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Declarar investimentos no IRS

36 min de leitura · atualizado outubro de 2026

resumo em 60 segundos

A mais-valia, o lucro ao vender ações, obrigações ou ETF (fundos cotados em bolsa), paga por defeito 28% sobre o saldo do ano: ganhos menos perdas. Em títulos cotados ou fundos abertos (onde se entra e sai a qualquer momento) detidos há mais de dois anos, 10%, 20% ou 30% do ganho fica fora do imposto, consoante o prazo. O anexo e o quadro (a folha e o bloco da declaração) dependem do país de quem emitiu o título: português, Anexo G; estrangeiro, como um ETF irlandês, Anexo J, Quadro 9.2A. Juntar a mais-valia ao resto do rendimento (o englobamento) é opcional. Passa a ser obrigatório se venderes títulos detidos há menos de 365 dias e, com essa mais-valia, o rendimento sobre o qual se calcula o teu IRS atingir 86.634€ (rendimentos de 2026). Perto desse valor, confirma a data de compra antes de venderes: pode valer milhares de euros. Se usas uma corretora estrangeira (a plataforma onde compras e vendes), tens em regra de identificar a conta no Anexo J, Quadro 11, mesmo sem rendimento: é só uma identificação, não gera imposto. As vendas e os dividendos de 2026 entram no IRS entregue de 1 de abril a 30 de junho de 2027.

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Vender ações, ETF ou obrigações, com ganho ou com perda, gera uma obrigação declarativa que muita gente só descobre em abril, ao preparar o IRS. As regras percebem-se bem. Mas há armadilhas para rendimentos mais altos, para quem compra a mesma ação em datas diferentes e para quem usa corretoras estrangeiras. Convém conhecê-las antes de venderes, não depois. Este guia junta o que costuma estar espalhado: onde declarar um ETF irlandês (Anexo J, Quadro 9.2A), como o FIFO decide o custo de cada venda, quando o englobamento deixa de ser opção tua e como declarar a conta numa corretora estrangeira.

Qual é o teu caso: anexo, quadro e taxa

Antes da teoria, a resposta que a maioria procura: para cada tipo de rendimento de investimento, onde vai no Modelo 3 (a declaração de IRS), com que código e o que acontece ao imposto. O Modelo 3 divide-se em anexos (folhas por tipo de rendimento) e cada anexo em quadros (blocos numerados). Uma unidade de participação é a "ação" de um fundo ou de um ETF.

Onde declarar cada rendimento de investimento no Modelo 3 — quadros e códigos dos anexos em vigor em setembro de 2026: Anexo J na versão de janeiro de 2026, Anexo G na de janeiro de 2025 e Anexo E na de janeiro de 2024
O que aconteceuAnexo e quadroCódigoTaxa e o que fazer
Vendeste ações de uma empresa portuguesaAnexo G, Quadro 9G0128% sobre o saldo anual; englobar opta-se no Quadro 15
Vendeste unidades de participação de um fundo ou ETF portuguêsAnexo G, Quadro 9G22Venda em mercado: 28% sobre o saldo anual. Resgate (a devolução das unidades à gestora do fundo, em vez de as vender em mercado): a gestora desconta logo 28% sobre o rendimento do resgate, já com a exclusão por período de detenção, e esse é o imposto final; só entra na declaração — no Quadro 10 — se optares por englobar, e nesse caso os 28% já descontados contam como adiantamento e abatem ao imposto apurado
Vendeste ações, obrigações ou um ETF ou fundo estrangeiro (por exemplo, um ETF domiciliado na Irlanda ou no Luxemburgo)Anexo J, Quadro 9.2AG01 ações, G10 obrigações, G20 fundos e ETF28% sobre o saldo anual; englobar opta-se no Quadro 9.2C; o imposto pago no estrangeiro tem coluna própria
Recebeste dividendos ou juros de fonte estrangeiraAnexo J, Quadro 8AE11 dividendos sem retenção em Portugal, E10 com retenção em Portugal, E21 juros sem retenção, E22 outros rendimentos de capitais sem retenção (é o que a Autoridade Tributária indica para as distribuições de fundos estrangeiros, como os ETF, sem retenção em Portugal)28%; rendimento bruto e imposto pago no estrangeiro em colunas separadas; englobar opta-se no Quadro 8B
Recebeste dividendos de uma empresa portuguesaAnexo E, Quadro 4A (sem retenção) ou 4B (com retenção, só se englobares)E1028%; se o banco já reteve e não englobas, não há mais nada a declarar
Tens uma conta de depósitos ou de títulos numa corretora ou banco estrangeiroAnexo J, Quadro 11IBAN e BIC da contaSem imposto; em regra, identificação obrigatória mesmo sem rendimento
Instruções dos Anexos E, G e J do Modelo 3, Autoridade Tributária e Aduaneira. O regime do resgate de unidades de participação de fundos portugueses está no artigo 22.º-A, n.os 1, alínea b), e 2, do Estatuto dos Benefícios Fiscais.

Se só tens ETF de acumulação (que reinvestem os dividendos em vez de os pagar) numa corretora estrangeira, os dois quadros que te dizem respeito são o 9.2A, no ano em que vendes, e o 11, todos os anos. Os detalhes de cada linha estão nas secções seguintes. (IBAN e BIC são os códigos internacionais que identificam a conta e o banco, respetivamente.)

A regra geral: taxa especial de 28%

Por defeito, as mais-valias resultantes da venda de valores mobiliários (ações, ETF, obrigações, unidades de participação em fundos) são tributadas a uma taxa especial de 28%, aplicada diretamente sobre o saldo anual líquido desta categoria de rendimento (Categoria G, a que reúne as mais-valias), sem entrar no cálculo do teu rendimento global — artigo 72.º do Código do IRS. O que se tributa é o saldo anual líquido: o total do ano, isto é, a soma de todas as mais-valias menos todas as menos-valias (perdas na venda) de valores mobiliários que realizaste nesse ano, e não cada operação isoladamente. Isto acontece automaticamente, quer optes por englobar quer fiques pelos 28%: as perdas do ano abatem aos ganhos do ano, porque o que se tributa é o saldo entre uns e outros, com a exceção que se segue.

A lei tira desse saldo as perdas de operações em que a outra parte do negócio (a contraparte) está sujeita a um regime fiscal claramente mais favorável — uma jurisdição de tributação muito baixa, em regra uma das que constam de uma lista oficial aprovada por portaria, os chamados paraísos fiscais (artigo 43.º, n.º 7, do Código do IRS). E há um caso com taxa diferente: o reembolso de obrigações e o resgate ou liquidação de unidades de participação em fundos, quando o emitente está domiciliado num país, território ou região com um regime fiscal claramente mais favorável (a mesma lista, aprovada por portaria do Ministro das Finanças), são tributados a 35% e ficam de fora da exclusão por período de detenção explicada mais à frente (artigo 72.º, n.º 18, alínea b), e artigo 43.º, n.º 5, do Código do IRS). O que decide é o domicílio do emitente: antes de resgatares, confirma que esse país não consta dessa lista. A Irlanda e o Luxemburgo, os países dos ETF de que este guia fala, não constam da lista em vigor em 2026. Se estiveres a comprar ações individuais em vez de ETF, a fiscalidade das mais-valias é igual — o que muda é a análise que precisas de fazer antes de comprares: o guia como analisar uma ação trata-a em detalhe e é enviado em PDF, por email.

exemplo calculado — compensação de ganhos e perdas no mesmo ano

Em 2026, vendes ações da Empresa A com uma mais-valia de 3.000€, e ações da Empresa B com uma menos-valia de 1.200€ — ambas as posições compradas há menos de dois anos, por isso ainda sem exclusão por período de detenção. O saldo anual da Categoria G é 3.000€ − 1.200€ = 1.800€. É sobre este valor líquido, não sobre os 3.000€ da operação isolada, que incide o imposto — 28% de 1.800€ = 504€, em vez dos 840€ que pagarias se a compensação não existisse. Se os títulos tivessem sido detidos entre dois e cinco anos, a exclusão de 10% do artigo 43.º, n.º 5, aplicava-se a este mesmo saldo e o imposto descia para 453,60€. O que precisa de opção pelo englobamento é apenas reportar um saldo negativo (perda) para anos seguintes, como vais ver mais à frente.

Como se calcula a mais-valia de cada título — o método FIFO

Quando compraste a mesma ação ou ETF em datas diferentes, a preços diferentes, e depois vendes só parte da posição, qual compra é considerada vendida? A lei responde com uma regra fixa, não com uma escolha tua: o artigo 43.º, n.º 8, alínea d), do Código do IRS determina que, para valores mobiliários da mesma natureza e que confiram idênticos direitos, se consideram vendidos primeiro os títulos adquiridos há mais tempo — o método conhecido internacionalmente como FIFO ("first in, first out"). Não podes escolher vender "as compras mais caras primeiro" para reduzir a mais-valia, mesmo que isso te fosse fiscalmente mais vantajoso — a ordem é sempre cronológica, da compra mais antiga para a mais recente. Repara ainda que esta ordem se aplica por instituição financeira (artigo 43.º, n.º 9): se tens a mesma ação espalhada por duas corretoras diferentes, o FIFO conta-se separadamente em cada uma, não como se fosse uma posição única.

exemplo calculado — FIFO na prática

Compraste 100 ações de uma empresa em março de 2023, a 10€ cada (1.000€ investidos, mais 5€ de comissão = 1.005€ de custo total). Em junho de 2024, compraste mais 50 ações da mesma empresa, a 14€ cada (700€ + 4€ de comissão = 704€). Em fevereiro de 2026, vendes 80 ações a 20€ cada (1.600€ − 6€ de comissão de venda = 1.594€ líquidos). Pelo método FIFO, as 80 ações vendidas correspondem às primeiras compradas — as de março de 2023. Custo de aquisição proporcional: 80 × (1.005€ ÷ 100) = 804€. Mais-valia bruta: 1.594€ − 804€ = 790€. (Uma simplificação a favor da prudência: se forem ações de uma empresa portuguesa, declaradas no Anexo G, quadro 9, como ficaram mais de 24 meses na tua posse, a liquidação corrige ainda o valor de aquisição por um coeficiente de correção monetária, fixado todos os anos em portaria (artigo 50.º, n.º 1, do Código do IRS). Isso pode reduzir um pouco a mais-valia e o imposto reais face aos deste exemplo. A 4 de outubro de 2026, a portaria com os coeficientes das vendas feitas nesse ano ainda não tinha sido publicada. Para ETF e outros fundos de ações ou de obrigações (Anexo G, código G22, ou Anexo J, código G20), e para os títulos estrangeiros declarados no Anexo J, as instruções da Autoridade Tributária não dizem que a liquidação aplica esta correção. A lei não distingue ações portuguesas de estrangeiras; a diferença está só no que as instruções dizem sobre o cálculo automático.) Como estas ações estiveram detidas há mais de 2 e menos de 5 anos (março de 2023 a fevereiro de 2026, cerca de 2 anos e 11 meses), uma parte da mais-valia deixa de ser tributada: é a exclusão parcial de tributação, de 10% neste escalão de detenção, prevista no artigo 43.º, n.º 5, alínea a), do Código do IRS para valores mobiliários admitidos à negociação e partes de fundos abertos: a mais-valia tributável passa a 790€ × 90% = 711€, sujeita a 28% = 199,08€ de imposto — não os 221,20€ que sairiam sem esta exclusão. (A exclusão é de 20% a partir de 5 anos de detenção e antes dos 8, e de 30% a partir de 8 anos.) Como as ações vendidas foram compradas há mais de 365 dias, esta operação nunca entraria no cenário de englobamento obrigatório por detenção curta, mesmo que o teu rendimento total fosse elevado.

porque é que a ordem das compras conta

O método FIFO afeta duas coisas: o valor exato da mais-valia tributável (porque o custo de aquisição usado depende de qual compra conta como vendida) e o prazo de detenção da venda, que, sendo inferior a 365 dias, pode desencadear o englobamento obrigatório. Se fazes compras regulares da mesma ação ou ETF (por exemplo, via plano de investimento automático), mantém sempre um registo cronológico completo de cada compra (data, quantidade e preço), porque é a ordem cronológica, e não a que te parece, que determina o cálculo correto.

Onde declarar

O anexo certo depende de onde está sediado o emitente do título, não de onde está a tua corretora. Se o título for de um emitente português (ação de empresa portuguesa, ou um OIC (organismo de investimento coletivo, o nome legal de um fundo) constituído segundo a lei portuguesa), preenches o Anexo G, quadro 9, com o NIF português da entidade emitente (código G01 para ações, G22 para unidades de participação). Se o título for de um emitente estrangeiro — o que inclui os ETF domiciliados na Irlanda ou no Luxemburgo, como o VWCE e o IWDA, e qualquer ação estrangeira, mesmo comprada através de uma corretora portuguesa — preenches o Anexo J, quadro 9.2A (código G20 para unidades de participação de OIC, G01 para ações, G10 para obrigações), identificando o país do emitente. Em qualquer um dos dois casos, identificas os títulos vendidos, com data e valor de aquisição, data e valor de realização (venda), e as despesas e encargos associados a ambas as operações — comissões de compra e venda, taxas de bolsa e de corretagem, que reduzem a mais-valia tributável (como viste no exemplo acima). A maioria dos intermediários financeiros e corretoras fornece anualmente uma declaração com todo este detalhe já compilado — pede-a, em vez de tentares reconstruir o histórico de memória, sobretudo se tens posições com várias compras ao longo dos anos. (Os quadros e códigos deste guia são os dos formulários usados para declarar os rendimentos de 2025, entregues em 2026, ao abrigo da Portaria n.º 104/2026/1, de 5 de março: o Anexo J na versão em vigor a partir de janeiro de 2026, e os Anexos G e E nas últimas versões publicadas, de janeiro de 2025 e de janeiro de 2024. A numeração dos quadros e a tabela de códigos podem mudar de ano para ano — confirma no modelo do ano em que entregares.) Se tens também criptoativos, as regras são diferentes das ações e ETF — consulta declarar criptomoedas no IRS antes de declarares.

exemplo calculado — ETF de acumulação: só declaras quando vendes

Compraste, em janeiro de 2020, 2.000€ de um ETF de acumulação irlandês (mais 5€ de comissão = 2.005€ de custo). Durante seis anos os dividendos ficaram dentro do fundo, por isso não há rendimento do ETF para declarar nesses anos — a conta na corretora estrangeira, essa, continua a ir ao Quadro 11 todos os anos. Em março de 2026 vendes tudo por 3.500€ (menos 5€ de comissão = 3.495€ líquidos). Mais-valia: 3.495€ − 2.005€ = 1.490€. Como detiveste o ETF há 5 anos ou mais e menos de 8, aplica-se a exclusão de 20% (artigo 43.º, n.º 5, alínea b), do Código do IRS): 1.490€ × 80% = 1.192€ tributáveis, e 28% de 1.192€ = 333,76€ de imposto, em vez dos 417,20€ que pagarias sem a exclusão. Declaras esta venda no IRS de 2026, entregue entre 1 de abril e 30 de junho de 2027, no Anexo J, Quadro 9.2A, código G20, com a Irlanda como país do emitente, e respondes "Sim" na coluna "Respeita a valores mobiliários admitidos à negociação ou a partes de OIC abertos?" — é essa resposta que aciona a exclusão parcial.

Quando declaras — e o que fazer se te enganaste

Os rendimentos de um ano civil declaram-se no IRS desse ano, entregue no ano seguinte: o que vendeste ou recebeste entre 1 de janeiro e 31 de dezembro de 2026 entra no IRS entregue de 1 de abril a 30 de junho de 2027 (artigo 60.º do Código do IRS). É por isso que o limiar de 86.634€ deste guia é o da tabela de 2026: aplica-se ao rendimento coletável do ano da venda, não ao do ano em que entregas a declaração.

Se em 30 de junho o imposto pago no estrangeiro ainda não estiver definitivo, o mesmo artigo permite comunicar essa situação à Autoridade Tributária (Modelo 49, ver a caixa sobre prazos mais à frente) e entregar a declaração até 31 de dezembro.

Se depois de entregar reparares num erro, como uma venda esquecida ou um valor de aquisição errado, corrige-o com uma declaração de substituição do Modelo 3 (uma nova declaração que substitui a anterior). Enquanto decorre o prazo de entrega podes substituí-la em qualquer caso, dê o acerto imposto a mais ou a menos. Depois do prazo, a janela depende do sentido do erro: se a correção aumenta o imposto ou reduz o reembolso, tens 30 dias seja qual for a situação da declaração e, se o erro te for imputável, até 60 dias antes do fim do prazo de caducidade; se a correção baixa o imposto e o erro te for imputável, até ao fim do prazo de reclamação graciosa (o pedido à Autoridade Tributária para rever o imposto liquidado) ou de impugnação judicial (a ação no tribunal tributário) — artigo 59.º, n.º 3, do Código de Procedimento e de Processo Tributário (CPPT). Esse prazo de caducidade — o tempo que a Autoridade Tributária ainda tem para liquidar imposto em falta — é, em regra, de quatro anos (artigo 45.º, n.º 1, da Lei Geral Tributária). Não entregar a declaração, ou entregá-la fora do prazo legal, pode dar lugar a coima (multa) de 150€ a 3.750€ (artigo 116.º, n.º 1, do Regime Geral das Infrações Tributárias). E substituir a declaração corrige o imposto, mas não apaga a infração: as substituições feitas depois do prazo fazem-se "sem prejuízo da responsabilidade contra-ordenacional que ao caso couber", diz o artigo 59.º, n.º 3, alínea b), do CPPT. Se o engano estiver na opção pelo englobamento, o guia sobre englobamento explica o que essa opção implica.

O ponto que exige mesmo atenção: o englobamento obrigatório

Na maioria das situações, escolher juntar (englobar) as tuas mais-valias ao resto do rendimento é opção tua — e compensa quando o imposto adicional que a mais-valia gera, ao somar-se ao teu rendimento coletável (o rendimento já depois das deduções), fica abaixo de 28% dessa mais-valia. Olhar só para a taxa marginal (a taxa que se aplica ao último euro do teu rendimento) não chega: uma mais-valia que atravesse a fronteira entre dois escalões paga uma parte a menos e outra a mais de 28%, e o resultado pode cair para qualquer dos lados — a conta em três passos está na secção "Ponto de equilíbrio", mais à frente. Mas há uma situação em que deixa de ser opção tua: o englobamento torna-se obrigatório quando se verificam, ao mesmo tempo, duas condições — os valores mobiliários vendidos foram detidos por um período inferior a 365 dias, e o teu rendimento coletável total (incluindo essa mais-valia) atinge ou ultrapassa o valor do último escalão da tabela de IRS do ano da venda — para as vendas feitas em 2026, 86.634€ (artigo 72.º, n.º 14, e último escalão do artigo 68.º, n.º 1, do Código do IRS). Esta regra não abrange imóveis, derivados nem criptoativos que não sejam valores mobiliários: o artigo 72.º, n.º 14, fala do saldo das operações da alínea b) do n.º 1 do artigo 10.º — ações, obrigações e unidades de participação. O Código do IRS não diz expressamente como este limiar se conta quando o casal opta pela tributação conjunta, mas a Autoridade Tributária já respondeu: conta o rendimento coletável de quem, no casal, é titular das mais-valias, com a mais-valia incluída, e não o rendimento do casal dividido por dois (informação vinculativa no processo n.º 25182, de 24 de maio de 2024). Um tribunal arbitral do CAAD decidiu no mesmo sentido em 2025 (processo n.º 1382/2024-T). Na prática, a declaração conjunta não afasta o englobamento obrigatório: se tens 75.000€ de rendimento coletável e vendes com 15.000€ de ganho ações detidas há seis meses, chegas a 90.000€ e englobas, mesmo que o teu cônjuge tenha 20.000€ e o rendimento do casal dividido por dois fique em 55.000€.

exemplo calculado — o impacto do englobamento obrigatório

Um rendimento coletável de 80.000€ (já depois das deduções) mais uma mais-valia de ações de 10.000€, detidas há 90 dias: o rendimento coletável total sobe a 90.000€, ultrapassando o limiar de 86.634€ — o englobamento passa a ser obrigatório. O imposto adicional sobre a mais-valia, calculado pela diferença entre o IRS a 90.000€ e o IRS a 80.000€, ronda os 4.574€, mais uma taxa adicional de solidariedade de 250€ (um imposto extra de 2,5% sobre a parte do rendimento acima de 80.000€, aqui 10.000€; ver englobar ou ficar pela taxa liberatória para o cálculo completo desta taxa) — total próximo de 4.824€. Com os 28% habituais (se não fosse obrigatório englobar), o imposto seria de apenas 2.800€. A diferença — mais de 2.000€ — é o custo real de cair nesta regra sem saberes que existia.

um segundo exemplo — o que muda se esperares até completar 365 dias

A regra pode parecer arbitrária, mas funciona assim: se essas mesmas ações tivessem sido detidas 365 dias em vez de 90, o englobamento obrigatório desaparecia por completo, mesmo com o rendimento total idêntico e a mesma mais-valia de 10.000€ — porque a condição exige as duas coisas em simultâneo (detenção curta e rendimento acima do limiar), não apenas uma. Se estiveres perto do limiar de 86.634€ de rendimento coletável e tiveres uma posição com ganho ainda não realizado perto de completar 365 dias de detenção, adiar a venda até passares essa marca pode ser, por si só, uma decisão que vale milhares de euros — confirma a data exata de compra (lembra-te da regra FIFO vista acima) antes de venderes perto dessa fronteira. Mas adiar não é grátis, porque o preço continua a mexer enquanto esperas. Se a posição do exemplo tivesse custado 10.000€ e valesse hoje 20.000€, vender já deixaria 10.000€ − 4.824€ = 5.176€ depois de imposto. Esperar só compensa se, até completares os 365 dias, a posição não perder mais de cerca de 2.811€ de valor (14% dos 20.000€): a partir daí, os 28% sobre uma mais-valia mais pequena deixam menos do que vender agora. Adiar só faz sentido se aceitares esse risco de mercado.

Ponto de equilíbrio: quando é que englobar por vontade própria compensa

Quando o englobamento é opcional, a conta é uma só: o imposto adicional que a mais-valia gera ao ser somada ao teu rendimento coletável tem de ficar abaixo de 28% dessa mais-valia. O teste faz-se em três passos.

Escalões de IRS de 2026 aplicáveis no continente e a fronteira dos 28% — em vigor a 25 de setembro de 2026
EscalãoRendimento coletávelTaxa marginalFace aos 28%
1.ºAté 8.342€12,5%Abaixo
2.º8.342€ – 12.587€15,7%Abaixo
3.º12.587€ – 17.838€21,2%Abaixo
4.º17.838€ – 23.089€24,1%Abaixo
5.º23.089€ – 29.397€31,1%Acima
6.º29.397€ – 43.090€34,9%Acima
7.º43.090€ – 46.566€43,1%Acima
8.º46.566€ – 86.634€44,6%Acima
9.ºMais de 86.634€48%Acima
Artigo 68.º, n.º 1, do Código do IRS, na redação da Lei n.º 73-A/2025 (Orçamento do Estado para 2026). São as taxas gerais, aplicáveis no continente: as regiões autónomas podem baixá-las, e a Madeira, no orçamento regional para 2026, aplicou a todos os escalões a redução máxima de 30% prevista na Lei das Finanças das Regiões Autónomas (Decreto Legislativo Regional n.º 8/2025/M, de 30 de dezembro). Se resides na Madeira ou nos Açores, as taxas que se aplicam a ti podem ser outras, incluindo a taxa especial de 28% com que este guia compara o englobamento: antes de fazeres estas contas, confirma com a Autoridade Tributária as taxas da tua região no ano da venda e o valor do último escalão que conta, no teu caso, para o englobamento obrigatório. Nos Açores, a lei regional aplica uma redução de 30% às taxas nacionais do IRS em vigor em cada ano, e a Autoridade Tributária indica 19,6%, em vez de 28%, para as mais-valias de quem lá reside; na Madeira, a redução regional de 30% vale só para as taxas retidas na fonte a título definitivo (as liberatórias), e a taxa especial das mais-valias continua nos 28%. A 17 de setembro de 2026, o Conselho de Ministros aprovou uma proposta que baixa as taxas do 1.º ao 6.º escalão — 0,3 pontos percentuais no 1.º e no 6.º, 0,5 pontos do 2.º ao 5.º —, mantém os limites dos escalões e, segundo o documento divulgado pelo Governo, aplicar-se-ia já aos rendimentos de 2026. Ainda não é lei: se for publicada, as taxas desta tabela mudam e o limiar de 86.634€ mantém-se.

A taxa marginal aplica-se só à fatia que cai em cada escalão, por isso a mais-valia é tributada a taxas diferentes consoante a parte do rendimento em que assenta. Os três exemplos seguintes usam mais-valias de ativos detidos há mais de 365 dias e menos de dois anos, sem exclusão por período de detenção, e o cálculo é feito fatia a fatia.

Englobar por vontade própria ou ficar pelos 28% — exemplos com a tabela de 2026
Rendimento coletávelMais-valiaImposto adicional se englobares28% de taxa especialVale a pena englobar?
15.000€4.000€881,70€1.120,00€Sim, poupas 238,30€
20.000€8.000€2.271,77€2.240,00€Não, custa mais 31,77€
40.000€4.000€1.470,62€1.120,00€Não, custa mais 350,62€

Estes três resultados usam as taxas em vigor a 25 de setembro de 2026. Se a redução aprovada em Conselho de Ministros a 17 de setembro de 2026 for publicada e se aplicar já aos rendimentos de 2026, como o Governo anunciou, o segundo caso inverte-se: com as taxas propostas, o imposto adicional passa a 2.231,77€, abaixo dos 2.240,00€ da taxa especial, e englobar poupa 8,23€; os outros dois mantêm a conclusão. Refaz a conta com a tabela que se aplicar aos rendimentos do ano da venda, e não com a do ano em que entregas a declaração.

O segundo caso mostra o ponto delicado: uma mais-valia que atravessa a fronteira do 4.º para o 5.º escalão paga uma parte a menos de 28% e outra a mais, e o resultado fica muito perto do empate. Este cálculo simplifica quando há mais em jogo do que a tabela: deduções que dependem do rendimento, perdas reportadas, a taxa adicional de solidariedade (imposto extra sobre a parte do rendimento acima de 80.000€; ver englobar ou ficar pela taxa liberatória) ou tributação conjunta (quando o casal entrega uma só declaração). Nestes casos, refaz o cálculo completo antes de decidires. Lembra-te também de que a opção vale para toda a categoria G do ano, como se explica a seguir.

Uma regra que se aplica por inteiro, não por partes

Se optares (voluntariamente, fora do cenário obrigatório) por englobar rendimentos de uma categoria, essa opção aplica-se a todos os rendimentos dessa categoria nesse ano. A lei di-lo numa linha: "Quando o sujeito passivo exerça a opção referida no n.º 3, fica, por esse facto, obrigado a englobar a totalidade dos rendimentos da mesma categoria de rendimentos" (artigo 22.º, n.º 5, do Código do IRS). Não podes englobar só uma mais-valia específica e deixar as outras de fora: englobar mais-valias de ações obriga a incluir também as de ETF, obrigações ou fundos de investimento que tenhas realizado no mesmo ano.

Perdas — como funciona o reporte, com um exemplo

Se tiveres um saldo negativo (mais menos-valias do que mais-valias) num ano em que optaste pelo englobamento, podes reportar essa perda aos 5 anos seguintes (artigo 55.º, n.º 1, alínea d), do Código do IRS), dentro das condições legais aplicáveis — mas este reporte só está disponível se tiveres optado por englobar, ou tiveres sido obrigado a englobar, no ano em que a perda foi apurada, não se ficaste pelos 28%.

Atenção a um ponto que corta nos dois sentidos: a exclusão de 10%, 20% ou 30% por período de detenção aplica-se ao saldo do ano "quando positivo ou negativo" (artigo 43.º, n.º 5, do Código do IRS). Se o teu saldo negativo resultar de valores mobiliários admitidos à negociação ou de partes de fundos abertos detidos há mais de dois anos, confirma com a Autoridade Tributária ou com um contabilista certificado qual é a perda que podes reportar.

exemplo

Em 2025, vendeste ações compradas menos de dois anos antes, com uma perda de 4.000€, e optaste por englobar esse ano. Em 2026, vendes outras ações, também compradas há menos de dois anos, com uma mais-valia de 6.000€. Se essa mais-valia entrar no englobamento, deduzes os 4.000€ de perda reportada e ficas sujeito a imposto apenas sobre os 2.000€ de ganho líquido. O artigo 55.º, n.º 1, alínea d), condiciona o reporte a teres optado por englobar, ou a teres sido obrigado a fazê-lo, no ano da perda; não diz o que acontece se, no ano em que a queres usar, ficares pelos 28%. Se é esse o teu caso, confirma com a Autoridade Tributária antes de decidires.

Dividendos — regras próprias, com risco real de dupla tributação

O englobamento dos dividendos declara-se no Anexo E (empresas portuguesas) ou no Anexo J, Quadro 8B (empresas estrangeiras). Dividendos de empresas com sede ou direção efetiva em Portugal, sujeitas a IRC (o imposto sobre os lucros das empresas) e não isentas, contam só por metade do seu valor bruto (antes da retenção) quando englobados — benefício previsto no artigo 40.º-A do Código do IRS, que existe para atenuar a dupla tributação económica (a empresa já pagou IRC sobre esse lucro antes de o distribuir). Este benefício também se aplica a dividendos de empresas sediadas noutro Estado da União Europeia, ou num Estado do Espaço Económico Europeu que troque informação fiscal com Portugal nos mesmos termos que os Estados da União Europeia (na letra da lei, "vinculado a cooperação administrativa no domínio da fiscalidade equivalente à estabelecida no âmbito da União Europeia"), desde que a empresa cumpra os requisitos da Diretiva europeia sobre sociedades-mãe e afiliadas (2011/96/UE) e sejas tu a apresentar prova disso: uma declaração confirmada pelas autoridades fiscais do Estado de residência da empresa (artigo 40.º-A, n.os 4 e 5). É esta exigência de prova, não a localização em si, que costuma ser o obstáculo prático: quem não consegue obter essa declaração acaba por declarar o dividendo pelo valor total, e o documento nem sempre é fácil de obter. Fora destes Estados (dividendos de ações americanas, por exemplo), o benefício não se aplica. A redução a metade só existe se englobares; sem englobamento, o dividendo paga os 28% sobre o valor total.

Os dividendos de ações estrangeiras podem ser tributados duas vezes — uma retenção no país de origem e depois em Portugal (28%, retidos pelo banco ou corretora nacional ou, se a corretora for estrangeira e não retiver, apurados por ti ao declarares). Nos ETF de distribuição domiciliados na Irlanda ou no Luxemburgo não é assim: em regra o país do fundo não retém imposto sobre o que ele te paga, e ficam só os 28% portugueses. Isso não quer dizer que o rendimento não tenha sido tributado antes de chegar a ti: os dividendos que o fundo recebe das empresas em carteira podem sofrer retenção nos países onde essas empresas estão sediadas, e esse imposto já vem descontado no que o fundo distribui. Onde declaras: no Anexo J, Quadro 8A. Para os dividendos de empresas, o código é E11 quando não houve retenção em Portugal (o caso normal numa corretora estrangeira) e E10 quando um intermediário português reteve imposto. Para as distribuições de um ETF estrangeiro recebidas sem retenção em Portugal (o caso normal numa corretora estrangeira), que são rendimento de um fundo e não lucros de uma empresa, o guia fiscal da Autoridade Tributária sobre produtos financeiros indica o código E22, "outros rendimentos de capitais sem retenção". Se um banco ou corretora português já reteve os 28%, essa retenção é definitiva e, em regra, só declaras a distribuição se optares por englobar, com o código E20 ("rendimentos de valores mobiliários com retenção em Portugal"). Confirma o código nas instruções do Anexo J do ano em que entregares e, se a dúvida persistir, coloca a pergunta no e-balcão, o serviço de atendimento eletrónico da Autoridade Tributária no Portal das Finanças. O rendimento bruto e o imposto pago no estrangeiro vão em colunas separadas, e é o imposto pago no estrangeiro que alimenta o crédito por dupla tributação, explicado a seguir. É também nesse anexo, no Quadro 8B, que assinalas se optas por englobar os rendimentos de capitais.

Os dividendos de empresas portuguesas seguem outro caminho: vão ao Anexo E, código E10. Se não houve retenção, declaram-se no Quadro 4A. Se o banco ou a corretora já reteve os 28%, só entram no Quadro 4B se optares por englobar; se não englobas, não há mais nada a declarar.

Corretoras estrangeiras — quase sempre tens de declarar a conta

Se investes através de uma corretora ou banco sediado fora de Portugal, tens, em regra, de identificar essa conta no Anexo J, Quadro 11 — mesmo que essa conta não tenha gerado rendimento nenhum no ano. Esta declaração é meramente informativa: não implica pagamento de imposto adicional, só identificação (IBAN, BIC, ou outro identificador da conta), e a obrigação decorre do artigo 63.º-A, n.os 8 e 9, da Lei Geral Tributária. Abrange as contas de que sejas titular e também aquelas de que sejas beneficiário, ou que estejas autorizado a movimentar.

A lei fala em "contas de depósitos ou de títulos abertas em instituição financeira não residente em território português ou em sucursal localizada fora do território português de instituição financeira residente" — uma fórmula mais ampla do que apenas "banco" na aceção estrita, que cobre as contas abertas em corretoras e não só em bancos tradicionais. O que decide é o tipo de conta (de depósitos ou de títulos) e o facto de a instituição não ser residente, não o nome comercial do serviço. Uma dúvida frequente é a das contas de serviços de pagamento com IBAN estrangeiro. A Autoridade Tributária esclareceu que, como a lei fala expressamente em "contas de depósitos ou de títulos", as contas de outra natureza, "nomeadamente as contas de pagamento", não estão abrangidas (Ofício Circulado n.º 20.211, de 18 de abril de 2019). Para saber o tipo de conta, conta a entidade que ta abriu, não a aplicação: uma instituição de pagamento ou de moeda eletrónica não pode receber depósitos (em Portugal, artigos 13.º e 14.º do Regime Jurídico dos Serviços de Pagamento e da Moeda Eletrónica), e foi por a entidade de que o ofício trata não operar, em 2018, como banco que a Autoridade Tributária tratou as respetivas contas como contas de pagamento. Se o prestador opera como banco (instituição de crédito), esse argumento deixa de valer: confirma no contrato que entidade te abriu a conta. A orientação mais prudente é: se tens uma conta de depósito ou de títulos numa entidade sediada fora de Portugal — seja um banco, seja uma corretora — declara-a no Quadro 11. O custo de declarar por excesso de cautela é zero (é só uma identificação), enquanto o risco de não declarar tem um preço concreto: numa conta em instituição financeira fora da União Europeia que não seja mencionada na declaração, o prazo em que a Autoridade Tributária ainda pode liquidar imposto sobe de quatro para doze anos (artigo 45.º, n.º 7, alínea b), da Lei Geral Tributária).

venda de ativos através de corretora estrangeira

Quando a venda de ações, ETF ou obrigações ocorre através de um intermediário estrangeiro, a declaração da mais-valia é obrigatória na mesma — em regra no Anexo J, quadro 9.2A, já que a maioria dos títulos negociados nestas corretoras é de emitentes estrangeiros (ver "Onde declarar" acima) — mesmo que já tenha havido alguma retenção de imposto nesse outro país. Não assumas que "já pagaram lá, não preciso de declarar cá" — o que acontece é que tens direito a um crédito pelo imposto já pago, não uma isenção da obrigação declarativa.

O crédito de imposto por dupla tributação internacional

Se pagaste imposto no estrangeiro sobre um rendimento (dividendo, mais-valia, juro) que também é tributado em Portugal, tens direito a um crédito de imposto que evita pagares duas vezes sobre o mesmo dinheiro — declarado no Anexo J. Este crédito está limitado ao valor efetivamente pago no estrangeiro ao abrigo da convenção aplicável (não ao que foi retido em excesso, se o país de origem tiver retido mais do que a convenção prevê), e não pode exceder o imposto que seria devido em Portugal sobre esse mesmo rendimento — artigo 81.º, n.os 1 e 2, do Código do IRS. O crédito existe para o imposto que tu pagaste sobre o teu rendimento: é isso que a lei chama "imposto sobre o rendimento pago no estrangeiro". Imposto suportado dentro de um fundo, antes de o dinheiro chegar a ti, não conta — é o que a segunda caixa a seguir explica.

o formulário W-8BEN — para ações americanas compradas diretamente

Se compras diretamente ações de sociedades constituídas nos EUA, a retenção na fonte sobre os dividendos é, em regra, de 30% por defeito — e desce para 15% ao abrigo do artigo 10.º, n.º 2, da convenção entre Portugal e os EUA, desde que tenhas um formulário W-8BEN válido entregue à corretora, a identificar-te como não residente fiscal nos EUA. O W-8BEN é o formulário das pessoas singulares (as entidades usam o W-8BEN-E) e, em regra, vale até ao último dia do terceiro ano civil seguinte ao da assinatura, a não ser que mudem as circunstâncias que declaraste. Se a tua corretora to pediu na abertura de conta, confirma que continua válido. A diferença, sobre 100€ de dividendo, sem retenção de IRS em Portugal e sem englobamento: com W-8BEN, 15€ ficam nos EUA e 13€ em Portugal (porque os 28% incidem sobre o valor bruto e o crédito abate os 15% pagos lá), num total de 28€; sem ele, 30€ ficam nos EUA e os mesmos 13€ cá — 43€ —, porque o crédito está limitado aos 15% da convenção, se o excesso retido nos EUA não for reembolsado.

nos ETF europeus, a retenção americana é tratada dentro do fundo

Num ETF domiciliado na Irlanda ou no Luxemburgo, quem recebe os dividendos das empresas americanas é o fundo, não tu — e é o enquadramento do fundo, não o teu, que determina quanto fica retido nos Estados Unidos. E os dois domicílios não são equivalentes. No caso irlandês, a convenção entre os EUA e a Irlanda trata os organismos de investimento coletivo irlandeses como residentes (artigo 4.º, n.º 1, alínea d)) e limita a retenção a 15% (artigo 10.º, n.º 2, alínea b)), desde que o fundo cumpra as condições de acesso aos benefícios da própria convenção (artigo 23.º). No caso luxemburguês não é assim: a administração fiscal do Luxemburgo inclui os EUA entre os países com os quais há convenção, mas em que esta não se aplica aos organismos de investimento coletivo, por força da própria convenção e do memorando de entendimento que a acompanha (circular L.G.-A n.º 61, de 24 de dezembro de 2024). Por isso, um ETF luxemburguês que detenha diretamente as ações americanas (a chamada replicação física) fica, em regra, sujeito à retenção legal americana de 30%. Em qualquer dos casos, essa retenção é suportada dentro do fundo e já vem descontada no que ele te paga ou no valor das unidades; o teu rendimento, para o IRS, é a distribuição que recebes ou a mais-valia que realizas quando vendes. Por isso não é imposto pago por ti no estrangeiro e não te dá crédito em Portugal. O W-8BEN que a corretora te pediu continua a ser preciso para a tua conta, mas não é ele que determina a retenção dentro de um ETF europeu.

Se existir uma convenção de dupla tributação entre Portugal e o país de origem — Portugal tem uma rede alargada destes acordos, incluindo com os Estados Unidos e com o Reino Unido, e a lista das convenções em vigor está publicada no Portal das Finanças — as regras dessa convenção específica determinam a taxa de retenção aplicável e como o crédito é calculado. Confirma se existe convenção aplicável ao teu caso concreto, e se a corretora está a aplicar corretamente a taxa reduzida na origem, em vez de assumires que sim.

um problema prático: prazos que não coincidem

Por vezes, à data limite de entrega do IRS português, ainda não tens a liquidação final do imposto no país estrangeiro (por exemplo, os EUA têm um calendário fiscal próprio, com prazos que podem não coincidir com os portugueses). Nesse caso, existe a possibilidade de entregar, até ao prazo normal de entrega do IRS (30 de junho), uma declaração específica (Modelo 49) que solicita a prorrogação do prazo de entrega até final desse ano, sem penalização, precisamente para dar tempo a que a liquidação estrangeira fique definitiva antes de reportares o valor exato em Portugal.

Três ideias erradas que custam caro

o que se costuma pensar

"Já me retiveram imposto lá fora, por isso não preciso de declarar."

o que é realmente verdade

A retenção no estrangeiro não substitui a declaração em Portugal. Declaras o rendimento bruto, indicas o imposto pago lá fora no Anexo J e usas o crédito por dupla tributação, limitado ao imposto que seria devido cá sobre o mesmo rendimento.

o que se costuma pensar

"Só declaro se ganhei dinheiro."

o que é realmente verdade

As vendas com perda entram no mesmo quadro, porque o que se tributa é o saldo do ano. Um saldo negativo só passa para os cinco anos seguintes se optares por englobar, ou se fores obrigado a fazê-lo. E a conta numa corretora estrangeira declara-se no Quadro 11 mesmo sem vendas nem rendimento.

o que se costuma pensar

"Vendo primeiro as compras mais caras, para a mais-valia ser mais pequena."

o que é realmente verdade

A lei fixa a ordem: vendem-se primeiro os títulos comprados há mais tempo, e a contagem faz-se separadamente em cada instituição financeira. Não há escolha para otimizar.

Checklist antes de venderes uma posição grande

O que fica fora deste guia

Este guia trata de ações, ETF, obrigações e fundos, e das contas em corretoras estrangeiras. Não cobre depósitos e Certificados de Aforro (ver onde colocar o dinheiro de curto prazo), PPR (ver escolher um PPR) nem criptoativos (ver declarar criptomoedas no IRS).

O que está assente e o que tens de confirmar por ti

Próximos passos

Se ainda não vendeste nada este ano, o trabalho mais valioso que podes fazer agora — não em abril — é organizar o registo de cada compra (data, quantidade, preço, comissão) por título, para que o cálculo FIFO e a verificação dos 365 dias sejam imediatos quando decidires vender. Se já vendeste e estás a preparar a declaração, começa por reunir a declaração anual de operações da tua corretora, confirma se algum W-8BEN caducou, e só depois simula o efeito no teu rendimento coletável total antes de decidires sobre o englobamento — ver englobar ou ficar pela taxa liberatória para o processo completo de decisão. Se tens criptoativos, as regras de detenção e isenção são diferentes das ações e ETF — um erro frequente é aplicar aos criptoativos as regras das ações e ETF, ou o contrário; está coberto em detalhe no guia de declarar criptomoedas no IRS.

Perguntas frequentes

Tenho de declarar se vendi ETF com prejuízo? Sim, a venda declara-se na mesma, com ganho ou com perda, no quadro que corresponde à entidade que emitiu o título (Anexo J, Quadro 9.2A, no caso de um ETF estrangeiro). Dentro do mesmo ano, ganhos e perdas entram no mesmo saldo e compensam-se; a lei afasta desse saldo as perdas de operações em que a outra parte do negócio está sediada num paraíso fiscal (em regra, um dos que constam de uma lista oficial aprovada por portaria) e, nos títulos detidos há mais de dois anos, aplica a esse saldo a exclusão parcial por tempo de detenção (10%, 20% ou 30%, consoante o prazo), seja ele positivo ou negativo. A perda só passa para os cinco anos seguintes se optares por englobar, ou se fores obrigado a fazê-lo, no ano em que a apuraste.

Onde declaro um ETF irlandês, no Anexo G ou no Anexo J? No Anexo J, Quadro 9.2A, com o código G20 (unidades de participação de fundos) e a Irlanda como país do emitente. O anexo depende de onde está sediada a entidade que emitiu o título, não de onde está a tua corretora. Só os títulos de emitentes portugueses vão ao Anexo G, Quadro 9. A conta na corretora estrangeira é uma obrigação à parte, no Quadro 11 do Anexo J.

Tenho de declarar a conta numa corretora estrangeira mesmo sem vendas? Sim. As contas de depósitos ou de títulos abertas em instituições financeiras não residentes identificam-se no Anexo J, Quadro 11, com o IBAN e o BIC, mesmo que não tenham gerado rendimento nesse ano (artigo 63.º-A, n.os 8 e 9, da Lei Geral Tributária). A obrigação abrange também as contas de que sejas beneficiário ou que estejas autorizado a movimentar. É uma identificação e não gera imposto. Na dúvida sobre o tipo da tua conta, declara.

Posso escolher vender primeiro as compras mais caras? Não. Para valores mobiliários da mesma natureza e que confiram idênticos direitos, a lei manda considerar vendidos primeiro os títulos adquiridos há mais tempo, o método FIFO (artigo 43.º, n.º 8, alínea d), do Código do IRS). A ordem é cronológica e conta-se separadamente por instituição financeira, por isso a mesma ação em duas corretoras tem dois FIFO independentes.

Quando é que o englobamento é obrigatório? Quando, ao mesmo tempo, vendes valores mobiliários (ações, obrigações ou unidades de participação em fundos) detidos há menos de 365 dias e o teu rendimento coletável, com essa mais-valia incluída, atinge ou ultrapassa o último escalão do IRS — 86.634€ nos rendimentos de 2026, declarados em 2027. Nesse caso o saldo dessas operações é tributado às taxas progressivas e não a 28%. Se qualquer das duas condições falhar, o englobamento continua a ser opcional. A regra não abrange imóveis, derivados nem criptoativos que não sejam valores mobiliários.

Quando declaro as vendas feitas em 2026? No IRS de 2026, entregue de 1 de abril a 30 de junho de 2027 (artigo 60.º do Código do IRS). O mesmo vale para os dividendos e os restantes rendimentos do ano. Se em 30 de junho o imposto pago no estrangeiro ainda não estiver definitivo, podes comunicar essa situação à Autoridade Tributária (Modelo 49) e entregar a declaração até 31 de dezembro.

Se já me retiveram imposto no estrangeiro, ainda tenho de declarar? Sim. A retenção no estrangeiro não substitui a declaração em Portugal. Declaras o rendimento bruto e indicas o imposto pago lá fora no Anexo J; o crédito por dupla tributação abate esse valor ao imposto português, até ao limite do imposto que seria devido cá sobre o mesmo rendimento. Guarda o comprovativo emitido pela autoridade fiscal do país de origem.

Fontes e referências

Consultadas em setembro e outubro de 2026. As ligações apontam para a versão em vigor à data; confirma sempre a versão mais recente antes de decidires.

Legislação

Organismos oficiais e formulários

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Nota: este conteúdo é informativo e educacional, não constitui aconselhamento fiscal personalizado. Limiares de escalão, regras de englobamento e obrigações declarativas referem-se à legislação em vigor em setembro de 2026 e são revistos anualmente — confirma sempre os valores atuais junto de um contabilista certificado ou da Autoridade Tributária, sobretudo se estiveres perto do limiar do último escalão ou tiveres contas em corretoras estrangeiras.