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Declarar criptomoedas no IRS

33 min de leitura · atualizado outubro de 2026

resumo em 60 segundos

Se guardares uma criptomoeda como a bitcoin (não um token que funcione como ação ou obrigação) 365 dias ou mais, o ganho fica excluído de imposto, e a perda também. Mas declara-o na mesma, no Anexo G1 do IRS. Com menos de 365 dias, o ganho do ano paga 28%, descontadas as perdas também com menos de 365 dias. Trocar uma cripto por outra (BTC → ETH) não paga imposto nesse momento; guarda o histórico, porque a moeda recebida pode herdar o preço de compra da entregue. Estas duas vantagens caem se tu ou quem te compra residirem fora da União Europeia, do Espaço Económico Europeu e de países com convenção ou acordo fiscal com Portugal. Recompensas de staking (por bloquear cripto numa rede) pagas em cripto, em regra, só pagam imposto na venda; pagas em euros, pagam 28% logo. Guarda a data e o preço de cada compra, por plataforma (em cada uma, as primeiras moedas compradas contam como as primeiras vendidas). A partir de 2027, as plataformas abrangidas passam a comunicar à Autoridade Tributária as tuas operações de 2026.

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Portugal criou um regime específico para determinadas operações com criptoativos — mas este é um daqueles temas em que uma frase mal explicada, repetida em fóruns e redes sociais, pode custar-te muito dinheiro ou uma coima. Separa bem cada caso: compra, venda, troca, staking, mineração, transferências entre carteiras próprias, NFT, e a saída de Portugal.

Nem todo o criptoativo é fiscalmente igual

A lei fiscal distingue, antes de mais, entre criptoativos que constituem valores mobiliários (títulos como as ações e as obrigações) e os que não constituem — e é essa distinção, não o nome da moeda, que decide se a regra dos 365 dias sequer se aplica ao teu caso. Bitcoin e Ethereum, na generalidade dos casos, não são valores mobiliários, e caem no regime específico de criptoativos do artigo 10.º do Código do IRS. Já um security token — um token que dá ao detentor direitos equivalentes aos de um acionista ou obrigacionista, como uma parte dos lucros ou um juro contratado — pode ser juridicamente equiparado a um valor mobiliário e seguir o regime das ações: 28% sobre a mais-valia, sem a exclusão dos 365 dias. Passa, em vez disso, a seguir as regras próprias dos valores mobiliários. Se for admitido à negociação em bolsa, parte do ganho fica de fora do imposto consoante o tempo que o tiveres: são excluídos de tributação 10% do rendimento se detido por um período superior a 2 anos e inferior a 5, 20% se igual ou superior a 5 e inferior a 8, e 30% se igual ou superior a 8 (artigo 43.º, n.º 5, do Código do IRS). E, se o venderes antes de 365 dias, és obrigado a englobar — somar esse ganho ao resto dos teus rendimentos, em vez de pagar os 28% à parte — quando o rendimento coletável (o rendimento sobre o qual o teu IRS é calculado, depois das deduções específicas), incluindo esse saldo, é igual ou superior ao valor do último escalão de IRS (86.634€ nos rendimentos de 2026, declarados em 2027), como explicamos em declarar investimentos no IRS. Bitcoin e um security token não pertencem, por isso, à mesma caixa fiscal, mesmo que no dia a dia lhes chames "criptomoedas" aos dois.

Fonte: artigo 10.º, alínea k) do n.º 1, do Código do IRS (Portal das Finanças), que restringe o regime específico à "alienação onerosa de criptoativos que não constituam valores mobiliários".

A regra dos 365 dias

Para criptoativos que não constituam valores mobiliários, o Código do IRS exclui de tributação os ganhos e as perdas de operações de alienação onerosa — vender, ou trocar por outra coisa com valor, que é como a lei fiscal trata qualquer saída do ativo a troco de algo — quando os criptoativos tenham sido detidos durante 365 dias ou mais (artigo 10.º, n.º 22 — antigo n.º 19 —, na numeração em vigor desde o Decreto-Lei n.º 97/2026, de 20 de maio). Se o período for inferior, o saldo é tributado à taxa especial de 28% (artigo 72.º, n.º 1, alínea c), do Código do IRS — uma taxa fixa, fora dos escalões, que apuras tu na declaração), com opção pelo englobamento quando fizer sentido no teu escalão de IRS (n.º 13 do mesmo artigo) — a mesma decisão que explicamos em detalhe, com exemplos numéricos, no guia englobar ou ficar pela taxa liberatória. Se tens residência fiscal numa região autónoma, há regras próprias (em vigor em 2026). Nos Açores, a lei regional reduz em 30% as taxas nacionais do IRS, incluindo as dos escalões. A Autoridade Tributária indica 19,6%, em vez de 28%, para as mais-valias de ações, obrigações, fundos e warrants, que o Código do IRS tributa na mesma alínea dos criptoativos, mas não o diz expressamente para criptoativos: confirma no e-balcão (o atendimento por escrito do Portal das Finanças) antes de submeteres a declaração. Na Madeira, a lei regional reduz as taxas dos escalões (as que contam se englobares) e as taxas liberatórias, como a dos juros, mas mantém esta taxa especial nos 28%.

o que se costuma pensar

"Se a venda está isenta, não tenho de declarar nada — imposto zero, trabalho zero."

o que é realmente verdade

Exclusão de tributação e dispensa de declaração são coisas diferentes. A venda de criptoativos detidos há 365 dias ou mais vai ao Anexo G1, quadro 7 — o Anexo G1 chama-se, precisamente, "mais-valias não tributadas". O imposto é zero; a declaração é obrigatória na mesma. E é essa declaração que constrói a prova da data e do valor de aquisição de que vais precisar na venda seguinte.

Comprei antes de 2023 — o relógio já estava a contar

O tempo em que detiveste criptoativos antes de o regime existir conta para os 365 dias. A regra está no artigo 220.º da Lei n.º 24-D/2022, e é curta:

"Para efeitos do disposto no n.º 18 do artigo 10.º do Código do IRS, o período de detenção dos criptoativos adquiridos antes da data da entrada em vigor da presente lei é considerado para efeitos de contagem do período de detenção referido naquele artigo." — artigo 220.º da Lei n.º 24-D/2022, de 30 de dezembro. A remissão para o "n.º 18" é um lapso do próprio Orçamento do Estado para 2023: a regra de contagem ficou no n.º 19, e é assim que a Autoridade Tributária a lê no folheto sobre criptoativos, que remete para o "n.º 19.º do artigo 10.º do Código do IRS (artigo 220.º da Lei n.º 24-D/2022)". Depois do Decreto-Lei n.º 97/2026, de 20 de maio, essa mesma regra passou a ser o n.º 22 do artigo 10.º — os folhetos e formulários oficiais ainda usam a numeração anterior.

Circula por aí uma versão mais forte desta regra — "tudo o que foi comprado antes de 2023 está automaticamente isento". Não é o que a lei diz, e a diferença já custou dinheiro a quem vendeu cedo. A lei não concede isenção nenhuma por o ativo ser antigo: limita-se a mandar contar o tempo anterior. Quem comprou a 20 de dezembro de 2022 e vendeu a 15 de fevereiro de 2023 tinha 57 dias de detenção, não uma isenção — e essa venda era tributável a 28%.

Hoje, em setembro de 2026, o resultado prático é o mesmo da versão simplificada, mas por aritmética e não por privilégio: a compra mais recente possível "antes de 2023" é 31 de dezembro de 2022, e essa completou 365 dias no fim de 31 de dezembro de 2023. Qualquer posição comprada antes de 2023 e ainda em carteira passou a fronteira há anos. O que continua a aplicar-se é tudo o resto: a venda vai ao Anexo G1, quadro 7, e a exclusão deixa de valer quando uma das partes da operação — tu ou a contraparte a quem vendes — não for residente, para efeitos fiscais, em Portugal, noutro Estado-Membro da União Europeia ou do Espaço Económico Europeu, nem noutro Estado ou jurisdição com o qual esteja em vigor convenção para evitar a dupla tributação ou acordo de troca de informações para fins fiscais.

o ónus da prova não prescreve com o tempo

Uma compra de 2019 numa exchange que já fechou é, fiscalmente, a situação mais frágil que existe: exclusão de tributação evidente, prova quase impossível. Se a Autoridade Tributária pedir o valor de aquisição e não conseguires demonstrá-lo, não é a tua memória que vale. Antes de venderes uma posição antiga, reúne o que ainda existir — extratos, emails de confirmação de ordem, comprovativos de transferência bancária para a plataforma, o tx hash (o identificador único de cada transação na blockchain, que serve para a localizar e confirmar) — e guarda tudo num sítio que não dependa dessa plataforma continuar viva.

Vender antes ou depois dos 365 dias — a conta que decide

A pergunta tem uma resposta numa linha: esperar compensa enquanto a queda possível do preço até completares 365 dias for menor do que o imposto que evitas. E esse limite calcula-se com uma multiplicação — 28% × (mais-valia latente ÷ valor atual da posição) — que te dá, em percentagem, quanto o preço pode cair sem que esperar te tenha saído caro.

Imagina que compraste 0,2 bitcoin a 3 de março de 2026, por 20.000€. A 10 de dezembro de 2026 essa posição vale 30.000€: uma mais-valia latente (o ganho existe no papel, mas ainda não foi realizado, porque ainda não vendeste) de 10.000€. Estás no dia 282 de detenção. O 365.º dia é 3 de março de 2027, e o prazo só fica cumprido no fim desse dia: a primeira venda com 365 dias completos é a 4 de março de 2027, daqui a 84 dias.

Porquê o dia seguinte, e não o próprio 3 de março? Porque a lei fiscal não diz como se contam estes dias, e a regra geral do Código Civil para os prazos fixados por lei — aplicável quando não há disposição especial (artigo 296.º) — manda não incluir na contagem o dia em que ocorre o evento que a inicia (artigo 279.º, alínea b)). O dia da compra não conta: o dia 1 é 4 de março de 2026 e o dia 365 é 3 de março de 2027. Na fronteira, vender um dia depois custa-te apenas mais um dia de exposição ao preço; vender um dia antes pode custar o imposto todo.

A mesma posição, duas datas de venda — 0,2 BTC comprados por 20.000€ a 3 de março de 2026
IndicadorVender a 10/12/2026 (282 dias)Vender a 04/03/2027 (365 dias completos)
Valor de venda assumido30.000€30.000€
Mais-valia10.000€10.000€
RegimeTributada — Anexo G, quadro 18AExcluída de tributação — Anexo G1, quadro 7
Imposto (taxa especial de 28%)2.800€0€
Fica no bolso27.200€30.000€
DeclaraçãoObrigatóriaObrigatória na mesma
o número que decide — a margem de queda tolerável

Vender já deixa 27.200€ no bolso. Esperar deixa o valor de venda inteiro, seja ele qual for. Os dois cenários empatam quando a posição cair de 30.000€ para 27.200€ — ou seja, uma queda de 9,33% nos 84 dias que faltam. Se cair menos do que isso (o preço fica acima de 27.200€), esperar compensou. Se cair mais (o preço fica abaixo de 27.200€), tinha compensado vender já. O cálculo é sempre o mesmo: 28% × (10.000€ ÷ 30.000€) = 9,33%. Repara no que a fórmula mostra sem ser preciso explicar: quanto menor a mais-valia face ao valor da posição, menor a margem. Uma posição comprada por 10.000€ que hoje vale 11.000€ tem 1.000€ de ganho e 280€ de imposto a evitar — margem de queda tolerável de 28% × (1.000€ ÷ 11.000€) = 2,55%. Adiar uma venda meses para proteger 2,55% de margem num ativo volátil é uma decisão muito menos óbvia do que proteger 9,33%.

o outro lado da exclusão: as perdas também desaparecem

O artigo 10.º do Código do IRS exclui "os ganhos obtidos, bem como as perdas incorridas" em criptoativos detidos há 365 dias ou mais. As duas metades da frase contam. Imagina que no mesmo ano vendes uma posição com 4.000€ de mais-valia (detida 200 dias) e outra com 3.000€ de menos-valia. Se a segunda também tinha menos de 365 dias, o imposto incide sobre o saldo de 1.000€ — 280€. Se tinha 400 dias, essa perda está excluída e não entra no saldo: pagas 28% sobre os 4.000€ inteiros, 1.120€. Passar a fronteira dos 365 dias com uma posição em perda custou-te, neste exemplo, 840€ — porque deixaste de poder usar essa perda para abater ao ganho. Há ainda uma perda que não conta mesmo dentro dos 365 dias: o artigo 43.º, n.º 7, do Código do IRS manda não contar as perdas apuradas quando a contraparte da operação está sujeita a um regime fiscal dos que o artigo 63.º-D da Lei Geral Tributária identifica como claramente mais favorável (os chamados paraísos fiscais).

Fonte: artigo 10.º, n.º 22, do Código do IRS — "São excluídos os ganhos obtidos, bem como as perdas incorridas, resultantes das operações previstas na alínea k) do n.º 1 relativas a criptoativos detidos por um período igual ou superior a 365 dias" — e artigo 43.º do mesmo código (o imposto incide sobre o saldo anual entre mais-valias e menos-valias, não sobre cada venda; e o n.º 7 para as perdas que não relevam). Nota de leitura: a norma que corta a exclusão dos 365 dias e a não tributação da troca quando uma das partes está fora daquele universo de jurisdições é o n.º 24, mas o seu texto continua a dizer "o disposto nos n.os 19 e 20 não se aplica…" — a remissão interna que o Decreto-Lei n.º 97/2026 não acompanhou ao renumerar o artigo. Os números visados são hoje o n.º 22 (exclusão dos 365 dias) e o n.º 23 (troca entre criptoativos).

Nada disto diz o que o bitcoin vai fazer nos próximos 84 dias, e essa é a parte honesta da resposta: a fórmula transforma uma decisão fiscal numa pergunta de mercado ("acho provável uma queda superior a 9,33% neste prazo?"), mas não responde à pergunta de mercado. Há ainda duas coisas que a conta não capta — uma posição que suba nesses 84 dias torna a espera duplamente boa, e uma alteração legislativa pelo meio muda as regras do jogo a meio do prazo.

Onde declarar — a matriz completa Anexo G, G1, J e B

O anexo certo depende de três coisas ao mesmo tempo: quanto tempo detiveste o ativo, onde são residentes as partes da operação, e se a atividade é ocasional ou profissional. Não existe "o anexo das criptomoedas" — existe um quadro diferente para cada combinação destas três.

Onde declarar cada operação com criptoativos — quadros do Modelo 3 do IRS
SituaçãoAnexo e quadroTratamento
Venda por euros com menos de 365 dias de detenção, rendimento considerado obtido em Portugal, com ambas as partes em Portugal, na UE, no EEE ou em Estado com convenção ou acordo de troca de informaçãoAnexo G, quadro 18A28% sobre o saldo anual; opção pelo englobamento no campo 01 do quadro 15 do mesmo anexo
Venda com 365 dias ou mais de detenção, mesmo universo de contrapartesAnexo G1, quadro 7Excluída de tributação — declaração obrigatória na mesma
Operação em que uma das partes — tu ou a contraparte — não é residente em Portugal, na UE, no EEE, nem noutro Estado ou jurisdição com convenção ou acordo de troca de informaçãoAnexo G, quadro 18B28%, independentemente do tempo de detenção — a exclusão dos 365 dias não se aplica
Mais-valia com menos de 365 dias, rendimento considerado obtido no estrangeiro (o critério é a fonte do rendimento, não a sede da contraparte — as instruções do Anexo J pedem, numa coluna, o "País da Fonte" do rendimento e, noutra, o país de residência da contraparte; em caso de dúvida sobre qual dos dois anexos usar, pergunta por escrito à Autoridade Tributária, pelo e-balcão, ou confirma com um contabilista certificado antes de submeteres)Anexo J, quadro 9.4A28%; a opção pelo englobamento destes rendimentos assinala-se no quadro 9.4B
Remuneração de staking paga em criptoativos, com ambas as partes em Portugal, na UE, no EEE ou em Estado com convenção ou acordo de troca de informaçãoNada no recebimento; na venda, Anexo G quadro 18A ou Anexo G1 quadro 7Sem imposto no recebimento (artigo 5.º, n.º 11); na venda, mais-valia sobre os criptoativos recebidos
Remuneração de staking paga em criptoativos, com uma das partes fora da UE/EEE e sem convenção ou acordo de troca de informaçãoDuas leituras: pelo folheto da Autoridade Tributária, Anexo E (ou Anexo J, se quem paga está no estrangeiro) já no ano do recebimento; pela letra do artigo 5.º, n.º 11, nada no recebimento e, na venda, Anexo G, quadro 18BO artigo 5.º, n.º 11, não tem condição de território; o folheto lê o caso de outra maneira. Enquanto não perguntares pelo e-balcão, a leitura do folheto é a que te deixa menos exposto — ver a secção sobre staking
Remuneração de staking paga em euros, ou noutra espécie que não seja criptoativos, por entidade sediada em PortugalAnexo E28% no recebimento, Categoria E, sem exclusão por tempo de posse
Remuneração de staking paga em euros por entidade sediada no estrangeiroAnexo J28% no recebimento, Categoria E — o Anexo E cobre os rendimentos obtidos em território português
Operações profissionais com criptoativos, exceto a mineração (Categoria B, regime simplificado)Anexo B, quadro 4A, campo 419 — "operações relacionadas com criptoativos, com exceção da sua mineração"Coeficiente de 0,15 — 15% do rendimento bruto é tributável (artigo 31.º, n.º 1, alínea a))
Mineração de criptoativos, como atividade (Categoria B, regime simplificado)Anexo B, quadro 4A, campo 422 — "mineração de criptoativos"Coeficiente de 0,95 — 95% do rendimento bruto é tributável (artigo 31.º, n.º 1, alínea d))
Validação de transações através de mecanismos de consenso, como atividade (Categoria B, regime simplificado)Anexo B, quadro 4A, campo 419É atividade comercial pela alínea o) do n.º 1 do artigo 4.º, mas o coeficiente de 0,95 da alínea d) está escrito só para a mineração; o campo 419 cobre as restantes operações com criptoativos, com coeficiente de 0,15. Se corres o teu próprio validador, confirma o enquadramento antes de declarar
Conta de depósitos ou de títulos em instituição financeira não residente (pode ser o caso da conta em euros com IBAN estrangeiro que algumas plataformas te dão)Anexo J, quadro 11Só identificação (IBAN e BIC) — não gera imposto, e é devida mesmo sem rendimento nenhum no ano
Perda da qualidade de residente em Portugal com posições em carteiraAnexo G quadro 18A (ou Anexo J quadro 9.4A, se o rendimento for considerado obtido no estrangeiro) ou Anexo G1 quadro 7, consoante o tempo de detençãoEquiparada a alienação onerosa — pode haver imposto sem venda nenhuma; o ganho é a diferença positiva entre o valor de mercado à data da perda de residência e o valor de aquisição (artigo 43.º, n.º 12)
Os quadros de criptoativos do Modelo 3 estão descritos no Ofício Circulado n.º 20269/2024 da Autoridade Tributária: o quadro 18A do Anexo G serve "para permitir o apuramento das mais-valias relativas à alienação onerosa de criptoativos detidos por um período inferior a 365 dias ou para as situações em que o sujeito passivo perdeu a qualidade de residente em território português"; o quadro 18B, "quando uma das partes for não residente, mas residente fora da U.E. ou do EEE e não existir ADT aplicável" (ADT é a sigla de acordo de dupla tributação); e o quadro 7 do Anexo G1 cobre a alienação de criptoativos detidos há 365 dias ou mais e a perda da qualidade de residente. O desdobramento em quadros 9.4A (apuramento) e 9.4B ("Opção de englobamento para os incrementos patrimoniais") consta das instruções de preenchimento do Anexo J, no modelo em vigor a partir de janeiro de 2026, e os campos 419 e 422 das instruções do Anexo B. A obrigação de identificar contas abertas em instituição financeira não residente consta do artigo 63.º-A, n.ºs 8 e 9, da Lei Geral Tributária.
os números dos quadros mudam de ano para ano

A numeração acima é a dos quadros criados para os criptoativos no Modelo 3 do IRS. Os anexos do IRS são reaprovados quase todos os anos por portaria, e um quadro pode mudar de número ou ser desdobrado sem aviso. Antes de preencheres, confirma o número do quadro no formulário do próprio ano — o título do quadro ("criptoativos que não constituam valores mobiliários detidos por período superior ou igual a 365 dias", por exemplo) é uma âncora mais fiável do que o número.

exemplo

Compraste 1 BTC por 40.000€ e vendeste por 70.000€, depois de cumprido o prazo de detenção de 365 dias. A mais-valia de 30.000€ pode ficar abrangida pela exclusão — mas a obrigação de declarar no Anexo G1 mantém-se na mesma.

Troca entre criptomoedas — o que muda, e o que não muda

Quando a contraprestação de uma alienação é outro criptoativo (por exemplo, trocar Bitcoin por Ethereum) e a posição entregue tinha menos de 365 dias, o artigo 10.º, n.º 23, do Código do IRS afasta a tributação nesse momento e atribui ao criptoativo recebido o valor de aquisição do que foi entregue. Repara na condição: a norma começa por dizer "quando não se aplique o disposto no número anterior" — ou seja, esta regra só entra quando a exclusão dos 365 dias não entra. Se entregaste uma posição que já tinha 365 dias ou mais, o ganho fica excluído pelo n.º 22. O folheto da Autoridade Tributária não faz esta distinção; se trocaste uma posição antiga e pensas vender o ativo recebido dentro de um ano, pergunta pelo e-balcão qual o valor de aquisição a usar.

Isto não significa "não interessa, apago do histórico": interessa muito, porque a operação pode não gerar imposto naquele momento, mas o histórico de aquisição continua a ser necessário para calcular corretamente a mais-valia quando venderes o ativo recebido mais tarde. A nova unidade herda o valor de aquisição determinado pelas regras da troca anterior — se não guardares esse histórico, podes ficar sem forma de reconstruir a mais-valia real no futuro. O que a lei não diz é se o relógio dos 365 dias também se transporta: o n.º 23 fixa o valor de aquisição e nada estabelece sobre a data. Se estás perto da fronteira, confirma esse ponto antes de contares com a exclusão. Para um caso concreto, o de uma posição com 365 dias ou mais trocada por um stablecoin e vendida logo a seguir em euros, a Autoridade Tributária já deu uma resposta, que explicamos na secção seguinte.

Fonte: artigo 10.º, n.º 23, do Código do IRS (numeração em vigor desde o Decreto-Lei n.º 97/2026, de 20 de maio; anterior n.º 20) — "quando não se aplique o disposto no número anterior e a contraprestação das alienações previstas na alínea k) do n.º 1, incluindo as relativas a criptoativos recebidos nos termos do disposto no n.º 11 do artigo 5.º, assuma a forma de criptoativos, não há lugar a tributação, atribuindo-se aos criptoativos recebidos o valor de aquisição dos criptoativos entregues". A não tributação da troca cai, tal como a exclusão dos 365 dias, quando uma das partes da operação não é residente em Portugal, na União Europeia, no Espaço Económico Europeu, nem em Estado ou jurisdição com convenção ou acordo de troca de informação (n.º 24).

Stablecoins — parecem dinheiro, mas fiscalmente não são euros

Um stablecoin (como o USDT ou USDC) pode parecer, no dia a dia, equivalente a "dinheiro digital" — mas fiscalmente não deves assumir que é o mesmo que converter para euros. A definição legal de criptoativo é larga — "toda a representação digital de valor ou direitos que possa ser transferida ou armazenada eletronicamente recorrendo à tecnologia de registo distribuído ou outra semelhante" — e o folheto da Autoridade Tributária sobre criptoativos arruma os stablecoins entre os criptoativos negociados no mercado, ao lado das criptomoedas. A leitura mais segura é, por isso, tratar uma operação BTC → USDT como uma troca entre criptoativos (crypto-to-crypto), e não como uma venda por moeda oficial, como o euro ou o dólar — o que significa que segue as regras da troca explicadas acima, não a lógica de "vendi e recebi euros". É um erro comum tratar stablecoins como se já fossem euros só porque estão referenciados ao dólar ou ao euro — a análise deve seguir a natureza jurídica real do ativo, não a aparência de estabilidade de preço.

Fonte: artigo 10.º, n.º 20 (antigo n.º 17), do Código do IRS (definição de criptoativo) e folheto "Criptoativos — Conceito fiscal e tributação" da Autoridade Tributária, edição de dezembro de 2025.

A Autoridade Tributária já respondeu a um caso concreto com stablecoins. Fê-lo numa informação vinculativa: uma resposta oficial e escrita da AT à pergunta concreta de um contribuinte, que a vincula perante quem a pediu e que fica publicada no Portal das Finanças para todos verem. Não é lei, e não se aplica automaticamente ao teu caso: vale para os factos que quem perguntou descreveu. Caduca se a lei ou os factos mudarem e, em qualquer caso, quatro anos depois de emitida (artigo 68.º, n.º 15, da Lei Geral Tributária). Neste, uma residente em Portugal tinha um criptoativo há mais de 365 dias e, por não haver par direto com o euro, trocava-o por USDC e vendia os USDC por euros logo a seguir. A AT respondeu que o imposto só se conta "aquando do momento de conversão da stablecoin em moeda fiduciária" (moeda oficial, como o euro) e que essa mais-valia, "quando esta ocorra após a detenção do ativo original por um período igual ou superior a 365 dias, será excluída de tributação". Na prática, o prazo que contou foi o do criptoativo original, não o dos USDC. Repara nas condições: troca imediata, feita só para chegar aos euros, e a plataforma ou contraparte das duas operações residente na UE, no EEE ou em jurisdição com convenção ou acordo de troca de informação com Portugal. Se ficas em stablecoin algum tempo antes de vender, ou se a posição original tinha menos de 365 dias, esta resposta não te cobre: pergunta pelo e-balcão antes de contares com a exclusão. E, como o artigo 10.º do Código do IRS foi entretanto alterado, confirma junto da AT que a resposta continua a valer.

Fonte: Autoridade Tributária, informação vinculativa, processo n.º 28969, despacho de 31 de outubro de 2025, conclusões a. e b. e ponto 12 (condição de residência de quem paga); usa uma numeração anterior do artigo 10.º do Código do IRS. O efeito de uma informação vinculativa está no artigo 68.º da Lei Geral Tributária.

O método FIFO — com um exemplo passo a passo

Portugal exige o método FIFO (First-In, First-Out): as primeiras unidades que compraste são consideradas as primeiras que vendes — "tratando-se de criptoativos, os alienados são os adquiridos há mais tempo", diz o artigo 43.º, n.º 8, alínea g), do Código do IRS —, aplicado separadamente por cada instituição de crédito, sociedade financeira ou prestador de serviço de criptoativos onde os criptoativos estejam depositados (n.º 9 do mesmo artigo; na prática, cada exchange que uses), não pelo total combinado entre todas as tuas contas. Isto tem uma implicação importante para quem guarda cripto em carteira própria (autocustódia, fora de qualquer exchange): a lei fala em criptoativos "depositados" numa entidade, pelo que a aplicação exata do FIFO à tua própria carteira, sem intermediário nenhum, não está tão claramente definida — confirma este ponto concreto com um contabilista se for o teu caso.

exemplo prático

Compraste 1 ETH em janeiro de 2025 por 2.000€, e mais 1 ETH em agosto de 2025 por 2.800€, ambos na mesma exchange. Em fevereiro de 2026 (mais de 365 dias depois da primeira compra, mas menos de 365 dias depois da segunda), vendes 1 ETH por 3.500€. Pelo método FIFO, essa venda corresponde à primeira compra (janeiro de 2025) — passaram mais de 365 dias, logo a mais-valia de 1.500€ (3.500€ − 2.000€) está excluída de tributação, mas continua a ter de ir ao Anexo G1. Se tivesses vendido as duas unidades no mesmo momento, a segunda (agosto de 2025) já cairia no Anexo G, tributada a 28% sobre 700€ de mais-valia (3.500€ − 2.800€, assumindo preço de venda idêntico para ambas).

Isto significa que, se compraste em várias tranches ao longo do tempo, cada fração tem o seu próprio "relógio" de 365 dias — parte da venda pode estar excluída de tributação e parte pode não estar, na mesma transação, mesmo vendendo tudo no mesmo dia. Guardar um registo cronológico completo de todas as compras (data, quantidade, preço) por cada exchange separadamente não é opcional — é o que te permite calcular corretamente e provar o cálculo se a Autoridade Tributária pedir. Nota também que a exclusão dos 365 dias, e a não tributação da troca cripto-cripto, deixam de se aplicar quando uma das partes da operação — tu ou a contraparte a quem vendes — não é residente, para efeitos fiscais, em Portugal, noutro Estado-Membro da União Europeia ou do Espaço Económico Europeu, nem noutro Estado ou jurisdição com convenção para evitar a dupla tributação ou acordo de troca de informações fiscais. O que os formulários pedem é o país de residência da contraparte, ou seja, de quem te comprou — se não sabes quem foi, ou se pode estar fora desse universo, confirma este ponto antes de contares com a exclusão.

Separar carteiras por finalidade — e o que isso poupa

Como o FIFO se aplica dentro de cada entidade — cada exchange, corretora ou plataforma — e não ao total combinado, uma carteira única onde se misturam posições de longo prazo com moedas que negoceias obriga-te a vender sempre a tranche mais antiga primeiro — mesmo quando a que querias vender era a de ontem. Usar uma entidade só para posições longas e outra, diferente, só para negociar resolve isto, e a diferença dá-se em euros. É essencial que sejam mesmo duas plataformas distintas: abrir duas contas na mesma exchange não separa o FIFO, porque a lei aplica o método por instituição, não por conta.

exemplo calculado — a mesma pessoa, as mesmas compras, dois arranjos de carteira

Imagina a Marta. Compra 1 ETH a 2 de janeiro de 2025 por 2.000€, para manter. A 14 de setembro de 2026 compra mais 1 ETH por 3.000€, esse para negociar. A 28 de setembro vende 1 ETH por 3.200€ e, a 20 de janeiro de 2027, vende o ETH restante por 4.000€.

Tudo na mesma exchange: a venda de 28 de setembro corresponde, por FIFO, à tranche de janeiro de 2025 — 634 dias de detenção, mais-valia de 1.200€ excluída de tributação, 0€ de imposto. Mas a posição longa desapareceu, e o que fica em carteira é 1 ETH adquirido a 14 de setembro de 2026. Vendido a 20 de janeiro de 2027 (128 dias), gera 1.000€ de mais-valia tributada a 28% = 280€.

Duas plataformas diferentes: a venda de 28 de setembro sai da plataforma de negociação — mais-valia de 200€, 14 dias de detenção, 28% = 56€. A tranche de 2025 fica intacta na plataforma de longo prazo e, vendida a 20 de janeiro de 2027, tem 748 dias: mais-valia de 2.000€ excluída de tributação, 0€. Imposto total: 56€.

Mesmas compras, mesmas vendas, mesmo dinheiro recebido — e 224€ de diferença no imposto, só por causa de onde as moedas estavam guardadas.

Reorganizar posições que já tens não deve ter custo fiscal: o que a lei tributa é a alienação onerosa (artigo 10.º, n.º 1, alínea k)), e mover criptoativos entre carteiras tuas não transmite nada a ninguém. Quanto ao prazo dos 365 dias, a lei não tem norma expressa para criptoativos: a regra que manda a entidade de origem comunicar à de destino a data e o valor histórico de aquisição está escrita só para valores mobiliários (artigo 43.º, n.º 10). A leitura natural é que o relógio continua a contar da compra, não do depósito: a data de aquisição acompanha o ativo, não a carteira. O que a transferência muda de certeza é a prova — e essa parte é tua, como explicamos na secção sobre transferências entre carteiras próprias, mais abaixo: a plataforma de destino só conhece a data do depósito, não a data da compra original.

o procedimento, por ordem

1. Exporta o histórico completo da conta antes de mover fosse o que for — é a única prova da data e do valor de aquisição de cada tranche, e deixa de estar acessível se a plataforma encerrar a conta. 2. Move para a plataforma de longo prazo as posições que não tencionas tocar antes dos 365 dias, e guarda o tx hash de cada transferência. 3. Anota, num ficheiro teu, que a tranche X depositada a dia Y foi adquirida a dia Z pelo valor W. 4. A partir daí, compra de longo prazo entra sempre pela plataforma longa; compra para negociar entra sempre pela plataforma de negociação.

O gatilho para fazer isto não é o número de operações que fazes por ano — é a sobreposição: teres, no mesmo ativo, uma posição que queres manter e outra que queres negociar. Quem tem só bitcoin e nunca o vende não ganha nada em separar; quem negoceia Ethereum com regularidade e tem, em paralelo, um Ethereum que não pretende tocar, ganha exatamente o que o exemplo acima mostra. Contra: cada transferência entre plataformas paga taxa de rede, e passar para autocustódia acrescenta um risco real de perda das chaves que não existia antes. Se a mais-valia latente da posição longa for de umas dezenas de euros, o imposto em jogo não paga o trabalho nem o risco.

Staking — quase sempre mais-valia, não rendimento imediato (e o que muda no lending)

O que se segue vale para o staking; o lending tem uma diferença importante, no fim desta secção. Há uma distinção a fazer entre mais-valia (comprar a 10.000€, vender a 15.000€, mais-valia de 5.000€) e rendimento (receber uma remuneração decorrente de uma atividade com criptoativos, como o staking — bloquear criptoativos numa rede ou numa plataforma, em troca de uma recompensa periódica, sem os vender — ou o lending — emprestá-los a uma plataforma ou a terceiros, a troco de juro). A Lei n.º 24-D/2022 incluiu na Categoria E (rendimentos de capitais) "quaisquer formas de remuneração decorrentes de operações relativas a criptoativos" — mas a regra de que mais se ouve falar está incompleta. O artigo 5.º, n.º 11, do Código do IRS diz que esses rendimentos, "quando assumam a forma de criptoativos, são tributados como mais-valia no momento da alienação dos criptoativos recebidos". Ou seja: no caso mais comum do staking, não há imposto a pagar no momento do recebimento — só quando venderes os ativos recebidos, e aí como mais-valia (Categoria G). A Categoria E, tributada a 28% logo no recebimento e sem exclusão por tempo de posse, aplica-se quando a remuneração é paga em euros ou noutra espécie que não seja criptoativos — e há um caso, o da contraparte fora da UE e do EEE e sem convenção ou acordo de troca de informação com Portugal, em que a lei e o folheto da Autoridade Tributária não dizem o mesmo, tratado na caixa mais abaixo. Antes de assumires qual dos dois regimes se aplica ao teu caso, confirma em que és pago: em criptoativos ou em euros. Nos casos em que a Categoria E se aplique mesmo, simula depois se compensa englobar.

exemplo — staking pago em cripto, o caso mais comum

Tens 10.000€ em ETH num protocolo de staking, a render 3% ao ano, pago periodicamente em ETH adicional. Cada pagamento de staking que recebes, sendo pago em ETH, não gera imposto nesse momento — recebes, por exemplo, 0,05 ETH avaliados em 150€, e não há nada a pagar já. Há duas coisas que a lei não diz: qual é o valor de aquisição dos criptoativos que recebes como recompensa, e a partir de que data conta o período de detenção. Se usares o valor e a data do dia em que a recebes — uma das leituras possíveis —, esse ETH passa a ter o seu próprio "relógio" de 365 dias e um custo de 150€. Nessa leitura: se o venderes antes de completar 365 dias desde o recebimento, a diferença entre o valor de venda e os 150€ é uma mais-valia sujeita a 28% (Anexo G); se esperares 365 dias ou mais, essa mais-valia fica excluída de tributação (Anexo G1, mas continua a ter de ser declarada). Há uma segunda leitura, que parte do folheto da Autoridade Tributária sobre criptoativos: quando o rendimento é pago em criptoativos, o folheto diz que não há imposto nesse momento, "atribuindo-se aos criptoativos recebidos o valor de aquisição dos entregues" (p. 5). No staking não entregas nada em troca da recompensa, pelo que, lida assim, a recompensa tem custo zero. Vê a diferença se venderes esses 0,05 ETH antes dos 365 dias pelos mesmos 150€: na primeira leitura, a mais-valia é 150€ − 150€ = 0€ e o imposto é 0€; na segunda, a mais-valia é 150€ − 0€ = 150€, e 150€ × 28% = 42€ de imposto. Se venderes com 365 dias ou mais, a exclusão vale nas duas leituras e o imposto é 0€; a partir de que data se contam esses dias, nenhuma das duas o resolve. O regime muda se a mesma recompensa te for paga em euros, ou noutra espécie que não seja criptoativos — nesse caso, sim, os 150€ seriam logo tributados a 28% como rendimento (Categoria E), independentemente de venderes ou não a seguir. Se as recompensas pesam na tua posição, pergunta à Autoridade Tributária, pelo e-balcão, qual das duas leituras usar antes de calcular.

A regra de base deste exemplo — nada a pagar quando recebes a recompensa em criptoativos, imposto só quando a vendes — não é leitura nossa: é a da própria Autoridade Tributária, fixada em informação vinculativa (o que é e quanto vale, explicamos na secção sobre stablecoins). Uma ficha doutrinária sobre criptoativos (processo n.º 28122, com despacho de 16 de março de 2026) percorre compra, detenção e staking. Descreve o staking e o depósito de criptoativos em protocolos como "uma situação de passividade do sujeito passivo, com uma simples aplicação de capital", próxima de um depósito a prazo, arruma o rendimento na Categoria E e conclui que, assumindo a forma de criptoativos, esses rendimentos "são tributados como mais-valias no momento em que ocorrer a alienação dos criptoativos recebidos, nos termos do n.º 11 do artigo 5.º do Código do IRS".

Fonte: artigo 5.º, n.º 2, alínea u), e n.º 11 do Código do IRS, e ficha doutrinária da Autoridade Tributária sobre criptoativos (processo n.º 28122). Quando a Categoria E se aplica, os 28% não são descontados por quem te paga (retenção na fonte): estes rendimentos estão expressamente dispensados de retenção (artigo 101.º-B, n.º 5), pelo que são tributados à taxa especial do artigo 72.º, apurada por ti na declaração, e não à taxa liberatória do artigo 71.º.
o caso em que a lei e o folheto da Autoridade Tributária não dizem o mesmo

Quando uma das partes da operação não é residente na União Europeia, no Espaço Económico Europeu, nem noutro Estado ou jurisdição com convenção ou acordo de troca de informação, as leituras divergem. O artigo 5.º, n.º 11, não tem condição nenhuma de território: lido à letra, a recompensa paga em criptoativos continua sem imposto no recebimento, e o que se perde é a exclusão dos 365 dias na venda, porque é essa — e a não tributação da troca cripto-cripto — que o artigo 10.º, n.º 24 (antigo n.º 21), afasta. O folheto "Criptoativos — Conceito fiscal e tributação" da Autoridade Tributária, de dezembro de 2025, lê o mesmo caso de outra maneira: diz que os rendimentos de capitais com criptoativos "apenas são tributados no ano da sua obtenção" se forem "recebidos em dinheiro ou em espécie (exceto criptoativos)" ou se uma das partes estiver fora daquele universo de jurisdições. A ficha doutrinária de 2026 não arbitra a dúvida, porque o contribuinte que a pediu declarou ter feito todas as operações dentro da União Europeia e do Espaço Económico Europeu. Se é o teu caso, pergunta por escrito à Autoridade Tributária, pelo e-balcão, antes de submeteres a declaração. Enquanto não tiveres essa resposta, a leitura do folheto é a que te deixa menos exposto.

Uma nota sobre o lending: a ficha doutrinária de 2026 trata do staking e do depósito de criptoativos em protocolos, e não do empréstimo de criptoativos a uma plataforma ou a terceiros. A lei abrange "quaisquer formas de remuneração decorrentes de operações relativas a criptoativos", o que à letra inclui a remuneração de um empréstimo em cripto — mas confirma-o antes de lhe aplicares a regra do artigo 5.º, n.º 11.

Mineração — quando passa a ser Categoria B

Mineração de criptoativos como atividade habitual ou profissional é tratada como rendimento empresarial, na Categoria B, sujeita às regras gerais de atividade independente — regime simplificado ou contabilidade organizada, consoante o volume de negócio. A lei arruma na mesma alínea "as operações relacionadas com a emissão de criptoativos, incluindo a mineração, ou a validação de transações de criptoativos através de mecanismos de consenso" — e essa última parte apanha quem corre o seu próprio validador de proof-of-stake — o computador que participa diretamente na validação das transações da rede —, que é coisa diferente de delegar moedas a um protocolo e receber recompensas passivas.

No regime simplificado, 95% do rendimento bruto de mineração é considerado tributável (coeficiente de 0,95); as restantes operações com criptoativos usam um coeficiente de 0,15 (ou seja, 15% é tributável). Correr um validador é Categoria B, mas não é mineração, e o coeficiente de 0,95 está escrito na lei só para a mineração. A fronteira entre "mineração" e "outras operações com criptoativos" nem sempre é óbvia em atividades mistas, e a diferença entre os dois coeficientes é grande o suficiente para mudar o imposto em milhares de euros.

Há ainda um detalhe de calendário que muda tudo no regime simplificado: aí, estes rendimentos consideram-se obtidos no momento da alienação onerosa dos criptoativos, e não no momento em que os produzes, e a cessação de atividade e a perda da qualidade de residente em território português são equiparadas a essa alienação. Na contabilidade organizada não existem regras especiais para criptoativos: valem as regras do Código do IRC, com as adaptações do Código do IRS (artigo 32.º). O que importa reter é que mineração como atividade não segue as mesmas regras que uma simples compra e venda esporádica de criptoativos — a natureza habitual e organizada da atividade é o que a distingue.

Fonte: artigo 4.º, n.º 1, alínea o), do Código do IRS (atividades comerciais e industriais) e artigo 31.º, com a epígrafe "Regime simplificado": n.º 1, alíneas a) — "0,15 às vendas de mercadorias e produtos, às operações com criptoativos, com exceção da referida na alínea d)" — e d) — "0,95 aos rendimentos provenientes da mineração de criptoativos" —, n.º 17 (momento em que os rendimentos se consideram obtidos) e n.º 18 (cessação de atividade e perda da qualidade de residente). Para a contabilidade organizada, o folheto da Autoridade Tributária remete para as regras do Código do IRC, com as adaptações do artigo 32.º do Código do IRS. A ficha doutrinária n.º 28122 indica os critérios que, no caso analisado, levariam à Categoria B: estrutura empresarial organizada, caráter de habitualidade, prestação de serviços a terceiros e ser esta a única ou uma das principais fontes de rendimento.

NFT — excluídos por definição legal

O Código do IRS exclui expressamente da definição geral de criptoativo os criptoativos únicos e não fungíveis com outros criptoativos — ou seja, os NFT (artigo 10.º, n.º 21, antigo n.º 18). Isto significa que não deves simplesmente pegar na regra dos 365 dias e aplicá-la a um NFT como se fosse igual a Bitcoin ou Ethereum. O enquadramento fiscal de um NFT pode depender da natureza concreta da operação e da situação — se a tua atividade com NFT tiver volume relevante, procura aconselhamento fiscal específico: as regras das criptomoedas fungíveis não se transportam para aqui.

Sair de Portugal com criptoativos valorizados

Aqui existe uma regra particularmente importante e pouco conhecida: "para efeitos do disposto na alínea k) do n.º 1, a perda da qualidade de residente em território português é equiparada a uma alienação onerosa" (artigo 10.º, n.º 25, antigo n.º 22, do Código do IRS). Ou seja, mudar a tua residência fiscal para fora de Portugal pode ter consequências fiscais mesmo sem teres vendido nada. O ganho calcula-se assim: é a diferença positiva entre o valor de mercado à data da perda da qualidade de residente e o valor de aquisição, acrescido dos encargos necessários e efetivamente suportados com a aquisição, como as comissões (artigo 43.º, n.º 12). Se estás a planear emigrar com uma posição valorizada, trata a data da mudança de residência fiscal como a data de uma venda, e faz as contas antes de a marcar. Isto funciona como uma espécie de "exit tax" — o sistema trata a saída como se tivesses vendido tudo no dia em que deixas de ser residente fiscal português, cristalizando a mais-valia nesse momento. Quem tem atividade aberta em Categoria B com criptoativos, no regime simplificado, tem regra equivalente no artigo 31.º, n.º 18.

Fonte: artigos 10.º, n.º 25, e 43.º, n.º 12, do Código do IRS. Nos formulários, o quadro 18A do Anexo G e o quadro 7 do Anexo G1 cobrem, ambos, a perda da qualidade de residente.

DAC8 — o fim da ideia de que a exchange está "lá fora"

A Lei n.º 26/2026, de 3 de junho, transpôs a Diretiva (UE) 2023/2226 — a DAC8 — que alarga a troca automática e obrigatória de informação fiscal aos prestadores de serviços de criptoativos, em linha com o Crypto-Asset Reporting Framework (CARF) da OCDE. O Código do IRS já previa, no artigo 124.º-A, a obrigação de comunicação anual à Autoridade Tributária por parte de quem preste serviços de custódia e administração de criptoativos ou gira plataformas de negociação; a Lei n.º 26/2026 alterou esse artigo. O primeiro reporte abrange as operações de 2026 e é entregue até 31 de maio de 2027 — o que significa que as transações que fazes este ano já estão dentro do primeiro ciclo. O perímetro é mais largo do que a lista de plataformas autorizadas ao abrigo do MiCA (o regulamento europeu que fixa o quadro dos mercados de criptoativos na União Europeia e sujeita a autorização quem presta estes serviços): a lei define prestador reportante como "qualquer prestador de serviços de criptoativos e qualquer operador de criptoativos" que realize transações de troca por conta de um utilizador sujeito a comunicação, e os serviços abrangidos incluem expressamente "o bloqueio de criptomoedas (staking) e a concessão de empréstimos". Uma carteira de autocustódia não é, em si, uma entidade reportante — mas as transferências que uma plataforma reportante faça para endereços que, tanto quanto saiba, não estejam associados a outro prestador entram no que ela comunica. E a troca de informação pode ainda decorrer de convenção ou de outro instrumento internacional celebrado com jurisdições de fora da União Europeia. Nada disto altera a tua obrigação de declarar.

Fonte: Lei n.º 26/2026, de 3 de junho (Diário da República, 1.ª série, n.º 107), que transpõe as Diretivas (UE) 2023/2226 e (UE) 2025/872 e "produz efeitos a partir de 1 de janeiro de 2026"; e artigo 124.º-A do Código do IRS: "a comunicação referida no n.º 1 deve ser efetuada até ao dia 31 de maio de cada ano, relativamente às informações respeitantes ao ano civil anterior".
as coimas variam com o tipo de falha — e são das plataformas, não tuas

O incumprimento das obrigações de comunicação está sujeito a coimas específicas, e o valor varia consoante o tipo de falha. Como as entidades reportantes são, em regra, pessoas coletivas, os limites mínimo e máximo de cada tipo são elevados para o dobro (artigo 26.º, n.º 4, do Regime Geral das Infrações Tributárias): na prática, de 1.000€ a 45.000€, consoante a infração. Os limites de base são: falta de apresentação da declaração de registo ou da comunicação, entre 2.000€ e 22.500€, e apresentação fora de prazo, entre 1.000€ e 22.500€ (artigo 117.º, n.º 10); omissões ou inexatidões nas informações comunicadas, entre 500€ e 11.250€; incumprimento dos procedimentos de diligência devida e da conservação dos documentos que os comprovam, entre 1.000€ e 22.500€ (artigo 119.º-B, n.os 1 e 2). Estas coimas aplicam-se às entidades reportantes (as próprias plataformas de criptoativos), não automaticamente a ti como contribuinte individual por não teres declarado uma operação. Isso não te dispensa de declarar corretamente — a tua consequência por incumprimento, como contribuinte, segue as regras gerais aplicáveis a omissões ou inexatidões na tua declaração de IRS (Regime Geral das Infrações Tributárias), que dependem da infração concreta e não devem ser resumidas a um número alarmista único, e são um regime distinto do das coimas às plataformas.

Contas em exchanges estrangeiras — duas obrigações diferentes

São duas coisas separadas, e a maioria das dúvidas nasce de as tratar como uma só. Uma é declarar a existência da conta: o artigo 63.º-A, n.ºs 8 e 9, da Lei Geral Tributária obriga quem declara IRS a mencionar na declaração de rendimentos a existência e a identificação de contas de depósitos ou de títulos abertas em instituição financeira não residente, e isso faz-se no Anexo J, quadro 11, com IBAN e BIC, mesmo que a conta não tenha gerado rendimento nenhum no ano. A outra é declarar os rendimentos obtidos através dela, e aí o anexo não é automático: as mais-valias de criptoativos detidos há menos de 365 dias vão ao Anexo G, quadro 18A, ou ao Anexo J, quadro 9.4A, consoante o rendimento se considere obtido em Portugal ou no estrangeiro (ver a matriz acima).

Onde a resposta deixa de ser automática: uma carteira de criptoativos numa plataforma que te dá apenas endereços, sem qualquer conta em euros, não é, à letra da norma, uma "conta de depósitos ou de títulos". Muitas plataformas, porém, dão-te hoje uma conta em euros com IBAN estrangeiro (lituano, irlandês, e outros) para depositares e levantares — e aí o que decide é o tipo de conta: uma conta de depósitos cabe na norma, uma conta só de pagamentos não está na letra dela, e de fora nem sempre se distingue uma da outra. O critério prático do guia de declarar investimentos no IRS vale igual aqui: na dúvida sobre o tipo da tua conta, identifica-a no quadro 11. Declarar por excesso de cautela custa zero, porque é só identificação e não gera imposto. Com o primeiro reporte do DAC8 a chegar em 2027, é cada vez menos provável que a Autoridade Tributária não tenha, de qualquer forma, visibilidade sobre essa conta.

Há ainda uma terceira menção, que só aparece em casos específicos: quem detém ativos em países, territórios ou regiões com regime fiscal claramente mais favorável — a lista da Portaria n.º 150/2004 — tem de os identificar no quadro 8 do Anexo G1 (artigo 57.º, n.º 7, do Código do IRS) e, por isso, deixa de poder ficar dispensado de entregar a declaração e de usar o IRS Automático (artigos 58.º, n.º 3, alínea e), e 58.º-A, n.º 12). A lista de ativos dessa norma não menciona criptoativos: o que mais se aproxima é "valores detidos em contas de depósito ou de títulos em entidades com sede ou domicílio nessas jurisdições ou em sucursais aí situadas". Se a plataforma que usas está sediada numa dessas jurisdições, pergunta pelo e-balcão se tens de preencher esse quadro.

Transferências entre as tuas próprias carteiras

Mover ativos de uma exchange para uma carteira fria (hardware) não é, por si só, uma venda. Mas guarda sempre a prova dessa transferência — data, quantidade, endereço de origem e destino, e o identificador da transação (tx hash), quando exista. Porque, daqui a vários anos, podes precisar de demonstrar que o Bitcoin que estás a vender agora é o mesmo que compraste em 2025, para efeitos do cálculo do prazo de 365 dias — uma transferência entre carteiras tuas não deve desaparecer do teu arquivo só porque não gerou uma venda naquele momento.

Documentação a guardar — a lista completa

Se tens um volume de operações elevado (dezenas ou centenas de transações por ano, várias exchanges, staking recorrente), fazer este registo manualmente em folha de cálculo torna-se rapidamente impraticável. Ferramentas de acompanhamento de carteira cripto com exportação fiscal (que aplicam FIFO automaticamente) podem poupar-te horas — mas confirma sempre que a ferramenta aplica as regras portuguesas especificamente (365 dias, separação por entidade, distinção entre Categoria E e G), porque muitas destas ferramentas foram desenhadas primeiro para mercados como os EUA ou o Reino Unido, com regras fiscais diferentes das nossas, e podem calcular o prazo dos 365 dias incorretamente se não configurares o país certo.

O erro que mais caro sai não é um erro de cálculo — é guardar apenas "comprei bitcoin por 20.000€" quando o histórico real tem várias compras, vendas, trocas, transferências e staking espalhados por anos e por plataformas diferentes. Nesse cenário, o teu histórico é a tua prova, e reconstruí-lo de memória anos depois é normalmente impossível, sobretudo se alguma das exchanges que usaste entretanto fechou ou deixou de dar acesso ao histórico antigo. Manter o registo desde o início custa minutos por operação; refazê-lo anos depois pode custar a exclusão de tributação inteira, por não conseguires provar a data de aquisição.

um exemplo diferente: quando a venda cai a meio de duas tranches
Posição de partida: 0,5 ETH comprados em cada uma de duas datas diferentes
CompraDataQuantidadePreçoEstado em fev. 2026
Tranche 110/01/20250,5 ETH1.000€Mais de 365 dias — excluída de tributação
Tranche 215/08/20250,5 ETH1.400€Menos de 365 dias — tributada a 28%

Este é um caso diferente do exemplo anterior: aqui a tua posição total é só 1 ETH, comprado em duas vezes (0,5 ETH em cada). Se venderes esse 1 ETH inteiro em fevereiro de 2026 por 3.500€ (1.750€ correspondentes a cada meia unidade, proporcionalmente), o FIFO obriga-te a tratar a venda como duas operações distintas: a Tranche 1 gera uma mais-valia de 750€ (1.750€ − 1.000€), excluída de tributação por ter mais de 365 dias, e cai no Anexo G1; a Tranche 2 gera uma mais-valia de 350€ (1.750€ − 1.400€), tributada a 28% (98€ de imposto) por ter menos de 365 dias, e cai no Anexo G. Não podes escolher "vender primeiro a tranche que já passou os 365 dias" por conveniência — a ordem é sempre determinada pela data de aquisição, não pela tua preferência. (Repara que isto é diferente do exemplo anterior, onde a posição era de 2 ETH inteiros e vender 1 ETH esgotava sozinho a tranche mais antiga, sem dividir nada.)

A regra dos 365 dias é portuguesa — e não viaja contigo

A exclusão por tempo de detenção é uma opção do legislador português, não um padrão europeu. Dois vizinhos próximos mostram as duas pontas do leque.

Mais-valias de criptoativos detidos por particulares — três regimes (Portugal e Alemanha em setembro de 2026; Espanha, escalas aplicáveis aos rendimentos de 2025)
PaísPrazo que afasta o impostoTributação quando não se aplica
Portugal365 dias ou mais, e aí o ganho fica excluído de tributação (com ambas as partes em Portugal, na UE, no EEE ou em Estado com convenção ou acordo de troca de informação)28% de taxa especial, ou englobamento por opção
AlemanhaMais de um ano, sem limite de valorTaxa marginal do imposto alemão sobre o rendimento (Einkommensteuer) do contribuinte; abaixo de 1.000€ de ganho total anual em operações privadas, não há imposto
EspanhaNenhum — o tempo de detenção é irrelevanteEscalões da base da poupança, de 19% a 30% (componente estatal de 9,5% a 15%, somada à autonómica equivalente)
Alemanha: § 23, n.º 1, ponto 2, e n.º 3 da Einkommensteuergesetz — prazo de um ano entre a aquisição e a alienação de "outros bens", e ganhos isentos quando o ganho total do ano em negócios privados de alienação for inferior a 1.000€. A mesma norma alarga o prazo para dez anos nos bens que geraram rendimentos em pelo menos um ano civil, mas o Ministério das Finanças alemão declarou, na circular de 6 de março de 2025 sobre criptoativos, que esse alargamento não se aplica aos currency ou payment token — o que mantém o prazo de um ano mesmo com staking ou lending. Espanha: escalas estatal (artigo 66.º, n.º 1, da Lei do IRPF) e autonómica (artigo 76.º) da base liquidable del ahorro, cada uma de 9,5% a 15%, Agencia Tributaria, Manual práctico de Renta 2025 (rendimentos de 2025) — somadas, 19% a 30%.

Isto importa a quem mudou de país ou tem dupla residência fiscal: o histórico de compras não muda de regime só porque tu mudaste de morada, e as regras de cada jurisdição aplicam-se ao período em que foste residente nela. É também mais uma razão para levar a sério a secção sobre sair de Portugal — a perda da qualidade de residente é, para a lei portuguesa, equiparada a uma venda.

O que tens mesmo de confirmar por ti

Sete pontos deste guia não têm resposta única, porque a lei não a dá com clareza suficiente ou porque depende de factos que só tu conheces. Ficam aqui juntos, cada um com a pergunta que tens de fazer.

Pagar um contabilista certificado compensa se alguma destas quatro situações for a tua: tens atividade aberta em Categoria B com criptoativos (porque o coeficiente errado custa mais do que os honorários), estás a planear mudar de residência fiscal com posições valorizadas, tens de substituir uma declaração de um ano anterior, ou a tua posição está repartida por mais de três plataformas com histórico incompleto nalguma delas. Fora destes casos, o guia e o histórico exportado das plataformas costumam chegar.

Perguntas frequentes

Tenho criptoativos mas não vendi nada — tenho de declarar no IRS? A obrigação nasce da operação, não da posse: declaras quando vendes, quando recebes remuneração em euros (ou noutra espécie que não sejam criptoativos) ou quando perdes a qualidade de residente em Portugal. As recompensas pagas em criptoativos só se declaram, pela letra da lei, quando venderes o que recebeste (artigo 5.º, n.º 11, do Código do IRS); com uma das partes fora da UE e do EEE e sem convenção ou acordo de troca de informação com Portugal, o folheto da Autoridade Tributária lê o caso de outra maneira. Há ainda um caso sem operação nenhuma: uma conta em euros com IBAN estrangeiro numa plataforma de criptoativos pode ter de ser identificada no Anexo J, quadro 11, mesmo sem rendimento — na dúvida, identifica-a, porque não gera imposto. E, se a plataforma estiver sediada numa jurisdição da lista da Portaria n.º 150/2004, pergunta pelo e-balcão se tens de preencher o quadro 8 do Anexo G1, que afasta a dispensa de entregar a declaração.

Comprei bitcoin antes de 2023 — isso conta para os 365 dias? Conta. O artigo 220.º da Lei n.º 24-D/2022 manda contar o período de detenção anterior à entrada em vigor do regime. Como o regime começou em 2023, qualquer compra anterior já ultrapassou 365 dias por simples aritmética. A venda continua a ir ao Anexo G1, quadro 7, e continua a depender de nem tu nem a outra parte da operação estarem fora da UE, do EEE e das jurisdições com convenção ou acordo de troca de informação fiscal com Portugal.

O staking paga imposto quando recebo ou quando vendo? Depende da forma como és pago. Pago em criptoativos — o caso mais comum — não há imposto no recebimento: pagas quando venderes os ativos recebidos, como mais-valia (artigo 5.º, n.º 11, do Código do IRS). Pago em euros, ou noutra espécie que não seja criptoativos, são 28% logo no recebimento, como rendimento de capitais: Anexo E se quem paga está sediado em Portugal, Anexo J se está no estrangeiro. Duas ressalvas: a lei não fixa o valor de aquisição nem a data a partir da qual conta o prazo de detenção dos criptoativos recebidos; e, quando uma das partes está fora da UE e do EEE e sem convenção ou acordo de troca de informação, o folheto da Autoridade Tributária lê o caso de outra maneira.

Trocar bitcoin por USDT paga imposto? Não no momento da troca, se tratares o stablecoin como criptoativo — que é a leitura mais segura: a definição legal de criptoativo é larga e o folheto da Autoridade Tributária arruma os stablecoins ao lado das criptomoedas. Nessa leitura, se a posição que entregaste tinha menos de 365 dias, o Código do IRS não tributa a troca e o USDT recebido fica com o valor de aquisição do bitcoin entregue; se já tinha 365 dias ou mais, o ganho fica excluído de tributação, como numa venda. Num caso concreto, o de uma posição com 365 dias ou mais trocada por USDC e vendida logo a seguir em euros, a Autoridade Tributária respondeu, numa informação vinculativa (a resposta escrita da AT a um caso concreto), que o imposto só se conta na passagem para euros e que a mais-valia fica excluída, desde que a plataforma ou contraparte resida na UE, no EEE ou em jurisdição com convenção; essa resposta vale para os factos de quem a pediu, não é lei. Nos dois casos, é preciso que nenhuma das partes esteja fora de Portugal, da UE, do EEE ou de jurisdição com convenção ou acordo de troca de informação. O que a troca exige é registo — sem a data, as quantidades e o valor em euros de cada lado da troca, ficas sem forma de provar o custo de aquisição do USDT quando o venderes.

Posso deduzir perdas com criptoativos? Dentro do mesmo ano, sim: o imposto incide sobre o saldo entre mais-valias e menos-valias, não sobre cada venda isolada. Para transportar um saldo negativo para os cinco anos seguintes, tens de optar pelo englobamento no ano em que a perda foi apurada — ou ser obrigado a englobar (artigo 55.º, n.º 1, alínea d), do Código do IRS). As perdas em criptoativos detidos há 365 dias ou mais estão excluídas de tributação e não entram no saldo, e o artigo 43.º, n.º 7, manda não contar as perdas apuradas quando a contraparte da operação está sujeita a um regime fiscal claramente mais favorável (os chamados paraísos fiscais).

A exchange estrangeira comunica os meus dados à Autoridade Tributária? A partir de 2027, se for um prestador de serviços de criptoativos abrangido. A Lei n.º 26/2026, de 3 de junho, transpôs a DAC8 e o quadro CARF da OCDE, e o primeiro reporte — referente às operações de 2026 — é entregue à Autoridade Tributária até 31 de maio de 2027. Se a plataforma comunica ao fisco de outro Estado-Membro, é esse fisco que transmite a informação a Portugal, no prazo de nove meses após o fim do ano (até 30 de setembro de 2027). O perímetro não é só o das plataformas autorizadas ao abrigo do MiCA: a lei inclui também os operadores de criptoativos, e as transferências para endereços que, tanto quanto a plataforma saiba, não estão associados a outro prestador entram no que ela comunica. Nada disto altera a tua obrigação de declarar.

Checklist cripto antes de declarares

Próximos passos

  1. Exporta o histórico completo de cada exchange e carteira que uses, hoje — não esperes pela época do IRS.
  2. Organiza as operações por entidade (exchange ou corretora) e por data, e identifica quais tranches já passaram os 365 dias.
  3. Se tens, no mesmo ativo, uma posição para manter e outra para negociar, move-as para plataformas separadas — e exporta o histórico antes de mover.
  4. Se tiveste staking, confirma em que foste pago — criptoativos ou euros — porque é isso que decide entre Categoria G e Categoria E. Se o que tiveste foi lending, não apliques a regra sem confirmar: a ficha doutrinária citada acima trata do staking e do depósito em protocolos, não do empréstimo.
  5. Se a Categoria E se aplicar ao teu caso, compara englobar com ficar pela taxa de 28%. A mecânica da decisão, escalão a escalão, está em englobar ou ficar pela taxa liberatória, que trata juros, dividendos e mais-valias — a conta é a mesma. Só uma diferença: aqui os 28% não são descontados no pagamento (artigo 101.º-B, n.º 5, do Código do IRS), por isso não há taxa liberatória — apuras tu o imposto na declaração.

Fontes e referências

Consultadas em setembro de 2026. As ligações apontam para a versão em vigor à data; confirma sempre a versão mais recente antes de decidires.

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Nota: a fiscalidade de criptoativos tem regras específicas e sujeitas a atualização frequente. Este conteúdo reflete a legislação em vigor a 19 de setembro de 2026, incluindo o regime de comunicação DAC8/CARF transposto pela Lei n.º 26/2026, de 3 de junho, cujo primeiro reporte é entregue até 31 de maio de 2027 — confirma sempre o teu enquadramento concreto junto de um contabilista certificado ou da Autoridade Tributária antes de submeter a declaração.