Englobar é juntar juros, dividendos ou mais-valias (o ganho de vender uma ação, um fundo ou outro investimento por mais do que pagaste) ao resto do teu rendimento. Passam a pagar IRS pelos escalões (as taxas que sobem por patamares de rendimento), em vez dos 28% fixos. O teu escalão vê-se pelo rendimento coletável, o que sobra do rendimento depois das deduções. Compensa quando a fatia que somas paga, em média, menos de 28%: o que interessa é a taxa dessa fatia, não a média do que já ganhas. Com as taxas de 2026 do continente, compensa quase sempre nos três primeiros escalões; no 4.º, depende do tamanho da fatia; a partir do 5.º (31,1%), não. Nos dividendos de empresas portuguesas é diferente: só metade conta, e englobar raramente sai pior, em qualquer escalão. O mesmo vale, em certos casos, para os de empresas da União Europeia ou do Espaço Económico Europeu. A escolha faz-se na declaração, por categoria: juros e dividendos juntos, mais-valias à parte. Simula os dois cenários antes de submeteres. Se te enganares, até ao fim do prazo de entrega podes corrigir com uma declaração de substituição.
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Tens dividendos, juros ou mais-valias a declarar, e a declaração de IRS pergunta-te se queres "englobar". A resposta certa depende de uma conta, e a conta muda de pessoa para pessoa.
O que significa englobar
Por defeito, os juros de depósitos e os dividendos (rendimentos de capitais, a Categoria E do IRS) e as mais-valias (o ganho de vender um ativo por mais do que pagaste, que é a Categoria G) de ações, ETF (fundos que seguem um índice e se compram e vendem em bolsa como uma ação — ver ETF do zero) e outros valores mobiliários (títulos como obrigações ou partes de fundos) pagam uma taxa fixa de 28% (no continente; nas regiões autónomas pode ser outra, como se explica mais abaixo), sem entrar no cálculo do teu rendimento total. Nos juros e dividendos, há dois caminhos para chegar a esses 28%. Quando quem paga é uma entidade com sede em Portugal e contabilidade organizada (a contabilidade completa que a lei exige às empresas), como um banco ou uma empresa portuguesa, ou quando o dinheiro te chega através de um banco ou de uma corretora que atue em Portugal (como os dividendos de empresas estrangeiras recebidos numa corretora portuguesa), o imposto é descontado no momento do pagamento — a chamada retenção na fonte — e esse desconto é, em regra, o imposto final: é a taxa liberatória (n.º 1 do artigo 71.º do Código do IRS). Quando ninguém retém nada em Portugal — o caso dos juros e dividendos pagos por entidades estrangeiras e recebidos numa corretora estrangeira sem presença em Portugal —, pagas os mesmos 28%, mas és tu que os apuras na declaração (a lei chama-lhe taxa autónoma: alínea d) do n.º 1 do artigo 72.º). Em regra, as mais-valias de ações e de ETF de domicílio estrangeiro (registados fora de Portugal) também não têm retenção em Portugal e pagam os mesmos 28%, apurados por ti na declaração (alínea c) do mesmo número); a exceção são os fundos e ETF constituídos em Portugal: quando pedes ao próprio fundo o dinheiro de volta (o resgate), a retenção de 28% é feita nesse momento (alínea b) do n.º 1 do artigo 22.º-A do Estatuto dos Benefícios Fiscais). As mais-valias de imóveis não entram nesta escolha: têm regras próprias. Para a decisão deste guia, todos estes casos funcionam da mesma forma, e é a estes 28% que o resto do guia chama taxa especial. Englobar significa juntar esses rendimentos ao resto do teu rendimento (salário, pensão, etc.), sujeitando-os às taxas progressivas de IRS em vez da taxa fixa.
A opção de englobar é para quem é residente em Portugal e, nos rendimentos com retenção à taxa liberatória, só para os que não vêm de uma atividade por conta própria, como a de quem passa recibos verdes ou é empresário em nome individual (n.º 9 do artigo 71.º e n.º 13 do artigo 72.º do Código do IRS). Há casos em que a taxa sobe para 35% — por exemplo, rendimentos devidos por entidades domiciliadas em paraísos fiscais (países ou territórios com regime fiscal claramente mais favorável, que constam de uma lista aprovada por portaria) — e esses ficam fora deste guia (alínea c) do n.º 17 do artigo 71.º e alínea a) do n.º 18 do artigo 72.º).
E o que acontece ao imposto que o banco ou a corretora já reteve? Se houve retenção em Portugal e englobares, essa retenção passa a contar como adiantamento do imposto devido a final, o chamado pagamento por conta (n.º 10 do artigo 71.º do Código do IRS): é abatida ao imposto calculado pelas taxas progressivas e, se ele for menor do que o retido, a diferença volta-te em reembolso. O mesmo vale para a retenção feita no resgate de fundos constituídos em Portugal, que passa a imposto por conta (n.º 2 do artigo 22.º-A do Estatuto dos Benefícios Fiscais). Se não houve retenção cá, não há nada retido em Portugal para descontar, e o imposto é todo apurado na declaração. Em contrapartida, ao assinalares a opção ficas obrigado a englobar a totalidade dos rendimentos dessa categoria nesse ano (n.º 5 do artigo 22.º do Código do IRS), incluindo os que já foram tributados na fonte.
Como funciona um imposto progressivo: só a fatia paga a taxa do escalão
A confusão mais frequente é achar que passar de escalão faz todo o rendimento pagar a taxa nova. Muita gente pensa: "se caio no escalão de 34,9%, todo o meu rendimento é tributado a 34,9%" — mas não é assim, e o erro sai caro: pode levar-te a evitar um aumento de rendimento com medo de "passar de escalão", quando na realidade a tabela de escalões, por si só, nunca te deixa com menos dinheiro no bolso por ganhares mais um euro. (O IRS tem outros limiares que funcionam mesmo em degrau — como os tetos das deduções à coleta, isto é, do que abates ao imposto por despesas de saúde, educação ou casa, e o englobamento obrigatório explicado mais abaixo —, mas não vêm da tabela dos escalões.)
O sistema funciona por fatias: cada escalão tributa apenas a parte do rendimento que cai dentro desse escalão, não o rendimento todo. O imposto total, dividido pelo rendimento, dá a taxa média, que nunca é superior à taxa marginal (a taxa da última fatia, a do escalão mais alto que atinges).
"Se passo para um escalão mais alto, todo o meu rendimento passa a pagar essa taxa."
Só a parte do rendimento que ultrapassa o limite do escalão paga a taxa nova. Tudo o que estava abaixo continua a pagar as taxas de antes.
Os escalões de IRS em 2026
Estas taxas aplicam-se a rendimentos obtidos em 2026, que declaras em 2027. Quem declara rendimentos de outro ano usa a tabela desse ano. Valores em vigor a 25 de setembro de 2026.
| Escalão | Rendimento coletável | Taxa normal (marginal) |
|---|---|---|
| 1.º | Até 8.342€ | 12,5% |
| 2.º | 8.342€ – 12.587€ | 15,7% |
| 3.º | 12.587€ – 17.838€ | 21,2% |
| 4.º | 17.838€ – 23.089€ | 24,1% |
| 5.º | 23.089€ – 29.397€ | 31,1% |
| 6.º | 29.397€ – 43.090€ | 34,9% |
| 7.º | 43.090€ – 46.566€ | 43,1% |
| 8.º | 46.566€ – 86.634€ | 44,6% |
| 9.º | Mais de 86.634€ | 48% |
São as taxas gerais, que valem para quem reside no continente. Nas regiões autónomas, tanto a tabela como a taxa com que se compara podem ser outras: na Madeira, por exemplo, nos rendimentos de 2026, as taxas dos escalões vão de 8,75% a 33,60% (artigo 2.º do Decreto Legislativo Regional n.º 3/2001/M, na redação do Decreto Legislativo Regional n.º 8/2025/M). A taxa de 28% também muda: nos Açores, a lei regional reduz em 30% as taxas nacionais do IRS, e a Autoridade Tributária indica 19,6% (os 28% com essa redução) para os juros, os dividendos e as mais-valias de quem lá reside; na Madeira, das taxas de 28%, só as liberatórias têm a redução de 30%: os juros e dividendos com retenção em Portugal ficam a 19,6%, mas as mais-valias e os rendimentos sem retenção em Portugal continuam nos 28% (a lei regional diz que as outras taxas do Código do IRS "permanecem inalteradas, enquanto não forem expressamente reduzidas"). Quando há retenção, nos Açores a Autoridade Tributária, num caso de Certificados de Aforro, diz que a redução se aplica se comprovares a residência (por exemplo, com um comprovativo das Finanças) e que, se te retiverem 28%, podes englobar esses rendimentos ou pedir a diferença às Finanças com uma reclamação graciosa (um pedido de correção dirigido às próprias Finanças), no prazo de dois anos a contar de 20 de janeiro do ano seguinte ao da retenção; na Madeira, confirma com a tua instituição. As regras de bolso e a tabela de pontos de equilíbrio deste guia foram calculadas com a tabela e os 28% do continente. Se resides numa região autónoma, confirma a taxa que se aplica aos teus rendimentos (junto do banco, da corretora ou da Autoridade Tributária) e compara com ela, e não com os 28%, o imposto da fatia calculado com a tabela da tua região para o ano dos rendimentos.
A 17 de setembro de 2026, o Conselho de Ministros aprovou uma proposta de lei que autoriza o Governo a baixar as taxas do 1.º ao 6.º escalão (entre 0,3 e 0,5 pontos percentuais — a taxa de 31,1% do 5.º escalão, por exemplo, passaria a 30,6% —, segundo o documento divulgado nesse dia), mantendo os limites dos escalões, com aplicação já aos rendimentos de 2026. Enquanto essa descida não for publicada em Diário da República, valem as taxas desta tabela, que são as usadas em todos os exemplos do guia. Se entrar em vigor nesses termos, os valores em euros mudam — o exemplo de 20.000€ com uma mais-valia de 8.000€, mais abaixo, passaria a compensar por pouco (27,9% em vez de 28,4%) —, mas o 5.º escalão continuaria acima dos 28%.
Um exemplo completo, calculado fatia a fatia
Não pagas 31,1% — a taxa do 5.º escalão, onde caem os 25.000€ — sobre os 25.000€ inteiros (o que daria 7.775€). Em vez disso: os primeiros 8.342€ pagam 12,5% (1.042,75€); a fatia entre 8.342€ e 12.587€ paga 15,7% (666,47€); a fatia entre 12.587€ e 17.838€ paga 21,2% (1.113,21€); a fatia entre 17.838€ e 23.089€ paga 24,1% (1.265,49€); e a fatia final, entre 23.089€ e 25.000€, paga 31,1% (594,32€). Somando tudo: 4.682€ de imposto, o que dá uma taxa média efetiva de 18,73% — bem abaixo dos 31,1% que seria a taxa marginal desse último escalão, e também abaixo dos 28% da taxa especial. Repara: a taxa média é de 18,73%, mas um rendimento adicional seria tributado à taxa marginal de 31,1% (5.º escalão), acima dos 28%. Por isso, neste caso, englobar uma mais-valia não compensaria.
A taxa adicional de solidariedade — para rendimentos mais altos
Se o teu rendimento coletável total ultrapassar 80.000€, soma-se uma taxa adicional de solidariedade, definida no artigo 68.º-A do Código do IRS: 2,5% sobre a fatia do rendimento coletável entre 80.000€ e 250.000€, e 5% sobre a fatia acima de 250.000€. Esta taxa incide apenas sobre o excedente acima de 80.000€, não sobre o rendimento todo — segue a mesma lógica de fatias que o resto do imposto.
A parte acima de 80.000€ é 10.000€. A taxa adicional de solidariedade aplicável (2,5%, porque está no primeiro escalão desta taxa) incide sobre esses 10.000€: 250€ adicionais, que se somam ao imposto normal calculado pelas fatias da tabela principal.
Regra rápida: olha para o teu escalão
Se o teu rendimento coletável total te coloca num escalão com taxa marginal inferior a 28%, englobar costuma reduzir o imposto que pagas sobre esses rendimentos: trocas uma taxa fixa mais alta por taxas progressivas mais baixas, aplicáveis à fatia correspondente do teu rendimento. Olhando à tabela de 2026, a taxa marginal fica abaixo de 28% nos quatro primeiros escalões (12,5%, 15,7%, 21,2% e 24,1%). Nos três primeiros, mesmo que a fatia entre pelos escalões seguintes, englobar compensa quase sempre, até a taxa média sobre a fatia passar os 28%. No 4.º escalão (24,1%) depende do tamanho da fatia: quanto mais perto do início do 5.º escalão (23.089€) estiver o teu ponto de partida, menor é a fatia que ainda compensa — a tabela de pontos de equilíbrio mais abaixo dá o limite para cada ponto de partida. A partir de um rendimento coletável de 23.089€, já não compensa (salvo se, no ano, tiveres mais perdas do que ganhos em mais-valias e as quiseres abater aos ganhos dos anos seguintes, como se explica mais abaixo). O valor exato depende do tamanho da fatia em jogo: a secção seguinte explica o cálculo preciso.
Regra precisa: compara a taxa média da fatia com 28%
Mesmo quem percebeu os escalões pode errar aqui: se o rendimento que estás a decidir englobar for suficientemente grande, ele pode ele próprio atravessar dois escalões diferentes — uma parte fica no escalão onde já estavas antes de somar esse rendimento, e o resto "empurra" o teu rendimento total para o escalão seguinte. Olhar só para "em que escalão fico no total" sobrestima ou subestima a taxa real que incide sobre esse rendimento específico. O correto é calcular a taxa média exatamente sobre a fatia marginal em causa — não sobre o escalão em que fica o rendimento total.
Tens um rendimento coletável de 20.000€ sem contar uma mais-valia de 8.000€ que estás a decidir se englobas. Isoladamente, 20.000€ cai no 4.º escalão (24,1%) — abaixo de 28%, o que sugeriria "englobar compensa". Mas a mais-valia de 8.000€, somada, leva o total a 28.000€, e essa fatia de 8.000€ não fica toda no 4.º escalão: a parte entre 20.000€ e 23.089€ (3.089€) ainda fica no 4.º escalão, a 24,1% = 744,45€; a parte entre 23.089€ e 28.000€ (4.911€) já cai no 5.º escalão, a 31,1% = 1.527,32€. Total de imposto sobre a fatia de 8.000€: 2.271,77€, o que dá uma taxa média de 28,4% sobre esse rendimento específico — ligeiramente acima dos 28% da taxa especial. Neste caso concreto, ao contrário do que "olhar para o escalão onde caio" sugeria à primeira vista, ficar pela taxa especial sai (marginalmente) mais barato.
O método correto tem sempre três passos: 1) identifica o teu rendimento coletável total sem contar o rendimento que estás a decidir englobar; 2) soma esse rendimento a partir desse ponto, fatia a fatia, aplicando a taxa de cada escalão que ele atravessa; 3) divide o imposto total assim calculado pelo valor desse rendimento, para obteres a taxa média efetiva sobre ele — é só este número que deves comparar com 28%, nunca a taxa marginal nominal do escalão em que ficas. Nos dividendos com a redução a metade (mais abaixo), somas só metade no passo 2, mas divides pelo dividendo inteiro no passo 3. Quanto maior for o rendimento em jogo face ao teu rendimento de base, maior a probabilidade de ele atravessar mais do que um escalão, e mais a "regra rápida" te pode enganar.
Perto da fronteira de qualquer escalão, faz a conta exata em vez de te guiares por uma regra de bolso. Antes de submeteres a declaração de IRS no Portal das Finanças, simula o imposto com e sem a opção de englobamento assinalada sempre que o valor em jogo for significativo.
Até que valor compensa englobar: pontos de equilíbrio
Em vez de fazeres a conta à mão, podes começar por esta tabela. Para cada rendimento coletável de partida (antes de somares o rendimento que estás a decidir englobar), mostra o valor máximo da fatia que ainda deixa a taxa média sobre ela em 28% ou menos. Acima desse valor, ficar pela taxa especial sai mais barato.
| Rendimento coletável antes de englobar | Fatia máxima que ainda compensa | Total com a fatia |
|---|---|---|
| 5.000€ | ~41.100€ | ~46.100€ |
| 10.000€ | ~29.300€ | ~39.300€ |
| 15.000€ | ~17.300€ | ~32.300€ |
| 17.838€ | ~11.700€ | ~29.500€ |
| 20.000€ | ~7.000€ | ~27.000€ |
| 22.000€ | ~2.500€ | ~24.500€ |
| 23.089€ ou mais | 0€ | — |
Repara em duas coisas. A partir de 23.089€, o início do 5.º escalão, o valor é zero: qualquer fatia paga mais de 28%. E quanto mais baixo o rendimento de partida, maior a fatia que cabe abaixo dos 28%. Compara com o exemplo anterior: com 20.000€ de partida, uma mais-valia de 8.000€ ultrapassa o limite de cerca de 7.000€, e por isso a taxa média deu 28,4%.
Quanto está em jogo? Com um rendimento coletável de 15.000€, uma mais-valia de 2.000€ paga 21,2% em vez de 28%: poupas 136€. Se englobares quando não devias, o custo pode ser muito maior (ver o exemplo de rendimento alto mais abaixo).
Os valores estão arredondados às centenas e valem para um contribuinte isolado. Em tributação conjunta (explicada mais abaixo), escolhe a linha pelo rendimento coletável do casal dividido por dois e multiplica por dois a fatia que lá encontras: é esse o máximo para o casal. Um casal com 40.000€, por exemplo, usa a linha dos 20.000€ e pode englobar até cerca de 14.000€. A tabela não se aplica aos dividendos com a redução a metade descrita mais abaixo.
A tabela só compara o imposto sobre a fatia nos dois cenários. Só que englobar aumenta o teu rendimento coletável, e há regras do IRS que dependem dele. Duas delas: o teto global das deduções à coleta (o que abates ao imposto por despesas de saúde, educação, casa, lares, entre outras) não existe para quem fica no 1.º escalão, começa nos 2.500€ logo acima dele e desce até 1.000€ a partir de 80.000€ (n.º 7 do artigo 78.º do Código do IRS); e o limite da dedução das rendas da casa onde vives arrendado é mais alto para rendimentos coletáveis baixos e vai descendo à medida que o rendimento sobe (n.º 4 do artigo 78.º-E), até um mínimo de 900€ nos rendimentos de 2026 e de 1.000€ a partir de 2027 (n.º 10 do mesmo artigo). Se as tuas despesas já chegam a estes tetos, o custo real de englobar é maior do que o que a tabela mostra.
Há também um caso em que englobar pode poupar-te dinheiro fora desta conta. Para quem vive sobretudo de salário ou de pensão (e de algumas atividades por conta própria), o IRS abate ao rendimento um valor por mínimo de existência, que alivia o imposto de quem ganha pouco (o valor de referência é de 12.880€ em 2026, artigo 70.º do Código do IRS). O abatimento por mínimo de existência deixa de se aplicar quando a soma dos rendimentos não englobados e tributados a taxas liberatórias — como os juros e dividendos que deixaste ficar pelos 28% retidos, incluindo os dos dependentes da declaração — passa 14 vezes o IAS, o Indexante dos Apoios Sociais (o valor de referência de muitas prestações sociais e limites fiscais, que em 2026 é de 537,13€): o limite é de 7.519,82€ por cada contribuinte que entrega a declaração, ou 15.039,64€ num casal em tributação conjunta (alínea b) do n.º 4 do artigo 70.º). No quadro-resumo do mínimo de existência que publicou para os rendimentos de 2025, a Autoridade Tributária conta neste limite os rendimentos não englobados do artigo 71.º, os que tiveram retenção à taxa liberatória; as mais-valias de valores mobiliários e os juros e dividendos sem retenção em Portugal, que pagam a taxa autónoma de 28% do artigo 72.º, não aparecem nessa conta. Mas o efeito também pode ir no sentido oposto: se englobares, esses juros ou dividendos passam a contar nos rendimentos brutos com que o próprio abatimento é calculado, o que o pode reduzir ou anular — em 2026, deixa de se aplicar quando os rendimentos brutos passam 16.543,60€ por cada contribuinte que entrega a declaração (alínea a) do n.º 4 e alínea a) do n.º 5 do artigo 70.º). Se vives de um salário ou de uma pensão baixos e tens juros ou dividendos retidos acima de 7.519,82€, simula os dois cenários antes de decidir: aqui a diferença pode não estar na taxa, mas no abatimento.
Há ainda um motivo para englobar que a tabela não mostra e que vale em qualquer escalão: se no ano as tuas menos-valias (perdas) com ações, ETF, obrigações (empréstimos a um Estado ou a uma empresa, que pagam juro) ou derivados (produtos como opções ou futuros), seja qual for o tempo que os tiveste, ou com criptoativos detidos há menos de 365 dias (os detidos há mais tempo não contam, nem para ganhos nem para perdas) forem maiores do que as mais-valias, esse saldo negativo só pode ser reportado — isto é, abatido às mais-valias dos cinco anos seguintes — se optares por englobar ou fores obrigado a fazê-lo (alínea d) do n.º 1 do artigo 55.º e n.º 22 do artigo 10.º do Código do IRS). O artigo 55.º não diz o que acontece se, no ano em que queres usar a perda, ficares pelos 28%: se for esse o teu caso, confirma com a Autoridade Tributária antes de decidires. O guia de declarar investimentos no IRS explica o reporte com um exemplo.
Categoria E e Categoria G — decisões separadas
A opção de englobar é feita por categoria de rendimento, não de forma única para tudo. Rendimentos de capitais (juros, dividendos — Categoria E) e mais-valias (Categoria G) são categorias distintas, e podes decidir englobar uma sem englobar a outra, consoante o que fizer sentido para cada uma no teu caso concreto — mas dentro de cada categoria, a regra do "tudo ou nada" aplica-se à totalidade dos rendimentos dessa categoria nesse ano. Se investes em ETF que pagam dividendos (de distribuição), as distribuições também são rendimentos desta categoria, mas não contes com a redução a metade descrita a seguir: o artigo 40.º-A do Código do IRS dá-a aos lucros de empresas que pagam IRC (o imposto sobre os lucros das empresas), sem isenção, e aos das empresas da UE/EEE nas condições descritas a seguir; a fundos, a lei só a alarga em casos específicos, como alguns fundos portugueses de capital de risco, de créditos ou de recursos florestais, na parte relativa a dividendos (artigos 23.º e 24.º do Estatuto dos Benefícios Fiscais). Vale a pena leres acumulação ou distribuição? para perceberes o quadro completo antes de escolheres o produto.
Dividendos nacionais e da União Europeia — a exceção que muda a conta
Há uma exceção importante que muda a regra rápida "compara com 28%", específica de dividendos: se optares por englobar dividendos de ações de uma empresa com sede em Portugal, sujeita a IRC (o imposto sobre os lucros das empresas) e não isenta, só metade do valor recebido entra no teu rendimento coletável — benefício previsto no artigo 40.º-A do Código do IRS, que existe para atenuar a dupla tributação económica (a empresa já pagou IRC sobre esse lucro antes de o distribuir). O mesmo benefício também se aplica a dividendos de empresas residentes noutro Estado-membro da União Europeia ou do Espaço Económico Europeu (o EEE junta à UE a Islândia, o Liechtenstein e a Noruega). A empresa tem de cumprir as condições do artigo 2.º da Diretiva n.º 2011/96/UE — em resumo, ter uma das formas de sociedade ali previstas, ter domicílio fiscal nesse país e estar sujeita ao imposto sobre os lucros, sem opção e sem isenção — e tu tens de ter a prova que a lei exige: uma declaração confirmada e autenticada pelas autoridades fiscais do país de residência da empresa (n.os 4 e 5 do artigo 40.º-A; nos países do EEE fora da UE, só vale se cooperarem com Portugal em matéria fiscal nos mesmos termos que os países da UE). A lei pede que disponhas dessa prova, por isso guarda-a; e, como tem de ser confirmada pela administração fiscal de outro país, trata disso cedo. Sem ela, o dividendo entra pelo valor inteiro. Fora destes casos (dividendos de ações americanas, por exemplo), o benefício não se aplica: se optares por englobar, entram pelo valor total recebido.
Como só metade do dividendo entra na conta, a taxa efetiva sobre um dividendo englobado não passa de metade da taxa marginal mais alta que atinges — mesmo no pior caso possível (48% no topo da tabela, mais 5% de taxa adicional de solidariedade), fica em 26,5%, ainda abaixo dos 28% da taxa especial. Na prática, para dividendos isolados de ações de empresas portuguesas ou da UE/EEE, e nestas últimas desde que tenhas a declaração das autoridades fiscais do país da empresa, englobar raramente sai pior do que ficar pela taxa especial, em qualquer escalão — o que muda a conta é juntares esse dividendo a rendimentos de capitais que entram pelo valor inteiro (juros, distribuições de ETF e dividendos de fora da UE/EEE, ou da UE/EEE sem a declaração) na mesma opção de englobamento, porque a opção é "tudo ou nada" dentro da Categoria E.
Tudo ou nada, dentro da mesma categoria
A opção aplica-se à totalidade dos rendimentos da categoria (n.º 5 do artigo 22.º do Código do IRS): não podes englobar só os dividendos de uma ação e deixar de fora os de outra, nem só parte das tuas mais-valias. O englobamento é opcional, mas convém que a escolha fique certa antes de acabar o prazo de entrega. Depois de entregares a declaração, podes corrigi-la com uma declaração de substituição, que serve para corrigir erros, seja nos factos declarados, seja na aplicação da lei (n.º 3 do artigo 59.º do Código de Procedimento e de Processo Tributário, o CPPT). Enquanto decorre o prazo de entrega, podes substituí-la esteja ela em que fase estiver. Depois do prazo, o tempo que tens depende de a correção dar mais ou menos imposto (os prazos estão no guia de declarar investimentos no IRS), pode haver coima, e o artigo 59.º do CPPT não diz se mudar de ideias sobre o englobamento conta como erro.
Onde assinalas a opção na declaração
A opção exerce-se no Modelo 3 (o formulário da declaração de IRS), no anexo que corresponde ao rendimento. Qual anexo depende da sede da entidade que paga ou emite, não da corretora onde compras (ver declarar investimentos no IRS).
| Rendimento | Anexo | Onde marcar a opção |
|---|---|---|
| Juros e dividendos pagos por entidades com sede em Portugal | Anexo E | Quadro 4, bloco "Opção pelo englobamento": campo 01 (Sim) ou 02 (Não), para os rendimentos sem retenção em Portugal, que vão ao quadro 4A (art. 72.º). Os que tiveram retenção à taxa liberatória (art. 71.º), como os juros de um banco português, só se declaram se os quiseres englobar, e nesse caso vão ao quadro 4B |
| Juros e dividendos obtidos no estrangeiro | Anexo J | Quadro 8B: campo 01 (Sim) ou 02 (Não) |
| Mais-valias de ações, ETF e outros valores mobiliários de emitentes portugueses | Anexo G | Operações no quadro 9; opção no quadro 15: campo 01 (Sim) ou 02 (Não) |
| Mais-valias de valores mobiliários de emitentes estrangeiros | Anexo J | Quadro 9.2C (opção de englobamento): campo 01 (Sim) ou 02 (Não) |
A numeração dos quadros pode mudar de um ano para o outro, por isso confirma-a nas instruções do modelo do ano a que a declaração respeita. A opção é uma só por categoria: se englobas rendimentos de capitais, englobas todos, em todos os anexos onde aparecem — no Anexo E, pelo quadro 4B e, se tiveres rendimentos no 4A, com "Sim" no campo 01; no Anexo J, com "Sim" no quadro 8B. O mesmo vale para as mais-valias (G e J). Ao assinalares "Sim" no quadro 15 do Anexo G, ficas obrigado a englobar a totalidade dos rendimentos da Categoria G desse ano (n.º 5 do artigo 22.º do Código do IRS).
Casado ou em união de facto? O quociente conjugal muda os números
Se o casal optar por entregar a declaração em conjunto (tributação conjunta), em vez de cada um entregar a sua (tributação separada), os escalões não se aplicam diretamente à soma dos dois rendimentos — aplica-se o quociente familiar do artigo 69.º do Código do IRS (muitas vezes chamado quociente conjugal): soma-se o rendimento coletável de ambos, divide-se por dois, aplica-se a tabela de escalões a esse valor reduzido a metade, e o imposto resultante é depois multiplicado por dois. O artigo 68.º-A aplica o mesmo mecanismo à taxa adicional de solidariedade: em tributação conjunta, o cálculo faz-se sobre metade do rendimento coletável e o imposto obtido é multiplicado por dois.
Um casal com rendimentos combinados de 46.000€ (23.000€ cada, hipoteticamente) não está, para efeitos de escalão, a ser tratado como se um só contribuinte tivesse 46.000€ — está a ser tratado como se tivesse metade disso, 23.000€, ainda dentro do 4.º escalão (24,1%). Isto significa que o "ponto de viragem" onde a taxa marginal ultrapassa os 28% chega, na prática, a um rendimento coletável combinado bem mais alto do que os limiares que valem para quem entrega sozinho. Se optaste por tributação conjunta e estás a decidir se englobas um dividendo ou uma mais-valia, faz sempre a simulação com o rendimento coletável combinado do casal, dividido por dois, antes de concluíres — usar só o teu rendimento individual, ou só a soma bruta sem dividir, dá-te um resultado errado em qualquer uma das direções (para saber se és obrigado a englobar, a regra é outra: ver a caixa seguinte).
O Código do IRS não diz expressamente como o limiar de 86.634€ do englobamento obrigatório (explicado na secção seguinte) se conta quando o casal opta pela tributação conjunta, mas a Autoridade Tributária já respondeu: conta o rendimento coletável de quem, no casal, é titular das mais-valias, com a mais-valia incluída, e não o rendimento do casal dividido por dois (informação vinculativa no processo n.º 25182, de 24 de maio de 2024). Um tribunal arbitral do CAAD (o Centro de Arbitragem Administrativa, onde se resolvem litígios com o Fisco) decidiu no mesmo sentido em 2025 (processo n.º 1382/2024-T). Na prática, a declaração conjunta não afasta o englobamento obrigatório: se tens 75.000€ de rendimento coletável e vendes com 15.000€ de ganho ações detidas há seis meses, chegas a 90.000€ e englobas esses 15.000€, mesmo que o teu cônjuge tenha 20.000€ e o rendimento do casal dividido por dois fique em 55.000€. Depois de englobados, o imposto do casal continua a calcular-se com o quociente conjugal, como na caixa anterior.
Quando o englobamento deixa de ser opção tua
Há um cenário em que o englobamento passa a ser obrigatório, independentemente da tua vontade (o guia de declarar investimentos no IRS trata-o em detalhe): quando o saldo entre ganhos e perdas (mais-valias e menos-valias) com valores mobiliários — ações, obrigações, unidades de participação em fundos (as partes de um fundo que compras) — resulta de ativos detidos há menos de 365 dias, e o teu rendimento coletável, incluindo esse saldo, é igual ou superior ao valor do último escalão de IRS — 86.634€ nos rendimentos de 2026, declarados em 2027 (n.º 14 do artigo 72.º do Código do IRS). Nesse caso específico, mesmo rendimentos altos que normalmente prefeririam a taxa especial acabam obrigados a pagar às taxas progressivas, que nesse escalão chegam aos 48% (mais a taxa adicional de solidariedade, se aplicável). A regra não abrange imóveis, derivados nem criptoativos que não sejam valores mobiliários (ver declarar criptomoedas no IRS).
Um exemplo prático de decisão, lado a lado
Alguém com rendimento coletável total de 15.000€ (sem contar a mais-valia) e mais-valias de 2.000€ em ações admitidas à negociação (cotadas em bolsa, por exemplo), detidas há três anos: sem englobar, paga 28% sobre os 2.000€ (560€). Englobando, esse valor soma-se ao rendimento total (17.000€), ficando ainda dentro do 3.º escalão (taxa marginal 21,2%) — pagaria 424€ sobre essa parcela, uma poupança real de englobar neste caso. Nas mais-valias de valores mobiliários admitidos à negociação e de partes de fundos abertos (aqueles em que podes pedir ao fundo o resgate das tuas partes) — as ações admitidas à negociação e os ETF que sejam fundos UCITS (os que cumprem as regras europeias dos fundos harmonizados), por exemplo — parte do rendimento fica ainda excluída de tributação consoante o período de detenção: 10% se for superior a 2 anos e inferior a 5, 20% se for igual ou superior a 5 anos e inferior a 8, e 30% se for igual ou superior a 8 (artigo 43.º, n.º 5, do Código do IRS). Os 560€ e os 424€ acima estão calculados antes dessa exclusão; com os 10% deste caso ficariam 504€ e 381,60€ — a mesma proporção e a mesma conclusão.
Alguém com rendimento coletável de 45.000€ e a mesma mais-valia de 2.000€: sem englobar, paga os mesmos 28% (560€). Englobando, essa fatia de 2.000€ atravessa a fronteira dos 46.566€: os primeiros 1.566€ ficam ainda no 7.º escalão (43,1% = 674,95€) e os últimos 434€ já caem no 8.º escalão (44,6% = 193,56€) — total de 868,51€, uma taxa média de 43,43% sobre a fatia. Claramente pior do que ficar pela taxa especial.
Como decidir na prática
- Soma o teu rendimento coletável total esperado para o ano, sem contar ainda os rendimentos que estás a decidir englobar (se casado em tributação conjunta, soma o do casal).
- Se optaste por tributação conjunta, divide por dois esse valor e também o valor da fatia que vais somar; a conta seguinte faz-se com os dois já divididos.
- A partir desse ponto, soma o rendimento que estás a decidir englobar, fatia a fatia, verificando se atravessa mais do que um escalão. Para dividendos de empresas portuguesas, ou da UE/EEE com a declaração das autoridades fiscais do país da empresa, a fatia a somar é metade do dividendo (já dividido por dois, se for tributação conjunta); compara o imposto resultante com 28% do dividendo inteiro (também já dividido por dois, se for o caso).
- Calcula a taxa média efetiva: imposto da fatia ÷ valor do rendimento que estás a decidir englobar (nos dividendos com a redução a metade, o dividendo inteiro, e não a metade que somaste) — não te fiques pela taxa nominal do escalão em que ficas.
- Se essa taxa média for claramente inferior a 28%, englobar tende a compensar; se for igual ou superior, tende a não compensar.
- Se as tuas deduções já chegam ao teto (saúde, educação, casa, lares, rendas), ou se vives de um salário ou de uma pensão baixos e tens mais de 7.519,82€ de juros ou dividendos retidos, simula também o efeito nas deduções e no mínimo de existência: aí o resultado pode mudar por causa deles, e não da taxa. E se no ano tiveste mais perdas do que ganhos em mais-valias, lembra-te de que só as reportas para os anos seguintes se englobares.
- Depois de dividires por dois (se for tributação conjunta), se o valor se aproximar dos 80.000€, soma a taxa adicional de solidariedade à simulação.
- Confirma se não cais, de qualquer forma, no cenário de englobamento obrigatório (ver a secção acima) — nesse caso a decisão deixa de ser tua.
- Em caso de dúvida perto da fronteira, simula ambos os cenários na própria aplicação do IRS antes de submeteres — até ao fim do prazo de entrega ainda podes entregar uma declaração de substituição; depois disso, as condições apertam (ver mais acima a secção sobre o tudo ou nada).
Checklist antes de decidires
- Sabes o teu rendimento coletável total esperado, sem contar o rendimento que estás a decidir englobar?
- Se optaste por tributação conjunta, já dividiste o rendimento combinado por dois antes de olhar para os escalões?
- Calculaste a taxa média efetiva sobre a fatia exata do rendimento que estás a decidir englobar — não apenas a taxa nominal do escalão em que ficas?
- Confirmaste se essa fatia atravessa mais do que um escalão, o que muda a taxa média real?
- Percebeste que o IRS é calculado por fatias, não pela taxa do escalão mais alto sobre o total?
- Se te aproximas dos 80.000€ (depois de dividir por dois, em tributação conjunta), contaste a taxa adicional de solidariedade?
- Sabes se estás a decidir sobre Categoria E, Categoria G, ou ambas separadamente?
- Confirmaste se cais no cenário de englobamento obrigatório (valores mobiliários detidos há menos de 365 dias + rendimento coletável que atinge ou ultrapassa 86.634€, nos rendimentos de 2026; em tributação conjunta, conta o rendimento coletável de quem vendeu, não metade do casal)?
- Confirmaste o efeito de englobar no teto das deduções e no mínimo de existência (que englobar tanto pode fazer-te recuperar como perder)?
- Nos dividendos de empresas de outro país da UE/EEE, tens a declaração das autoridades fiscais desse país?
- Se no ano tiveste mais perdas do que ganhos em mais-valias, sabes que só as reportas para os anos seguintes se englobares?
- Se resides na Madeira ou nos Açores, fizeste a conta com a tabela de IRS da tua região e comparaste com a taxa que se aplica a ti em vez dos 28%?
- Simulaste os dois cenários (com e sem englobamento) diretamente na aplicação do IRS antes de submeter?
Próximos passos
Para dividendos de ações de empresas portuguesas ou da UE/EEE, lembra-te primeiro da exceção: como só metade entra na conta, englobar quase sempre compensa, se não tiveres a somar outros rendimentos de capitais que entrem pelo valor inteiro (juros, distribuições de ETF, dividendos de fora da UE/EEE) — e, nos da UE/EEE, se tiveres a declaração das autoridades fiscais do país da empresa.
Para juros e mais-valias, ou dividendos de fora da UE/EEE, se o valor em jogo for pequeno (algumas dezenas ou centenas de euros), a regra rápida deste guia é suficiente: compara o teu escalão com 28%.
Se o valor for grande, sobretudo perto de uma fronteira de escalão, dos 80.000€ da taxa de solidariedade ou dos 86.634€ do englobamento obrigatório, faz o cálculo preciso da fatia. E simula sempre os dois cenários na aplicação do IRS antes de submeteres, porque, depois de entregares, mudar a opção passa por uma declaração de substituição. Se ainda não sabes se a tua situação cai no englobamento obrigatório, ou se investes através de corretora estrangeira e tens dúvidas sobre o que declarar, o guia de declarar investimentos no IRS cobre esse terreno em detalhe.
Perguntas frequentes
Posso englobar só os dividendos e deixar as mais-valias de fora? Sim. A opção é feita por categoria: dividendos e juros são Categoria E, mais-valias são Categoria G, e podes englobar uma sem a outra. Dentro de cada categoria, porém, é tudo ou nada: se englobares os dividendos, englobas também os juros, e o mesmo vale para as mais-valias entre si.
Posso mudar de ideias depois de entregar a declaração? A declaração de substituição serve para corrigir erros, nos factos declarados ou na aplicação da lei. Enquanto decorre o prazo de entrega, podes entregá-la esteja a que entregaste em que fase estiver. Depois do prazo, o tempo que tens depende de a correção dar mais ou menos imposto e pode haver coima. O artigo 59.º do Código de Procedimento e de Processo Tributário não diz se mudar de ideias sobre o englobamento conta como erro. Por isso, simula os dois cenários na aplicação do IRS antes de submeter.
Se englobar, o que acontece aos 28% que o banco já reteve? Se a retenção foi feita em Portugal, fica a contar como adiantamento do imposto final, o chamado pagamento por conta (n.º 10 do artigo 71.º do Código do IRS). Se o imposto calculado pelas taxas progressivas for menor do que o retido, recebes a diferença em reembolso; se for maior, pagas o resto. Quando os rendimentos chegam através de uma corretora estrangeira sem presença em Portugal, não há retenção cá para descontar e o imposto é todo apurado na declaração.
Quanto perco em impostos se englobar quando não devia? Depende do tamanho da fatia e do escalão. Numa mais-valia de 2.000€ somada a um rendimento de 45.000€, a fatia paga 868,51€ em vez dos 560€ da taxa de 28%: são 308,51€ a mais, uma taxa média de 43,43%.
Sou casado: conta o rendimento do casal ou só o meu? Em tributação conjunta, o cálculo faz-se sobre metade do rendimento coletável do casal (e sobre metade da fatia), e o imposto resultante é multiplicado por dois. Em tributação separada, cada um usa apenas o seu rendimento. Há uma exceção: para saber se cais no englobamento obrigatório (os 86.634€), a Autoridade Tributária conta o rendimento coletável de quem vendeu, com a mais-valia incluída, e não metade do rendimento do casal.
Os juros do depósito e os dividendos contam como a mesma coisa? Para efeitos da opção, sim: ambos são rendimentos de capitais (Categoria E) e entram na mesma decisão de tudo ou nada. Mas não pesam da mesma forma na conta: nos dividendos de empresas portuguesas que pagam IRC, e nos de empresas da UE/EEE quando tens a declaração das autoridades fiscais do país da empresa, só metade do valor entra no rendimento coletável; nos juros e nos restantes dividendos (de fora da UE/EEE, ou da UE/EEE sem essa declaração), entra o valor inteiro.
A partir de que escalão deixa de compensar englobar? Para juros, mais-valias e dividendos sem a redução a metade (os de fora da UE/EEE, por exemplo), com as taxas de 2026 do continente, a partir de um rendimento coletável de 23.089€ (o início do 5.º escalão, com taxa de 31,1%) já não compensa, porque a taxa é superior aos 28%. No 4.º escalão depende do tamanho da fatia que somas — a tabela de pontos de equilíbrio dá o limite para cada ponto de partida — e nos três primeiros compensa quase sempre. Nos dividendos de empresas portuguesas, e nos da UE/EEE quando tens a declaração das autoridades fiscais do país da empresa, só metade conta, e por isso englobar raramente sai pior, em qualquer escalão. E se no ano tiveres mais perdas do que ganhos em mais-valias, só podes abater esse saldo negativo às mais-valias dos anos seguintes se englobares.
Quando é que englobar deixa de ser uma escolha minha? Quando o saldo entre ganhos e perdas (mais-valias e menos-valias) com valores mobiliários resulta de ativos detidos há menos de 365 dias e o teu rendimento coletável, incluindo esse saldo, é igual ou superior a 86.634€ nos rendimentos de 2026. Nesse caso o saldo é englobado obrigatoriamente (n.º 14 do artigo 72.º do Código do IRS).
Fontes e referências
Consultadas em setembro e outubro de 2026. As ligações apontam para a versão em vigor à data; confirma sempre a versão mais recente antes de decidires.
- Autoridade Tributária — Código do IRS, versão consolidada (última atualização: Lei n.º 26/2026, de 3 de junho), em especial o art. 68.º (escalões de IRS) e o art. 68.º-A (taxa adicional de solidariedade) (Portal das Finanças)
- Autoridade Tributária — Código do IRS, art. 72.º, n.os 1 e 14 (taxa autónoma de 28% e englobamento obrigatório do saldo de mais-valias de valores mobiliários detidos há menos de 365 dias) (Portal das Finanças)
- Autoridade Tributária — Código do IRS, art. 71.º, n.º 10 (retenção na fonte como pagamento por conta do imposto devido) (Portal das Finanças)
- Autoridade Tributária — Código do IRS, art. 40.º-A (dividendos englobados: só metade entra no rendimento coletável) (Portal das Finanças)
- Autoridade Tributária — Código do IRS, art. 43.º, n.º 5 (exclusão parcial das mais-valias conforme o tempo de detenção) (Portal das Finanças)
- Autoridade Tributária — Código do IRS, art. 22.º, n.º 5 (quem opta pelo englobamento fica obrigado a englobar a totalidade dos rendimentos da mesma categoria) e art. 69.º (quociente familiar: a divisão por dois na tributação conjunta) (Portal das Finanças)
- Autoridade Tributária — Código do IRS, art. 71.º, n.os 1, 9 e 17, e art. 72.º, n.os 1, 13 e 18 (taxa liberatória com retenção em Portugal, taxa autónoma sem retenção, âmbito da opção pelo englobamento e taxa agravada de 35%) (Portal das Finanças)
- Autoridade Tributária — Código do IRS, art. 78.º, n.º 7, e art. 78.º-E, n.os 4 e 10, com as normas transitórias do art. 3.º da Lei n.º 36/2024 e do art. 15.º do Decreto-Lei n.º 97/2026 reproduzidas na versão consolidada (limites das deduções à coleta que variam com o rendimento coletável), art. 70.º, n.os 1, 2, 4 e 5 (mínimo de existência), e art. 55.º, n.º 1, alínea d) (reporte do saldo negativo das mais-valias), e art. 10.º, n.º 22 (criptoativos detidos 365 dias ou mais ficam fora das mais-valias) (Portal das Finanças)
- Autoridade Tributária — Estatuto dos Benefícios Fiscais, versão consolidada (última atualização: Decreto-Lei n.º 167/2026, de 17 de agosto), art. 22.º-A, n.º 1, alínea b), e n.º 2 (retenção no resgate de fundos constituídos em Portugal), e arts. 23.º, n.º 6, e 24.º, n.º 6 (redução a metade nas distribuições de alguns fundos portugueses) (Portal das Finanças)
- Autoridade Tributária — informação vinculativa no processo n.º 25182, de 24 de maio de 2024: na tributação conjunta, o limiar do englobamento obrigatório do artigo 72.º, n.º 14, do Código do IRS afere-se pelo rendimento coletável do sujeito passivo titular das mais-valias (PDF, Portal das Finanças)
- Centro de Arbitragem Administrativa (CAAD) — decisão arbitral no processo n.º 1382/2024-T, de 2025: o critério é o rendimento coletável individual do titular das mais-valias, e não o rendimento dividido pelo quociente conjugal (PDF, CAAD)
- Autoridade Tributária — "Deduções, benefícios fiscais e taxas para rendimentos de 2025", quadro-resumo do mínimo de existência (artigo 70.º, n.º 6, do Código do IRS), que conta no limite da alínea b) do n.º 4 os rendimentos não englobados do artigo 71.º (Portal das Finanças)
- Conselho da União Europeia — Diretiva n.º 2011/96/UE, de 30 de novembro (regime das sociedades-mães e afiliadas), cujo art. 2.º define os requisitos exigidos pelo art. 40.º-A, n.º 4, do Código do IRS (EUR-Lex, versão consolidada)
- EFTA — Acordo sobre o Espaço Económico Europeu, que junta os Estados-membros da UE à Islândia, ao Liechtenstein e à Noruega (efta.int)
- Autoridade Tributária — Código de Procedimento e de Processo Tributário, art. 59.º, n.º 3 (declaração de substituição) (Portal das Finanças)
- Assembleia da República — Lei n.º 73-A/2025, de 30 de dezembro (Orçamento do Estado para 2026), que fixa os escalões usados neste guia (Diário da República)
- Ministério das Finanças — Portaria n.º 104/2026/1, de 5 de março, que aprova o novo modelo do Anexo J e novas instruções de preenchimento dos anexos E e G (modelos mantidos em vigor), com efeitos a 1 de janeiro de 2026 (Diário da República)
- Autoridade Tributária — Modelo 3 de IRS e instruções de preenchimento: Anexo E (modelo em vigor desde janeiro de 2024), Anexo G (desde janeiro de 2025) e Anexo J (desde janeiro de 2026)
- Ministérios das Finanças e do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social — Portaria n.º 480-A/2025/1, de 30 de dezembro, que fixa o valor do Indexante dos Apoios Sociais para 2026 em 537,13€ (artigo 2.º) (Diário da República)
- Região Autónoma da Madeira — Decreto Legislativo Regional n.º 8/2025/M, de 30 de dezembro (Orçamento da Região para 2026), artigo 18.º, que dá nova redação ao artigo 2.º do Decreto Legislativo Regional n.º 3/2001/M (tabela de taxas de IRS para os residentes na Madeira) (Diário da República)
- Região Autónoma da Madeira — Decreto Legislativo Regional n.º 6/2024/M, de 29 de julho, artigo 18.º, que dá nova redação ao artigo 4.º do Decreto Legislativo Regional n.º 3/2001/M (redução de 30% nas taxas liberatórias do artigo 71.º do Código do IRS, com exceções, a partir de 1 de janeiro de 2025; as restantes taxas de IRS mantêm-se enquanto não forem expressamente reduzidas) (Diário da República), com a numeração do Decreto Legislativo Regional n.º 2/2025/M, de 2 de julho, artigo 17.º (AT-RAM)
- Região Autónoma dos Açores — Decreto Legislativo Regional n.º 2/99/A, de 20 de janeiro, art. 4.º, n.os 1 e 2, alínea a), com o n.º 1 na redação do art. 47.º do Decreto Legislativo Regional n.º 15-A/2021/A, de 31 de maio, com efeitos desde 1 de janeiro de 2022 (art. 93.º, alínea a)): redução de 30% das taxas nacionais do IRS devido por quem é fiscalmente residente nos Açores (Diário da República)
- Autoridade Tributária — Informação vinculativa, processo 25858, despacho de 20 de maio de 2024 (redução de 30% da taxa liberatória para residentes nos Açores, artigo 4.º do Decreto Legislativo Regional n.º 2/99/A, num caso de Certificados de Aforro: prova da residência, englobamento ou reclamação graciosa, pontos 7 a 11) (Portal das Finanças)
- Autoridade Tributária — "Tributação de produtos financeiros em sede de IRS" (outubro de 2023), notas sobre a taxa de 19,6% para residentes nos Açores nos juros, dividendos e mais-valias (Portal das Finanças)
- Governo — Comunicado do Conselho de Ministros de 17 de setembro de 2026 (proposta de lei que autoriza o Governo a reduzir as taxas de IRS até ao 6.º escalão) (portugal.gov.pt) e documento "Redução IRS 2026 — Novas taxas, poupança anual e poupança acumulada", com as taxas propostas (PDF)
- Autoridade Tributária — Portal das Finanças, entrega da declaração de IRS (Modelo 3), com simulação do imposto antes de submeter
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