euros, a comissão proporcional (0,05% no plano Tiered, com um teto de 29€ por ordem em Euronext Lisboa) pode sair mais cara do que uma tarifa fixa ou do que a comissão zero. Se valorizas simplicidade e presença em Portugal, a Trade Republic (com sucursal registada no Banco de Portugal) ou a XTB (com sucursal cá e site em português) facilitam a gestão do dia a dia; confirma em que língua e por que canais atende o apoio de cada uma. Se queres acesso a muitos mercados, compara as bolsas que o preçário de cada uma lista (a DEGIRO e a Interactive Brokers, por exemplo, listam dezenas) e o custo por ordem em cada uma. E se tens uma quantia grande para investir de uma vez, lê também investir tudo de uma vez ou aos poucos antes de escolheres a corretora — pode influenciar quantas operações vais mesmo fazer.

O método para não te enganares: simula o teu próprio caso, não o caso médio

As tabelas de comparação — incluindo as deste guia — mostram o caso médio ou o exemplo mais comum, não necessariamente o teu. Antes de decidires, faz este exercício de dez minutos: escreve o valor que pretendes investir por mês (ou de uma vez), a moeda dos ativos que vais comprar (euros ou não), a frequência de operações que realisticamente vais fazer, e se vais deixar dinheiro parado à espera de entrada faseada. Aplica esses números às tabelas de comissão, câmbio e juro de cada corretora candidata, multiplicando pelo período real que planeias manter a conta (1 ano é insuficiente — usa 5 ou 10, porque custódia, inatividade e câmbio acumulados só se revelam a prazos mais longos). Só depois de teres um número concreto em euros, por corretora, é que a comparação deixa de ser uma opinião e passa a ser um cálculo.

confirma sempre o juro atual antes de decidires com base nele

As taxas de juro sobre saldo não investido são variáveis e ajustadas com regularidade — a XTB atualiza as dela todas as semanas, e a Trade Republic indexa à taxa de depósito do Banco Central Europeu o que paga acima de 50.000€. Não são uma promessa fixa para sempre. Antes de escolheres uma corretora só por causa do juro anunciado hoje, confirma na própria aplicação (a maioria mostra isto na secção de "juro" ou "cash management") se a taxa atual ainda corresponde ao que viste anunciado, porque estes números mudam com mais frequência do que as comissões.

Checklist antes de escolheres (ou mudares de) corretora

Próximos passos

Escolher corretora não é uma decisão que precises de acertar de forma perfeita à primeira — é reversível, ainda que com algum custo e trabalho de transferência. Prioriza nesta ordem: primeiro, confirma que a corretora está regulada num país da UE ou Reino Unido, com sistema de indemnização identificável (o ponto não negociável); depois, simula o teu caso concreto de comissões, câmbio e juro pelos próximos 5 a 10 anos; só no fim compares funcionalidades secundárias (apoio em português, fracionamento, planos automáticos). Se ainda não decidiste o que vais comprar através dela, o guia de ETF do zero, em português é o ponto de partida lógico antes deste; se já sabes que vais comprar ações individuais, pede o guia como analisar uma ação — o processo completo vai em PDF, por email, e é grátis.

Perguntas frequentes

A comissão zero é mesmo zero? Não. Uma corretora sem comissão por ordem pode cobrar por outros lados: spread de câmbio, taxas de inatividade, custódia ou juro nulo sobre o saldo. O custo real soma tudo isto.

Se a minha corretora falir, perco o dinheiro? Não necessariamente, mas a proteção depende do país de sede legal da corretora. Em Portugal o Sistema de Indemnização aos Investidores cobre até 25.000€ por investidor e por intermediário participante; noutros países os limites e as percentagens são diferentes.

Tenho de declarar no IRS os juros que a corretora me paga? Depende de haver retenção em Portugal. Se a corretora retiver os 28% cá (a Trade Republic, por exemplo, indica fazê-lo a quem tem IBAN português), a retenção é, em regra, definitiva, e esses juros só vão à declaração se optares por englobá-los. Se não houver retenção em Portugal, tens de declarar esses juros no Anexo J do IRS. A ausência de retenção não significa que não há imposto.

Compensa investir pelo banco onde já tenho conta? Convém perguntar como o banco ganha com o produto que te vende. Nos fundos, PPR (Plano Poupança Reforma) e seguros vendidos ao balcão, o banco pode receber parte da comissão de gestão de forma contínua, o que pode não estar alinhado com o teu interesse.

Posso mudar de corretora sem vender o que tenho? Em geral sim, através de uma transferência de carteira, mas o custo e o prazo variam. A Trading 212 não cobra transferências e indica concluir a maioria em cerca de 21 dias corridos nas contas Invest da entidade alemã e da britânica, e em 30 dias nas contas da entidade cipriota, embora só transfira ações inteiras; a DEGIRO cobra 20€ por posição mais custos externos para sair. Confirma sempre no preçário da tua corretora.

O que é o Imposto do Selo sobre comissões? É um imposto de 4% sobre o valor das comissões por serviços financeiros em operações realizadas por bancos e outras instituições financeiras, ou com a sua intermediação (verba 17.3.4 da Tabela Geral do Imposto do Selo). O Código do Imposto do Selo abrange também, em certas condições, comissões cobradas por instituições de crédito ou sociedades financeiras sediadas no estrangeiro. Quem apura e entrega o imposto ao Estado é, em regra, a entidade credora da comissão, e a lei prevê outros responsáveis quando o credor está sediado no estrangeiro. Numa corretora estrangeira, confirma no preçário se o cobra e se o valor mostrado já o inclui.

Fontes e referências

Consultadas em setembro e outubro de 2026. As ligações apontam para a versão em vigor à data; confirma sempre a versão mais recente antes de decidires.

Legislação

Organismos oficiais

Preçários e condições das plataformas

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Nota: este conteúdo é informativo e educacional, não constitui recomendação de nenhuma corretora em concreto. Comissões, taxas de juro e condições mudam com frequência — confirma sempre os valores atuais no site oficial de cada corretora antes de abrires conta.